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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Graça Graúna

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 08.03.2022
Brasil / Rio Grande do Norte / São José do Campestre
Maria das Graças Ferreira (São José do Campestre, Rio Grande do Norte, 1948). Escritora, poeta, crítica literária, professora universitária, descendente do povo potiguara. Como pesquisadora, é pioneira na análise crítica da literatura indígena no Brasil. O deslocamento é a temática central de sua obra poética, estabelecendo diálogo com outras cu...

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Maria das Graças Ferreira (São José do Campestre, Rio Grande do Norte, 1948). Escritora, poeta, crítica literária, professora universitária, descendente do povo potiguara. Como pesquisadora, é pioneira na análise crítica da literatura indígena no Brasil. O deslocamento é a temática central de sua obra poética, estabelecendo diálogo com outras culturas ameríndias sobre a colonização das Américas e seus desdobramentos.

Na infância, à procura por melhores condições de vida, a família se submete a uma série de mudanças que impedem Graúna de concluir seus estudos. Depois de passar pelo curso supletivo, inicia os cursos de jornalismo e de filosofia, mas não chega a concluí-los. Em 1982, ingressa no curso de Letras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no qual se gradua em 1985.

Em 1987, inicia a carreira acadêmica com o mestrado em Letras pela mesma instituição. Defendida em 1991, a dissertação O imaginário dos povos indígenas na literatura infantil analisa a representação de povos indígenas na literatura destinada ao público infantil e produzida por autores não indígenas.

Em 1999, publica o livro de poemas Canto mestizo. A obra é dividida em duas partes: a primeira, intitulada "Hai-Kais", dedica-se à tradição poética oriental que, na vertente brasileira, assumiu o formato de poemas de três versos; a segunda parte leva o nome de "Post-scriptum" e é composta de poemas curtos, sem forma fixa, em geral com versos livres.

Os poemas trazem o caráter híbrido da poética de Graúna, que mescla idiomas, territórios e culturas distintas. Há poemas em espanhol, inglês e português entre versos em línguas indígenas. Em seus versos, o compromisso ético transparece tanto nas referências literárias ameríndias, quanto na solidariedade aos povos oprimidos.

As expressões de não pertencimento, de expropriação e de exílio se conjugam à construção de uma solidariedade transversal. Essa nova identidade une perseguidos políticos por ditaduras latino-americanas a povos escravizados e vítimas de genocídio.

No doutorado em Letras, iniciado em 1999, também na UFPE, Graúna dedica sua pesquisa à produção literária de autores e autoras indígenas. A tese Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil é defendida em 2003.

Nos poemas da coletânea Tear da palavra, publicada em 2007, Graúna se remete novamente à desterritorialização e ao desejo de reconstrução identitária. Desde o título, o livro valoriza formas literárias não escritas, com referência a práticas artesanais ancestrais. Muitos poemas abordam o projeto de colonização das Américas do ponto de vista indígena. O espaço urbano é representado como espaço estéril, associado ao deserto em que o plástico e o asfalto tomam o lugar da natureza. As imagens distópicas apontam para o fracasso socioambiental promovido pelo projeto colonial fundado na escravidão.

Outra característica presente na poesia de Graúna é a transversalidade, ou seja, o diálogo com outros povos marginalizados. As violências sofridas pelos povos indígenas são identificadas com o sofrimento de afrodescendentes, pessoas em situação de vulnerabilidade social, perseguidos políticos e outras vítimas do capitalismo ocidental.

Na poesia de Graúna há um combate ao estereótipo do indígena disseminado na literatura produzida por não indígenas. Em seus poemas metalinguísticos, o fazer poético representa uma estratégia de resistência e uma afirmação de identidade. Os saberes ancestrais são tecnologias de combate à poluição, à violência e à desigualdade que ameaçam a sobrevivência do planeta.

Em 2013, Graúna publica Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil, uma versão ampliada de sua tese de doutorado. O livro é a primeira obra crítica voltada especificamente para a literatura indígena no Brasil. A autora identifica elementos comuns à produção literária indígena na análise comparada com a literatura não indígena. Para os diversos povos indígenas, por exemplo, a literatura serve à produção de contranarrativas sobre a colonização brasileira. A escrita é, portanto, instrumento de luta política e afirmação identitária: uma estratégia de resistência cultural que problematiza a representação dos povos originários em suas especificidades e revê criticamente a expropriação de territórios e de culturas.

Segundo Graúna, autores indígenas como Daniel Munduruku (1964) e Eliane Potiguara (1950) manifestam na escrita variantes da história indígena construída coletivamente pela tradição oral. O reconhecimento da propriedade intelectual implica, nessa perspectiva, a coexistência da autoria individual e a produção coletiva. Quando Munduruku e Potiguara escrevem, seus textos representam registros históricos do pensamento e das origens de seus povos.

A literatura indígena se insere entre outros fazeres tradicionais, percebidos como expressões artísticas e também práticas sagradas, como a contação de histórias em grupo, a pintura corporal e a produção de colares, pulseiras, redes, cestas e tecidos. Em formato escrito, os mitos de origem seguem cumprindo a função de transmitir os saberes ancestrais para as gerações seguintes.

A poética de Graúna é rica em intertextualidade e demonstra profundo conhecimento literário. Em sua obra, a literatura é reconhecida como estratégia de sobrevivência individual e coletiva. A produção de contranarrativas escritas protagonizadas por indígenas representa, desse modo, uma luta política contra o esquecimento da formação histórica da nação brasileira, marcada pelo extermínio de culturas, expropriação de terras, deslocamentos forçados e escravização de outros povos. Em sua produção teórica, Graúna é precursora na crítica literária indígena, traçando elementos comuns de autores e autoras de diferentes povos em contraponto com a literatura não indígena.

Exposições 1

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Fontes de pesquisa 5

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  • CALISXTO, Lunara Abadia Gonçalves. "Vozes das mulheres indígenas em Eliane Potiguara e Graça Graúna". Revista Trama, v. 15, n. 34, pp. 50-59, 2019.
  • DINATO, Daniel. ReAntropofagia: a retomada territorial daarte. MODOS. Revista de História da Arte. Campinas, v. 3, n.3, p.276-284, set. 2019. Disponível em: https://www.publionline.iar.unicamp.br/index.php/mod/article/view/4224. Acesso em: 05 jan. 2022.
  • GRAÚNA, Graça. "Literatura indígena no Brasil contemporâneo e outras questões em aberto". Educação & Linguagem, v. 15. n. 25, pp. 266-276, jan.-jun. 2012.
  • GRAÚNA, Graça. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2013.
  • GRAÚNA, Graça. Flor da mata. Belo Horizonte: Peninha Edições, 2014.

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