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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Sueli Carneiro

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 31.08.2021
24.06.1950 Brasil / São Paulo / São Paulo
Registro fotográfico André Seiti/Itaú Cultural

Sueli Carneiro, 2017
André Seiti Miyahara, Sueli Carneiro

Aparecida Sueli Carneiro Jacoel (São Paulo, São Paulo, 1950). Filósofa, escritora e ativista feminista antirracista. Uma das principais intelectuais do país e referência do feminismo negro nacional, tem uma trajetória de décadas dedicada ao enfrentamento do racismo e do sexismo na sociedade brasileira.

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Aparecida Sueli Carneiro Jacoel (São Paulo, São Paulo, 1950). Filósofa, escritora e ativista feminista antirracista. Uma das principais intelectuais do país e referência do feminismo negro nacional, tem uma trajetória de décadas dedicada ao enfrentamento do racismo e do sexismo na sociedade brasileira.

Primogênita de uma família negra de classe média baixa, ainda na infância elabora estratégias de resistência contra as opressões a que estava submetida. Ao ingressar no curso de filosofia na Universidade de São Paulo (USP), aos 21 anos, aproxima-se das discussões do movimento negro que, àquela época, ganha força e visibilidade no Brasil com nomes como o ator Abdias do Nascimento (1914-2011) e a antropóloga Lélia Gonzalez (1935-1994). Em 2005, conclui o doutorado em educação pela mesma instituição.

Idealizadora do que se torna marco fundamental do protagonismo de mulheres negras brasileiras, em 1988, funda o Geledés – Instituto da Mulher Negra. A criação do Geledés é um dos momentos de destaque no percurso de vida de Sueli, pois simboliza a força de sua atuação dentro do feminismo negro, que passa a criticar a limitação de ação do feminismo branco hegemônico. A filósofa Djamila Ribeiro (1980) reforça a importância do trabalho de Sueli ao destacar que é preciso pensar as mulheres não como uma categoria universal, mas como as mulheres negras são sujeitas a uma interseccionalidade de opressões que devem ser encaradas para que esse grupo ganhe visibilidade e tenha sua humanidade restituída1.

À frente do Geledés, Sueli institui um programa pioneiro de atenção à saúde de mulheres negras, cujo objetivo é garantir informação e autonomia para que possam reivindicar seu direito constitucional aos serviços de saúde, sem que sejam submetidas a discriminações de raça e gênero nesses espaços. O Geledés é responsável também por inaugurar, na década de 1990, ações de combate à discriminação racial por meio da promoção de assistência legal às vítimas de racismo, projeto impulsionado pelas experiências de jovens negros artistas de hip hop da periferia da cidade de São Paulo.

Ainda no ano de 1988, início da recente redemocratização do país, Sueli Carneiro, em ação junto a outras ativistas e parlamentares negras e negros, contribui para uma das mais importantes conquistas da Constituição Federal de 1988: a criminalização do racismo, que deixa de ser apenas uma contravenção penal para se tornar crime inafiançável e imprescritível. Sua participação em processos políticos ganha novo episódio em 2010, quando atua ativamente para a aprovação da política de cotas raciais, como um instrumento de reparação histórica à população negra, no ensino superior brasileiro.

Em 1985, lança o primeiro livro, Mulher Negra: Política Governamental e a Mulher, com as ativistas Thereza Santos (1930-2012) e Albertina de Oliveira Costa (1940). Esta publicação apresenta um panorama das ausências de mulheres negras no espectro político-governamental, os gargalos e demandas sociais e políticas desse grupo, no contexto em que o livro é lançado. Publica Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil (2011), obra que reúne textos escritos entre 1999 e 2010 para veículos da imprensa nacional. Nesses textos, Sueli aborda múltiplas questões pertinentes às estruturas raciais brasileiras, como os sempre preocupantes indicadores sociais da população negra, as barreiras impostas pelas questões de gênero às mulheres negras e as duras realidades encontradas no mercado de trabalho, com a precária inserção profissional desse grupo. A obra tem sido importante subsídio para a formulação de políticas públicas voltadas para a população negra em diversos âmbitos, como educação, saúde, trabalho e cultura2.

Em 1998, o Geledés, sob sua coordenação, recebe o Prêmio Direitos Humanos da República Francesa pelas ações antirracistas que desenvolve. Em 2017, Sueli é uma das vencedoras do prêmio oferecido pelo Itaú Cultural para pessoas e coletivos de atuação expressiva na arte e na cultura do país. Contudo, o reconhecimento, que lança luz à obra e à vida de Sueli passa, principalmente, pelas novas vozes do feminismo negro brasileiro, que têm se constituído a partir de uma geração de mulheres negras reposicionadas em seu protagonismo e atentas ao caminho aberto pela luta de suas antecessoras3

Incentivada por Djamila Ribeiro e pela escritora Conceição Evaristo (1946), lança o livro Sueli Carneiro: Escritos de uma Vida (2019), por um selo editorial que leva seu nome e presta homenagem à sua trajetória.

A obra traz reflexões realizadas num arco temporal de aproximadamente três décadas. Sueli analisa os avanços alcançados4, à medida que denuncia a desigualdade que ainda impossibilita a presença de mulheres negras em espaços de poder. Além de análises técnicas, o livro também trata de aspectos que tangenciam as subjetividades negras, como os impactos da estereotipia sobre o corpo e a psique negra, as violências simbólicas reiteradas nas representações midiáticas, a importância da religiosidade de matriz africana, e a necessidade do entendimento do tempo feminino e do poder das mulheres no culto aos orixás. 

Sueli Carneiro é uma das principais referências política e intelectual na batalha de conferir dignidade à população negra no Brasil. Sua atuação como feminista negra é parte fundamental de um processo de luta coletiva que, representada pela tenacidade de sua existência, ganha fôlego para seguir resistindo.

 

Notas

1. RIBEIRO, Djamila. Quem tem medo do feminismo negro. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 17.

2. Exemplos dessas políticas públicas são a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, de 2007, a criação da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), em 2003, a criação da Lei nº 10.639/03, que institui a obrigatoriedade da temática “História e cultura africana e afro-brasileira” no currículo oficial da rede de ensino brasileira.

3. As jornalistas Juliana Gonçalves (1989) e Bianca Santana (1984) são nomes dessa nova geração. Em 2019, lançam o livro Vozes Insurgentes de Mulheres Negras: Do Século XVIII à Primeira Década do Século XXI, em que trazem à tona o pensamento de mulheres negras brasileiras de diversas áreas do conhecimento, e apontam a importância de Sueli para o levante feminista negro.

4. Alguns desses avanços apresentados no livro são a destituição do pátrio poder na Constituição Federal de 1988, o 2º Plano Nacional de Políticas para Mulheres, em 2008, e a constitucionalidade da política de cotas raciais no ensino superior brasileiro, em 2010.

Obras 1

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Exposições 1

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Fontes de pesquisa 5

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  • CARNEIRO, Sueli. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011.
  • CARNEIRO, Sueli. Sueli Carneiro. [Entrevista cedida a] Afonso Borges. Programa Sempre um Papo. São Paulo, 21 mar. 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FNoD7FCQcXo. Acesso em: 20 maio 2020.
  • CARNEIRO, Sueli. Sueli Carneiro: Escritos de uma vida. São Paulo: Pólen Livros, 2019.
  • RIBEIRO, Djamila. Quem tem medo do feminismo negro? São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
  • SANTANA, Bianca (org). Vozes Insurgentes de Mulheres Negras: do século XVIII à primeira década do século XX. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2019.

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