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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Cristino Wapichana

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 10.11.2022
1971 Brasil / Roraima / Boa Vista
Registro fotográfico Eduardo Fujise e Gideoni Junior/Itaú Cultural

Cristino Wapichana, 2016

Cristino Wapichana (Boa Vista, Roraima, 1971). Contador de histórias, escritor, músico, compositor, produtor cultural. Artista indígena, utiliza-se de sua familiaridade com as palavras e a música para disseminar histórias, saberes e heranças dos povos originários, reforçando a importância dessa população para a formação da sociedade brasileira.

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Cristino Wapichana (Boa Vista, Roraima, 1971). Contador de histórias, escritor, músico, compositor, produtor cultural. Artista indígena, utiliza-se de sua familiaridade com as palavras e a música para disseminar histórias, saberes e heranças dos povos originários, reforçando a importância dessa população para a formação da sociedade brasileira.

Pertencente ao povo Wapichana, etnia indígena criada a partir do encontro do Sol com a Lua e cujo território se localiza no estado de Roraima, no extremo norte amazônico, tem o primeiro contato com a música por intermediação de seu pai, que o ensina a tocar violão. Da família materna, sua linhagem indígena tem na mãe e na avó as referências de ancestralidade que alimentam o desejo de contar as histórias de seu povo. Enfrenta dificuldades no acesso formal à educação, o que o leva a concluir o ensino médio tardiamente, por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), no ano de 2004. Vive em Boa Vista, capital do estado de Roraima, até meados da década de 2000.

Decidido a se dedicar profissionalmente ao universo artístico, conclui cursos técnicos de música e direção cinematográfica, mas percebe que, por viver em uma cidade distante do eixo Rio-São Paulo, as oportunidades de formação e trabalho são escassas. No ano de 2006, quando passa a usar o nome artístico evocativo de sua origem indígena, estabelece contato com o escritor Daniel Munduruku (1964), que o convida a integrar a equipe de organização do Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas (Nearin)1, na cidade do Rio de Janeiro. Muda-se para a capital carioca, onde consolida o seu trabalho como escritor e inscreve seu nome como um importante curador, organizador e produtor de eventos sobre a literatura indígena. Em 2014, passa a viver na cidade de São Paulo.

Em 2007, seu texto A onça e o fogo vence o 4° Concurso Tamoios de literatura pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), o que possibilita sua publicação em 2009. Na década de 2010, publica outros quatro títulos, todos voltados ao público infantojuvenil: Sapatos trocados (2014), A oncinha Lili (2014), A boca da noite (2016) e O cão e o curumin (2018).

A boca da noite narra a história de Kupai, um pequeno menino wapichana que, com sua curiosidade, tenta desvendar o mistério do anoitecer e entender a relação de seu povo com o dia, a noite e os seres encantados que habitam a floresta. O livro é premiado em 2017 pelo 59º Prêmio Jabuti com o 3º lugar na categoria de livro infantil e, em 2018, pelo International Board on Books for Young People (IBBY), na Suécia, recebendo a Estrela de Prata do Prêmio Peter Pan. 

O fato de ter sido uma criança indígena de família interracial e com uma infância marcada, muitas vezes, pela impossibilidade de acesso à sua própria história, explica o desejo de Wapichana em reverter esse cenário para as gerações posteriores e se dedicar à uma literatura de caráter afirmativo para crianças e jovens indígenas e não indígenas.

Sua habilidade em contar histórias e utilizar a palavra como instrumento para narrar a riqueza e a diversidade da cultura indígena sem estigmatização se torna uma das características mais importantes de sua obra. Segundo a análise da pesquisadora Ana Lúcia Liberato Tettamanzy, a versatilidade do autor em movimentar a sua escrita por meio de diferentes linguagens, símbolos e espaços narrativos confere uma liberdade criativa, autoral e significativa à sua obra2. Como representante de uma geração de escritores e escritoras, da qual também fazem parte Eliane Potiguara (1950), Ailton Krenak (1953) e Daniel Munduruku, ajuda a consolidar a ideia de uma literatura indígena contemporânea que reivindica o protagonismo das próprias narrativas e a existência de um campo literário em que suas escritas, marcadas sobretudo pela oralidade dos povos originários, sejam reconhecidas e legitimadas.

A partir de sua aproximação pessoal e profissional com a literatura e os círculos de escritores e artistas indígenas, envolve-se também com a militância quando passa a coordenar e organizar instituições de defesa e difusão da cultura indígena, como o Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual (Inbrapi), em 2003, em parceria com Daniel Munduruku. Como coordenador do Nearin, torna-se responsável pela agenda de dezenas de encontros, nacionais e regionais, de autoras e autores indígenas. Esses eventos trazem ao conhecimento do público um número grande de escritores de vários povos indígenas brasileiros que, por uma soma de fatores e exclusões, não tem a chance de apresentar a sua literatura num circuito de maior visibilidade. Por essa movimentação e engajamento, é indicado em dois anos diferentes (2014 e 2018) ao Prêmio da Ordem do Mérito Cultural da Presidência da República, em reconhecimento à difusão das culturas e artes indígenas.

O percurso de Cristino Wapichana com a literatura se faz pelo olhar preocupado com as novas gerações de leitores e em diálogo com outras expressões artísticas originárias. Sua trajetória está em constante conexão com o compromisso de valorização e perpetuação da cultura indígena nacional, tanto por meio do trabalho com as palavras, arte que empreende com destreza, como pela defesa da ancestralidade e da humanidade de seu povo.

Notas

1. Criado dentro da estrutura do Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual (Inbrapi), em 2003, inicialmente foi pensado como um Núcleo de Escritores Indígenas (NEI). A partir da percepção, por parte de seus fundadores Daniel Munduruku e Cristino Wapichana, de que uma produção artística se desenvolvia para além das artes literárias, passa a integrar também outras expressões artísticas e recebe o nome de Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas (Nearin).

2. TETTAMANZY, Ana Lúcia Liberato. Prefácio. In: DORRICO, Julie; DANNER, Leno Francisco; CORREIA, Heloísa Helena Siqueira; DANNER, Fernando (Orgs.) Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção. Porto Alegre: Editora Fi, 2018. p. 20.

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