Artigo da seção pessoas Paulo Santos

Paulo Santos

Artigo da seção pessoas
Artes visuais  
Data de nascimento dePaulo Santos: 1904 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 1988 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Paulo Ferreira Santos (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1904 – Idem, 1988). Arquiteto, historiador e professor. Em 1926, forma-se como engenheiro-arquiteto pela Escola Nacional de Belas Artes (Enba), Rio de Janeiro. Em 1927, inaugura escritório de arquitetura, engenharia e construção com o colega Paulo Ewerard Nunes Pires (1903-?). A partir da década de 1930, com novos sócios – o industrial e irmão Jorge Ferreira dos Santos, o engenheiro civil Nathan Feferman e o arquiteto e sobrinho Paulo de Tarso –, a empresa assume a denominação Pires e Santos S. A. Arquitetura, Engenharia, Construção e Incorporação. Responsável por obras importantes no Rio de Janeiro, como a Escola Técnica do Exército (1939-1940), o escritório, ainda em atividade, é uma das maiores empresas de arquitetura e engenharia da cidade nas décadas de 1960 e 1970, com cerca de 1.500 funcionários. Até 1974, Paulo Santos é responsável por gerir contratos, orçamentos e desenhos, supervisionar obras e relacionar-se com clientes. Entre outras atividades do arquiteto, merece destaque a tradução do Manual de Instalações Hidráulico-Sanitárias (Standing Plumbing Details), de Louis J. Day, um clássico do gênero desde os anos 1940.

Santos desenvolve também carreira como professor e historiador de arquitetura e urbanismo. Em 1930, assume o cargo de professor de geometria descritiva, perspectiva e sombras da prefeitura do Rio de Janeiro. No ano seguinte, a convite do diretor da Enba, o arquiteto Arquimedes Memória (1893-1960), participa da Comissão Especial responsável pela implementação de alterações, regulamentadas pela Reforma Francisco Campos [1]. Entre 1932 e 1935, dá aulas na Universidade do Rio de Janeiro. Em 1934, ingressa como professor na Escola Técnica do Exército, onde ministra aulas até 1953. Na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, leciona entre 1934 e 1938. Em 1946, assume a cadeira Arquitetura no Brasil na recém-criada Faculdade Nacional de Arquitetura (FNA) até aposentar-se em 1969. Efetiva-se como professor-titular em 1951, defendendo a tese Arquitetura Religiosa em Ouro Preto (1949). O trabalho rende-lhe convide de Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969) para integrar o conselho consultivo do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), função que ocupa até 1981. Em 1951, publica O Barroco Jesuítico na Arquitetura do Brasil. De sua produção acadêmica, destacam-se os livros Arquitetura na Sociedade Industrial (1961), Formação de Cidades do Brasil Colonial (1963), Quatro Séculos de Arquitetura (1965) e o trabalho apresentado 1º Colóquio Nacional de História da Arte, Constantes da Sensibilidade do Povo Brasileiro (1975). Em 1981, o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB/RJ) concede-lhe prêmio pelo conjunto da obra e, em 1987, recebe medalha comemorativa do Sphan.

 

Análise

Paulo Ferreira Santos tem a carreira marcada pela pluralidade de atividades, mas se destaca como professor e historiador, responsável por obras fundamentais da história da arquitetura e do urbanismo no Brasil.

Entre 1927 a 1974, projeta e constrói centenas de edificações residenciais, comerciais, industriais, escolares e de lazer no Rio de Janeiro. Eclética nos primeiros anos, como no projeto da Residência do Alto da Boa Vista (1930-1940), a produção do escritório simplifica-se nos anos 1930, rumo a uma linguagem depurada, variante do art decó e do classicismo, expressa nos edifícios Barão de Lucena (1937), Colombo (1938) e na Escola Técnica do Exército (1939-1940), hoje Instituto Militar de Engenharia. Nos anos 1940, os projetos aproximam-se do movimento moderno, quando realiza a Escola Central do Senai (1948), edifício longilíneo de formas puras, marcado pela varanda contínua da fachada principal e a disposição ritmada dos pilotis. Também realiza uma série de residências nas quais explora uma das características centrais da arquitetura moderna brasileira: a relação entre tradição e modernidade, nos termos estabelecidos por Lucio Costa (1902-1998). O melhor exemplo da série é a Residência Martin Holzmeister (1955), pela síntese entre arquitetura colonial e moderna, revelada no uso combinado de telhas capa e canal; nas treliças de madeira e colunas de ferro; no desenho da varanda; na transparência do térreo; e na conformação do pátio interno. Essas qualidades são louvadas no livro Modern Architecture in Brazil (1956), de Henrique E. Mindlin (1911-1971); no artigo de Lucio Costa “Architectural Development in Brazil” (1959), publicado na revista Brazilian American Survey; e nas coletâneas Arquitetura Moderna no Rio de Janeiro (1991) e Guia de Arquitetura Moderna no Rio de Janeiro (2000). 

A atenção dada à arquitetura colonial e moderna e o compromisso em revelar a identidade nacional expressam-se também na produção escrita. Responsável pela disciplina arquitetura no Brasil na FNA desde 1946, Santos transforma radicalmente o ensino da história, restrito, segundo a historiadora Maria Ligia Sanches, aos grandes movimentos internacionais e limitado à história factual e linear.

Avesso a essa vertente, Santos volta-se ao contexto social, político e econômico para construir uma história crítica, que situa o valor e o sentido da obra no momento de sua realização. O esforço em superar o anacronismo de trabalhos da época, além de afastá-lo da historiografia canônica, coloca-o em conflito com pioneiros do “patrimônio” tradicional. Santos defende o valor e o tombamento de exemplares da arquitetura eclética carioca, como o Palácio Monroe e os edifícios cariocas construídos na avenida Rio Branco e na Cinelândia, muitos deles demolidos com a anuência do Sphan, apesar de seus protestos.

Dedicada ao mapeamento da arquitetura religiosa da cidade mineira, a tese Subsídios para o Estudo da Arquitetura Religiosa em Ouro Preto (1949) é o trabalho de estreia como historiador e dá origem ao livro O Barroco Jesuítico na Arquitetura do Brasil. A importância da obra é igualada aos trabalhos pioneiros do historiador estadunidense Robert C. Smith (1912-1975) e do francês Germain Bazin (1901-1990). Sobre o período, Santos realiza a conferência Formação de Cidades no Brasil Colonial, no 5° Colóquio Luso-Brasileiro (1963). Partindo da oposição entre colonização espanhola e portuguesa e de sua consequência no desenho das cidades sul-americanas estabelecida pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), em Raízes do Brasil (1936), Paulo Santos vale-se, segundo o historiador Roberto Conduru, 

[...] de modo pouco ortodoxo de documentos (desde cartas régias e mapas até relatos de viajantes – Debret e Vauthier, entre outros), de análises do Brasil (de Varnhagen e Capistrano de Abreu a Josué de Castro e Câmara Cascudo, mas também Gustavo Barroso e Pedro Calmon), de textos de teoria da arquitetura (de Vitruvio a Palladio) e de análises contemporâneas das cidades (desde estrangeiros como Saarinen, Lewis Munford e Robert Smith a Silvio de Vasconcellos e João Boltshauser) para defender que a cidade informal possui não só ordem, método e rigor específicos, mas, sobretudo, valores singulares [2]

Isso explica as formas originais das cidades portuguesas e as disfunções urbanas do Brasil contemporâneo. As relações entre o legado português e a especificidade da produção nacional são também investigadas em Constantes de Sensibilidade do Brasileiro na Arquitetura no Período Colonial, Paralelo com as dos Portugueses (1975).

Seu livro mais conhecido, Quatro Séculos de Arquitetura, é escrito para as comemorações do quarto centenário de fundação do Rio de Janeiro. Considerado um marco na historiografia brasileira, é dividido em três períodos – colonial, imperial e republicano –, nos quais contexto e obras são minuciosamente descritos com apoio documental. A arquitetura moderna, tratada apenas no fim da obra, torna-se um dos assuntos centrais a partir de 1958, quando, em função de uma reforma curricular, a disciplina arquitetura no Brasil é desmembrada em duas, cabendo a Santos o ensino do movimento moderno. Ele escreve textos importantes sobre o tema, como a coletânea de artigos publicada na Revista Habitat, posteriormente reunidos no livro Arquitetura na Sociedade Industrial (1961); “O Homem e a Máquina – O Arquiteto e o Urbanista no Mundo de Amanhã”, pronunciamento realizado em 1958, na cerimônia comemorativa do 13o aniversário da FNA; “A Década de 1920-1930. Antecedentes e Eclosão do Movimento Moderno” (1971), palestra proferida no Encontro Nacional de Arquitetos do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB); e “A Arquitetura Moderna e suas Raízes”, comunicação apresentada em 1977, no curso do Museu Nacional de Belas Artes.

 

Notas

1. Reforma educacional que leva o nome do ministro da Educação do governo de Getúlio Vargas (1882-1954), durante o Estado Novo (1930-145).

2. CONDURU, Roberto. Formas originais das disfunções urbanas contemporâneas. Vitruvius, São Paulo, ano 1, jan. 2002. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/01.001/3272. Acesso em: 10 dez. 2011.

Outras informações de Paulo Santos:

  • Outros nomes
    • Paulo Ferreira Santos
  • Habilidades
    • Arquiteto
    • historiador
    • Professor

Fontes de pesquisa (16)

  • CONDURU, Roberto. Formas originais das disfunções urbanas contemporâneas. Vitruvius, São Paulo, ano 1, jan. 2002. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/01.001/3272. Acesso em: 10 dez. 2011.
  • CZAJKOWSKI, Jorge Paul (Org.). Guia de arquitetura moderna no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Casa da Palavra: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 2000.
  • NOBRE, Ana Luiza. A História entre os modernos. Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, n. 92, out. 2000. Disponível em: http://www.au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/92/a-historia-entre-os-modernos-24381-1.aspx. Acesso em: 29 nov. 2011.
  • NOBRE, Ana Luiza; BRITTO, Alfredo; XAVIER, Alberto. Arquitetura moderna no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Rioarte; São Paulo: Pini: Fundação Vilanova Artigas, 1991.
  • SANCHES, Maria Ligia Fortes. Construções de Paulo Ferreira Santos: a fundação de uma historiografia da arquitetura e do urbanismo no Brasil. Tese (Doutorado em História) – Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005.
  • SANTOS, Paulo Ferreira. Formação de cidades no Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2001.
  • SANTOS, Paulo Ferreira. O barroco e o jesuítico na arquitetura do Brasil. Rio de Janeiro: Kosmos, 1951.
  • SANTOS, Paulo Ferreira. Subsídios para o estudo da arquitetura religiosa em Ouro Preto. Rio de Janeiro: Kosmos, 1951.
  • SANTOS, Paulo Ferreira. Relatório da Proposta de Tombamento do Conjunto Arquitetônico: Rio Branco (Avenida), compreendendo: Palácio Monroe, Biblioteca Nacional, Escola de Belas Artes, Derbi Clube, Joquei Clube, Clube Naval, Teatro Municipal, Assembléia Legislativa. Rio De Janeiro – Guanabara. Conselho Consultivo do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Processo n. 860-T-72. I.P.H.A.N./D.E.T. Seção de História. Relator: Paulo F. Santos. Rio de Janeiro, 18 out. 1972. Acervo pessoal Paulo Ferreira Santos, Biblioteca Paulo Santos, Paço Imperial.
  • SANTOS, Paulo Ferreira. Constantes de sensibilidade na arquitetura do Brasil. Arquitetura Revista, Rio de Janeiro, v. 6, p. 52-71, 2. sem., 1988. 
  • SANTOS, Paulo Ferreira. Formação de cidades no Brasil Colonial. In: COLÓQUIO Internacional de Estudos Luso-Brasileiros 5, 1963, Coimbra. Actas..., Coimbra, 1968.
  • SANTOS, Paulo Ferreira. Quatro séculos de arquitetura. Rio de Janeiro: IAB, 1981.
  • SEGAWA, Hugo. Quatro séculos de arquitetura pelo cronista da arquitetura carioca. Revista Projeto, São Paulo, n. 39, p. 22, 1982.
  • TELLES, Augusto Carlos da Silva. A biblioteca Paulo Santos e o Paço Imperial. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro. v. 384, p. 574-578, jul./ set. 1994.
  • VASCONCELOS, Augusto Carlos. A presença de Paulo Ferreira Santos. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, n. 30, p. 167-187, 1989.
  • XAVIER, Alberto (Org.). Depoimento de uma geração – arquitetura moderna brasileira. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • PAULO Santos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa641353/paulo-santos>. Acesso em: 24 de Out. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7