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Literatura

Geovani Martins

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 13.01.2021
18.07.1991 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Geovani Martins (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1991). Escritor, contista e cronista. Em sua escrita, a perspectiva da juventude da periferia urbana do Rio de Janeiro assume a centralidade das narrativas. Em crônicas e contos de ficção com apelo autobiográfico, Martins mescla a linguagem coloquial e a norma culta com fluidez, abrangendo o léxic...

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Geovani Martins (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1991). Escritor, contista e cronista. Em sua escrita, a perspectiva da juventude da periferia urbana do Rio de Janeiro assume a centralidade das narrativas. Em crônicas e contos de ficção com apelo autobiográfico, Martins mescla a linguagem coloquial e a norma culta com fluidez, abrangendo o léxico de diversas favelas da capital fluminense, com suas gírias e expressões próprias. Seu estilo é apresentado como "novo realismo"1, com a preponderância da trama e do enredo. 

Martins trabalha em ofícios diversos antes de se tornar escritor profissional. As experiências como homem-placa, atendente de lanchonete, vendedor de barraca de praia e garçom de bufê infantil conferem ao autor um lugar de fala para narrar a vida na favela do ponto de vista de seus moradores. Muitas dessas vivências adentram o universo ficcional de Martins na forma de personagens com profissões análogas.

O gosto pelas narrativas tem início por influência das histórias contadas pela avó. Martins abandona a escola antes de finalizar o ensino fundamental, mas compensa a falta de estudo formal com uma formação autodidata. Entre suas influências estão escritores brasileiros como Jorge Amado (1912-2001) e Machado de Assis (1839-1908), as crônicas de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e a música popular brasileira.

Sua relação com a literatura se consolida a partir de 2013, quando participa pela primeira vez da Festa Literária das Periferias (Flup). Na Flup do ano seguinte, publica sua crônica “Rojão”, resultante da oficina de narrativas curtas oferecida pelo poeta Carlito Azevedo (1961). Inspirada em uma notícia, a crônica é narrada do ponto de vista do rojão que provoca a morte do repórter cinematográfico Santiago Ilídio Andrade (1964-2014) durante manifestações. 

Em 2015, Martins participa da programação paralela da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde apresenta as edições da revista Setor X (2011) ao lado de colegas da Rocinha, de Manguinhos e do Complexo do Alemão. As edições são resultantes de oficinas de texto, foto e edição realizadas em diversos morros do Rio de Janeiro e reportam histórias suburbanas. 

Em 2018, Martins lança O Sol na Cabeça (2018), seu livro de estreia, que reúne 13 contos. A obra é publicada pela Companhia das Letras com uma forte campanha de divulgação e rapidamente se torna um fenômeno de vendas. Os direitos de publicação são vendidos para editoras ao redor do mundo antes mesmo do lançamento no Brasil. O livro é traduzido para outros idiomas como catalão, alemão, espanhol, chinês, inglês, espanhol e holandês, e tem seus direitos de adaptação cinematográfica negociados.

“Rolézim” é o conto que abre o livro, com uma linguagem repleta de gírias e as falhas de concordância próprias da oralidade. O enredo traz de forma envolvente as dificuldades enfrentadas por um grupo de jovens da periferia que partem em busca de um banho de mar em um dia quente. A falta de dinheiro e a perseguição da polícia são alguns dos percalços vividos.

O nono conto do livro, “Estação Padre Miguel”, conta em primeira pessoa a história de cinco jovens que planejam visitar a filha recém-nascida de um amigo em comum na Vila Vintém, na zona oeste do Rio de Janeiro. No caminho, eles compram maconha e fumam na linha de trem, até que são expulsos do local por dois seguranças do tráfico armados de metralhadoras. A escrita tem o ritmo de um pensamento acelerado pela adrenalina do medo e da droga.

Em alguns contos se apresenta a figura materna como única responsável pelo cuidado e sustento do lar. Em “Sextou” essa personagem está presente numa narrativa sobre a procura por emprego de um jovem morador de favela. Este trabalha recolhendo bolas de tênis em um condomínio na Barra da Tijuca e é demitido por responder a uma provocação de um dos moradores. Algum tempo depois, começa a distribuir panfletos de publicidade na Rua da Carioca. Numa sexta-feira, após receber o salário, ele vai à favela do Jacarezinho comprar maconha e na volta é assaltado por policiais. 

Em “O Espiral”, o medo de uma violência iminente se intensifica e tem seu ápice no fim do conto. O protagonista narra o agravamento de sua obsessão por perseguir desconhecidos na rua. O que inicialmente é uma reação de medo e raiva se transforma em um “estudo sobre relações humanas”2 e um jogo de intimidação. O nome do narrador-personagem não é revelado ao leitor, nem a cor de sua pele. Ele descreve a si mesmo e aos demais personagens por elementos como o bairro onde moram e o tipo de ensino que recebem (escola pública na favela, escola particular na zona sul). Esse é um recurso de Martins em resposta ao que considera um vício da literatura brasileira descrever personagens negros prioritariamente pela cor de sua pele, enquanto nos brancos predominam características psicológicas.

A velocidade do ritmo narrativo reflete o processo mental de personagens permeados por um cotidiano violento. O racismo e a desigualdade não são anunciados como tópicos de um debate, eles são representados indiretamente, por meio dos conflitos e dos transtornos psicológicos que provocam nos personagens. Estão presentes em diversas narrativas os efeitos psíquicos e sociais violentos de uma sociedade que não sabe lidar com sua herança escravocrata. 

As narrativas curtas de Geovani Martins se aproximam da realidade por apresentarem uma rica descrição de cenários e da sociabilidade carioca sob a perspectiva de jovens marginalizados no Rio de Janeiro do início do século XXI.

 

Notas:

1. COMPANHIA DAS LETRAS. Catálogo. O sol na cabeça. Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=14481. Acesso em: 24 ago. 2020.

2. MARTINS, Geovani. O sol na cabeça. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 19.

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