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Literatura

Jaime Prado Gouvêa

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 16.07.2020
1945 Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte
Jaime Prado Gouvêa (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1945). Contista, romancista e jornalista. Desenvolve narrativas com elementos do realismo, além de de episódios e reviravoltas que atingem um final imprevisível. Os personagens de seus contos representam figuras da pequena burguesia e expressam angústias entre devaneios e afazeres ordinários. Em ...

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Jaime Prado Gouvêa (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1945). Contista, romancista e jornalista. Desenvolve narrativas com elementos do realismo, além de de episódios e reviravoltas que atingem um final imprevisível. Os personagens de seus contos representam figuras da pequena burguesia e expressam angústias entre devaneios e afazeres ordinários. Em seu único romance, revisita a tradição literária mineira, por meio de nomenclaturas e situações que rememoram a história da região retratada. Como jornalista, contribui para o renomado Suplemento Literário de Minas Gerais, que passa a gerir mais tarde.

Estuda direito na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Após finalizar os estudos, dedica-se ao jornalismo e trabalha no Jornal da Tarde e O Globo. Em 1969, é convidado pelo escritor Murilo Rubião (1916-1991) para integrar a equipe do renomado Suplemento Literário de Minas Gerais.

Com a proposta de renovar o panorama cultural do estado, em pouco tempo o Suplemento se transforma em um veículo privilegiado para divulgação e crítica de literatura. Com Minas Gerais como centro irradiador, o grupo ganha proeminência nacional ao aproximar antigos e novos autores e promover a publicação de seus textos. Além de Jaime Prado Gouvêa, os escritores Humberto Werneck (1945) e Sérgio Sant’Anna (1941-2020) fazem parte da chamada Geração Suplemento. Como redator do Suplemento, Jaime entrevista artistas e desenvolve a crítica cultural.

Em 1969, o escritor recebe o primeiro lugar no Concurso Nacional de Contos do Paraná, na categoria estudante. Um ano depois, publica seu primeiro livro, Areia Tornando em Pedra (1970), uma compilação de 15 contos, entre os quais 9 premiados e outros publicados de forma avulsa no Suplemento.

Gouvêa é inovador ao desenvolver narrativas curtas numa época em que o romance é tido como gênero primordial. A disposição das histórias ao longo do livro faz alusão ao processo de amadurecimento humano: começa na infância, passa pela juventude e chega à vida adulta. O tema central é a solidão, que pode ser vista nos monólogos dos personagens, na ausência de diálogos e nas cenas estáticas. 

Entre os contos não há grandes heróis, nem acontecimentos extraordinários. Os personagens são pessoas comuns, cuja psicologia é caracterizada por excentricidade e lirismo. Suas fantasias individuais são expressas em vozes do inconsciente, majoritariamente em primeira pessoa.

Jaime retrata o cotidiano comezinho e ordinário da burguesia, dos trabalhadores de escritório e dos profissionais liberais. Esses sujeitos buscam dar significado à sua existência em meio a atividades repetitivas e enfadonhas. O tom narrativo é melancólico e pessimista, embora também seja reconhecido pelo humor crítico e modesto. As narrativas começam de maneira despretensiosa e atingem o clímax com um final surpreendente.

Quanto às vozes literárias, Jaime tem uma postura experimentalista, variando entre a primeira e a terceira pessoa. Dessa forma, o autor flerta com elementos do realismo mágico. Em linguagem intimista, nota-se a influência de escritores do Suplemento, mas também de nomes internacionais, como o romancista austro-húngaro Franz Kafka (1883-1924) e o filósofo franco-argelino Albert Camus (1913-1960). Esses autores são reconhecidos por construírem personagens ordinários, que se perdem em devaneios existenciais enquanto são consumidos pela burocracia das sociedades modernas.

Em 1982 Jaime Prado Gouvêa recebe o Prêmio Guimarães Rosa, da Secretaria do Estado de Minas Gerais. Anos depois publica Fichas de Vitrola (1986). O livro é dividido em quatro partes e tem a música como fio condutor. Em tom saudosista, os contos são repletos de referências musicais, em odes à boemia mineira e seus hábitos burgueses.

A narrativa “Concerto para Berimbau e Gaita” trata de um protagonista sem nome que circula pelas ruas e bares de Belo Horizonte. “Oh, Bernadine” tem como personagem principal um radialista. O título deste último conto é o mesmo de uma canção do músico norte-americano Pat Boone (1934), o que reforça as influências musicais na obra.

Depois do sucesso dos contos, Jaime Prado Gouvêa investe pela primeira vez na publicação de um romance. O Altar das Montanhas de Minas (1991) é marcado por referências à história da literatura. O autor representa a ascensão e queda dos intelectuais mineiros na figura de Dirceu Dumont, jornalista que escreve um romance sobre Álvaro Garreto. 

Os nomes desses personagens são alusões a figuras históricas: os poetas Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Antônio Barreto (1954); e os escritores portugueses Almeida Garret (1799-1854) e Álvaro de Campos, pseudônimo de Fernando Pessoa (1888-1935). A personagem Marília, por sua vez, remete a Marília de Dirceu (1792), de Tomás António Gonzaga (1744-1810).

Ao contrário dos contos, em que não utiliza a narrativa linear, nesse romance Jaime Gouvêa segue uma cronologia precisa. As idas e vindas de Dirceu Dumont entre Belo Horizonte e Ouro Preto marcam a decadência dos intelectuais e dos centros urbanos. Com suas aspirações e anseios, o protagonista busca recuperar as glórias da antiga Minas Gerais. No entanto, suas expectativas terminam em decepção e fracasso. Em 2009, depois da segunda edição de O Altar das Montanhas de Minas, Jaime assume a coordenação do Suplemento Literário.

Como integrante da Geração Suplemento, Jaime Prado Gouvêa tem um papel de destaque na literatura brasileira. Sua trajetória profissional é produto de um período rico em produção ficcional e crítica, e traz as marcas do grupo mineiro que influencia significativamente a cultura textual brasileira no século XX.

Fontes de pesquisa 6

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  • BARRETO, Lázaro. Contos dos bosques noturnos. In: Suplemento Literário de Minas Gerais. Belo Horizonte, v. 21, n. 1048, p. 10, nov. 1986.
  • BARRETO, Lázaro. O Descabeceado enroladíssimo (a respeito do primeiro romance de Jaime Prado Gouvêa). In: Suplemento Literário de Minas Gerais. Belo Horizonte, v. 24, n. 1169, p. 14, set. 1991.
  • RODRIGUES, Rafael. O altar das montanhas de Minas. Digestivo Cultural. [S.l.], 21 mai. 2010.
  • VIEIRA, Luiz Gonzaga. Os Jogos das relações humanas. In: Suplemento Literário de Minas Gerais. Belo Horizonte, v. 22, n. 1064, p. 3, mar. 1987.
  • WERNECK, Humberto. Areia tornando em pedra, de Jaime Prado Gouvêa, ou a solidão denunciada. In: Suplemento Literário de Minas Gerais. Belo Horizonte, v. 5, n. 189, p. 6, abr. 1970.
  • WERNECK, Humberto. O desatino da rapaziada. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

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