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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Élle de Bernardini

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 14.10.2021
1991 Brasil / Rio Grande do Sul / Itaqui
Registro fotográfico Marcus Leoni

Élle de Bernardini, 2020

Élle de Bernardini (Itaqui, Rio Grande do Sul, 1991). Artista visual, performer e bailarina. Muitos trabalhos de Bernardini têm como suporte a própria figura da artista ou outras estruturas que remetem ao corpo. As obras criam experiências sensoriais que se opõem às investidas contra a liberdade de gênero.

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Élle de Bernardini (Itaqui, Rio Grande do Sul, 1991). Artista visual, performer e bailarina. Muitos trabalhos de Bernardini têm como suporte a própria figura da artista ou outras estruturas que remetem ao corpo. As obras criam experiências sensoriais que se opõem às investidas contra a liberdade de gênero.

Bernardini estuda balé clássico desde a infância e se torna uma das poucas bailarinas transgênero a ingressar em uma turma feminina de balé da Royal Academy of Dance de Londres (2011). Estuda Butô com os artistas japoneses Yoshito Ohno (1938-2020) e Tadashi Endo (1947), em 2012. A partir de 2015, concentra seu interesse na produção visual, mas a intensidade de sua presença cênica e a busca pelas sínteses, que a artista experimenta no Butô, marcam suas performances.

Na dança/performance Corpo à Beira da Crise (2013-2019), lutas sociais e identitárias que não se expressam verbalmente são travadas no corpo da performer. Nesse trabalho já se nota o diálogo com o conceito de “corpo falante”, investigado por Bernardini no Manifesto Contrassexual (2000), do filósofo espanhol Paul B. Preciado (1970). Ao cursar filosofia na Universidade Federal de Santa Maria – UFSM (2015), seus interesses se voltam para os pensadores que abordam a sexualidade questionando as categorias de gênero fundadas num sistema binário, masculino e feminino.

O Manifesto Contrassexual propõe sociabilidades baseadas na compreensão dos sujeitos como “corpos falantes” imbuídos de potencialidades, superando a noção de gênero. Tal discussão emerge em diferentes trabalhos da artista, como na série Formas Contrassexuais (2019). Embora tragam algo de orgânico, é difícil atribuir a tais formas um referente direto. Elas se multiplicam por superfícies maleáveis, como tecido, vinil, silicone, couro, borracha, em texturas e tonalidades orgânicas e inorgânicas.

Por trás do projeto orgânico está um código visual que representa, segundo Bernardini, as cinco principais zonas erógenas do corpo humano: pênis, vagina, escroto, seios e ânus, signos que se metamorfoseiam entre si. As cores também são codificadas, com a recorrência de diferentes tons de pele, entre rosas e azuis, culturalmente associados aos gêneros feminino e masculino, mas distanciados da interpretação corrente. A artista desdobra esse mapeamento corporal em paisagens e objetos que se aproximam da abstração.

Em alguns trabalhos, a aparência esquemática das formas contrassexuais alude a uma escrita hieroglífica. Na instalação Tumba (2020), a parede forrada por folhas de ouro inscreve os corpos dos observadores numa escritura proposta pela artista, a fim de conceder maior liberdade à sintaxe corporal dos discursos verbais e visuais. Ao ouro também é reservado o papel de atrair o observador para dentro do discurso.

O mel e as folhas de ouro que Bernardini aplica sobre si para a performance Dance with me (2018-2019) fazem referência aos trabalhos do artista alemão Joseph Beuys (1921-1986) e sua ideia de escultura social. Também contêm uma ironia sutil. Dance with me combina sentidos: a visão, o olfato, a audição despertada por um repertório de música brasileira considerado de bom gosto pelas classes mais abastadas e, principalmente, o toque, na dança com a artista. A pluralidade sensorial corresponde à diversidade dos corpos dissidentes. Com sua nudez coberta por ouro, a artista dança no espaço expositivo, jogando com a expressão popular utilizada para repudiar uma pessoa: "nem se fulano(a) estivesse coberto(a) de ouro". Bernardini responde a essa afirmação subentendida pintando-se de ouro e convidando seus interlocutores à dança, defendendo a aceitação dos corpos que se afastam da heteronormatividade.

Na série de fotoperformances A Imperatriz (2018-2019), com sua presença pictórica em vermelho, Élle ocupa espaços arquitetônicos gélidos e imponentes, representativos do poder político e cultural. Utilizando joias e roupas de alta-costura como recurso estratégico para adentrar tais espaços, que impõem determinados padrões de comportamento, a personagem criada por Élle pretende seduzir as instituições e abrir caminho para outras artistas trans. A visita a esses espaços representa uma reparação simbólica da injustiça histórica gerada pela ausência de pessoas trans nas coleções e espaços artísticos. Com a incorporação de uma fotografia da performance ao acervo da instituição, o trabalho atua sobre o próprio sistema de arte e suas estratégias de eleição. 

As obras de Bernardini dedicam-se ao tato, talvez o sentido mais capaz de provocar os limites das convenções de sociabilidade. Sexualidades e identidades ganham materialidade por meio da pele, órgão social, e por essa razão ela é tão enfatizada em muitos trabalhos da artista, como ocorre na instalação Transdialética (2020), obra que consiste numa síntese de proposições anteriores da artista e apresenta um modelo de sociabilidade não binário, propiciado pela experiência sensorial.

Explorando diferentes texturas, tantas quantas são as diferenças entre os corpos e identidades, as obras de Élle de Bernardini abordam questões políticas e de gênero por meio da atuação no campo simbólico, propondo meios para pensar a sociedade atual e para forjar uma sociedade futura, mais igualitária.

Obras 13

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Reprodução fotográfica arquivo da artista

As Marcas que Carreguei

Sapatilha utilizada pela própria artista e pregos

Exposições 30

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Festivais 4

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Instalações 1

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Mostras 9

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Performances 12

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Mídias (1)

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Élle de Bernardini – Série Cada Voz (2020)
Élle de Bernardini apresenta sua trajetória como bailarina até chegar ao Royal Ballet de Londres e, posteriormente, a mudança para as artes visuais por sua participação ser limitada em razão de seu gênero.

Suas obras dialogam com elementos da dança e discussões sobre performance de gênero. Por meio de referências da filosofia, ela fala sobre a importância de existir e marcar sua presença em tudo o que produz, em especial como mulher transexual.

ITAÚ CULTURAL
Presidente Alfredo Setubal
Diretor Eduardo Saron
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Gerente: Tânia Rodrigues
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Produção de conteúdo: Camila Nader
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Direção, edição e fotografia: Marcus Leoni
Montagem: Renata Willig
Intérprete de Libras: Florio & Fomin (terceirizada)

O Itaú Cultural (IC), em 2019, passou a integrar a Fundação Itaú para Educação e Cultura com o objetivo de garantir ainda mais perenidade e o legado de suas ações no mundo da cultura, ampliando e fortalecendo seu propósito de inspirar o poder criativo para a transformação das pessoas.

Fontes de pesquisa 8

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