Artigo da seção pessoas Luciane Ramos Silva

Luciane Ramos Silva

Artigo da seção pessoas
Dança  
Data de nascimento deLuciane Ramos Silva: 1977 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Luciane Ramos Silva (São Paulo, São Paulo, 1977). Bailarina e antropóloga. Baseando-se em corporeidades africanas e afro-diaspóricas, articula as ideias de pluralidade, movimento e transformação em seus trabalhos. Sua produção evoca a ancestralidade negra presente na cultura de países que, como o Brasil, viveram a experiência colonial.

De formação transdisciplinar, que abarca as artes do corpo, a antropologia e a educação, a artista mobiliza ações e reflexões que questionam os modelos hegemônicos da produção de conhecimento em dança. Ao apresentar seus referenciais artísticos e teóricos, retoma a trajetória de corpos negros criadores de um pensamento artístico contemporâneo, fundamentado na herança africana1.

O interesse pelas poéticas afro-diaspóricas se dá antes de ingressar na universidade, quando integra o grupo de capoeira angola Guerreiros de Senzala. Nele, tem os primeiros contatos com a dança afro contemporânea2 e conhece outras expressões artísticas afro-brasileiras, como o maculelê e o samba de roda.

O encontro entre dança e antropologia ocorre durante a graduação em ciências sociais, na Universidade de São Paulo (USP). Nessa época, inicia os estudos sobre religiosidades afro-brasileiras e atribui ao simbolismo mítico das danças dos orixás as referências estéticas e poéticas que marcam sua trajetória artística e intelectual.

Transitar entre a antropologia e as artes do corpo lhe permite abordar como os processos de representação identitária vinculam-se a modelos de hierarquização e subjugação dos corpos negros, tomados como objetos, e não como sujeitos, ao longo da história. Essa é uma das questões centrais de seu trabalho, no qual a bailarina-antropóloga busca refutar noções naturalizadas sobre os corpos racializados, sistematicamente compreendidos como exóticos e/ou folclorizados. Essas concepções contribuem para desqualificar os saberes ancestrais que esses corpos carregam, além de dar continuidade ao projeto colonial que desumaniza os povos africanos.

Desde 2009, realiza pesquisas de campo em países da África do Oeste (Burkina Faso, Guiné Conacry, Mali e Senegal). Essas experiências dão magnitude ao seu trabalho e proporcionam proximidade com expressões artísticas de culturas tradicionais dessa região. Suas referências estéticas são ampliadas e se aprofundam nos princípios da espiritualidade, temporalidade e circularidade, noções fundamentais para as culturas africanas e afro-diaspóricas. O corpo na dança, ou o corpo que dança, não se desvincula do substrato sociocultural que carrega. Refletir sobre essas culturas significa acionar referenciais onto-epistemológicos, nos quais a própria noção de movimento precisa ser expandida, pois está incorporada à vida cotidiana.

No intuito de aprofundar os impactos da eurocentralidade nos sujeitos dançantes, a artista traz perspectivas epistemológicas que buscam estreitar as relações sul-sul e elabora um pensamento crítico ao modelo hegemônico dos currículos das artes do corpo no Brasil. Ao questionar a ideia unívoca da formação clássica em dança, argumenta como as marcas da colonização se inscrevem nos sistemas educativos de territórios com experiências diaspóricas como o Brasil.

Na busca por outras noções de consciência corporal e equilíbrio, procura conhecer técnicas como o butoh, BMC e eutonia. Torna-se integrante de diversos grupos de dança, como o Grupo de Estudos de Dança e a Abieié Cia de Dança.

Sua trajetória de estudos, pesquisas e práticas pedagógicas percorre a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade de Maryland (Estados Unidos), Edit (Burkina Faso), Centre Momboye (França), Centre Bagatai (Guiné Conacry), L’École des Sables (Senegal). Nessa última instituição, realiza pesquisa sobre a coreógrafa senegalesa Germaine Acogny (1944) e a técnica por ela desenvolvida.

Em sua tese de doutorado, Corpo em Diáspora: Colonialidade, Pedagogia de Dança e Técnica Germaine Acogny (2017), apresenta como a pesquisa e práticas pedagógicas da dançarina senegalesa culminam no método de ensino-aprendizagem corpo em diáspora. A investigação epistemológica e biográfica dessa técnica, anunciada enquanto epistemologia do sul, é um dos eixos da tese. A conclusão do trabalho se dá com o solo Olhos nas Costas e um Riso Irônico no Canto da Boca, síntese criativa da pesquisa.

As produções artísticas de Luciane Ramos Silva são permeadas pela relação considerada intrínseca entre sujeito, cultura e coletividade, de forma que movimentos e gestos revelam elementos ligados à ancestralidade. É por meio de sentimentos, emoções e sensações que a dança afro-diaspórica se atém aos processos de escritas de si, sempre com a possibilidade de reelaboração e criação de códigos ancestrais. É a história que se faz presente, com toda sua dimensão plural, nos corpos em movimento.

Notas

1. Dentre as principais referências encontram-se Abdias Nascimento (1914-2011), Mercedes Baptista (1921-2014) e Inaicyra Falcão dos Santos, entre outros.

2. Posteriormente Luciane Ramos Silva problematiza a veiculação da dança afro no singular e passa a considerar suas referências de forma plural danças afro. 

Outras informações de Luciane Ramos Silva:

  • Habilidades
    • Bailarina
    • Antropólogo

Fontes de pesquisa (3)

  • CARNEIRO, Gabriel. Luciane Ramos Silva. Diálogos Ausentes, São Paulo, 24 maio 2017. Disponível em: https://www.itaucultural.org.br/luciane-ramos-silva-dialogos-ausentes-2017 Acesso em: 04 dez. 2019
  • MATALLO, Pedro. Entrevista Luciane Ramos. Centro Cultural Virtual, [s.d.]. Disponível em: http://centroculturalvirtual.com.br/conteudo/luciane-ramos-entrevista>. Acesso em: 10 dez. 2019
  • SILVA, Luciane Ramos. Corpo em diáspora: colonialidade, pedagogia de dança e técnica Germaine Acogny. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LUCIANE Ramos Silva. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa640296/luciane-ramos-silva>. Acesso em: 30 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7