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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Vanusa

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 01.11.2022
22.09.1947 Brasil / São Paulo / Cruzeiro
08.11.2020 Brasil / São Paulo / Santos
Vanusa Santos Flores (Cruzeiro, São Paulo, 1947 – Santos, São Paulo, 2020). Cantora e compositora. Com uma produção que abarca do rock psicodélico à música romântica, suas canções exploram o cotidiano e o universo feminino, denunciando a violência doméstica e o desejo de transformação.

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Vanusa Santos Flores (Cruzeiro, São Paulo, 1947 – Santos, São Paulo, 2020). Cantora e compositora. Com uma produção que abarca do rock psicodélico à música romântica, suas canções exploram o cotidiano e o universo feminino, denunciando a violência doméstica e o desejo de transformação.

Seu aprendizado musical é feito de maneira intuitiva, observando as aulas de violão tomadas por sua irmã e, mais tarde, pela escuta dos discos da cantora americana Aretha Franklin (1942-2018), em que busca técnicas de emissão de som e respiração. Começa a cantar na adolescência com o conjunto Golden Lions, na cidade de Frutal, Minas Gerais. Convidada por Sidney Carvalho para fazer um teste em São Paulo, demonstra grande personalidade e poder de negociação, opondo-se à proposta de se apresentar como concorrente da cantora Wanderléa (1946) – na época no auge da carreira e ídolo de Vanusa.

Contratada pela TV Excelsior, substitui o lutador Ted Boy Marino (1939-2012) no programa Telecatch. Participa também do programa Adoráveis Trapalhões, ao lado do comediante Renato Aragão (1935), e dos cantores Ivon Curi (1928-1995) e Wanderley Cardoso (1945). Estes programas possibilitam exercitar seu lado cômico e de atriz, importantes em sua performance como intérprete musical. Nas atrações musicais, destaca-se por sua presença de palco, que visa alcançar o público telespectador.

A cantora participa ainda das duas últimas edições do programa Jovem Guarda. A influência do iê-iê-iê, no entanto, é perceptível em seu primeiro compacto simples, de 1967, com o rock “Pra Nunca Mais Chorar”, de Carlos Imperial (1935-1992) e Eduardo Araújo (1942), e uma versão de sua autoria de “Il Geghegè”, da cantora italiana Rita Pavone (1945). Em seu primeiro LP, lançado em 1968, Vanusa busca um registro de voz na região médio-grave, no intuito de diferenciar sua voz. Além de diversas faixas de rock, o álbum traz o spiritual1 “Negro”, parceria com David Miranda.

Em seu segundo álbum, de 1969, demonstra mais segurança para explorar sua extensão vocal e alcançar regiões mais agudas, ora com efeitos roucos, ora num registro límpido e suave, como em “O que é Meu É Teu”, composta por Sílvio Brito (1952), na qual Vanusa inclui risos e sussurros, conferindo à interpretação um tom jocoso. Interpreta uma versão do soul “Sunny”, da cantora americana Cher (1946), escrito pelo cantor americano Bobby Hebb (1938-2010), e transforma “Caminhemos”, samba de 1947, de Herivelto Martins (1912-1992), em um rhythm and blues. O contraste entre os dois álbuns é perceptível também na capa: enquanto no primeiro a cantora posa sorrindo, com a mão na cintura em estilo jovial, no segundo, a objetiva capta seu corpo em movimento, com os pés descalços, rosto e braços desfocados. 

O disco seguinte, 1971, apresenta forte influência da black music. A capa traz um lettering com a inscrição 1971 sobrepondo uma fotografia da cantora, condensando em uma montagem psicodélica colagens de imagens, entre as quais do jogador Pelé (1940), de heróis de desenhos animados e outros ícones da cultura pop. Consolidando algumas tendências do álbum anterior, Vanusa demonstra habilidade ao empregar sua voz como instrumento, utilizando scats2 em músicas como “O Dia e a Hora”, dos compositores Ivan Lins (1945) e Ronaldo Monteiro de Souza (1945), e “Ponte Aérea 15 Horas”, de Wilson Miranda (1940-1986) e Messias.

Em 1973, lança um de seus maiores sucessos como compositora, a balada “Manhãs de Setembro”, parceria com o compositor Mário Campanha (1949). O álbum aponta para uma intérprete versátil, que transita por gêneros como a valsa “Você Não Morreu”, o samba-choro experimental “Quebra Cabeça”, a canção romântica “Coisas Pequenas”, e o rock “What To Do”.

Ao longo dos anos 1970, torna-se uma artista bastante presente nas mídias. Atua na quarta montagem brasileira do musical Hair (1973), e na novela Cinderela 77 (1977). Em seus álbuns, busca diversificar a produção, dialogando cada vez mais com autores da MPB e, ao mesmo tempo, mantendo uma linha eclética e uma linguagem pop. Lança o LP Amigos Novos e Antigos (1975), que, como sugere a faixa-título, traz parcerias antigas, como Antônio Marcos (1945-1992), Mário Campanha e Sérgio Sá (1953-2017), ao passo que outros compositores passam a figurar em seu repertório, como Belchior (1946-2017), Milton Nascimento (1942) e Luiz Melodia (1951-2017).

Além do traço autoral na escolha do repertório e dos arranjos, Vanusa emplaca várias composições de sua autoria, emblemáticas pelo seu teor feminista, como “Rotina” (1975), parceria com Mário Campanha, e “Mudanças” (1979), com Sérgio Sá.

Grava em 2015 um álbum que leva seu nome de batismo, produzido por Zeca Baleiro (1966). Diferentemente dos trabalhos das décadas de 1980 e 1990, não traz regravações de seu repertório, e aposta em uma proposta mais intimista.

Vanusa marca sua presença na música popular brasileira por suas interpretações vigorosas e sua postura inovadora. Capaz de se reinventar ao longo do tempo, defende sua atuação como compositora em um momento em que as mulheres são vistas apenas como intérpretes.

 

Notas:

1. Ritmo surgido nos Estados Unidos, inicialmente interpretada por negros escravizados, faz uso de movimentos rítmicos e palmas para acompanhar o andamento da música.

2. Scat singing consiste em uma técnica de improvisação na qual o cantor vocaliza sílabas, valorizando mais a sonoridade que o sentido semântico.

Fontes de pesquisa 10

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  • FAOUR, Rodrigo. História sexual da MPB: a evolução do amor e do sexo na canção brasileira. 4. ed. Rio de Janeiro-São Paulo: Record, 2011.
  • FRÓES, Marcelo. Jovem Guarda: em ritmo de aventura. São Paulo: Editora 34, 2000.
  • MARIA, Julio. Ouviram Vanusa. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 21 ago. 2015, p. 48. Caderno 2, C5.
  • MARIA, Julio. Vanusa por inteiro. O Estado de S. Paulo, 11 out. 2015, p. 42. Caderno 2, C8.
  • MEDEIROS, Jotabê. O infinito de Vanusa. Farofafá, 8 nov. 2020. Disponível em https://farofafa.cartacapital.com.br/2020/11/08/o-infinito-de-vanusa/. Acesso em: 11 nov. 2020.
  • MEIRELLES, Domingos. Os Trapalhões, 15 anos de risos, palhaçadas e sucesso. O Estado de S. Paulo, 28 jun. 1981, p. 36.
  • RODRIGO Faour entrevista Vanusa. Rodrigo Faur, 27 mar. 2010. (25min10s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=M0cG2w8P-0I&t=1160s. Acesso em: 13 nov. 2020.
  • SANTANNA, Marilda. As donas do canto: o sucesso das estrelas-intérpretes no Carnaval de Salvador. Salvador: EDUFBA, 2009.
  • VANUSA, cantora, morre aos 73 anos em Santos, no litoral de SP. G1 Santos, 08 nov 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2020/11/08/cantora-vanusa-morre-aos-73-anos-em-casa-de-repouso-em-santos.ghtml. Acesso em: 07 jan 2020.
  • VANUSA: ‘Eu era brega, mas vendia muito disco’. Entrevistada por Sérgio Martins. Vejapontocom, 13 out. 2015. (44min33s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=dArCPOUnf64. Acesso em: 13 nov. 2020.

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