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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Gonzaga Duque

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 14.05.2015
1863 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
1911 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução fotográfica César Barreto

Retrato de Gonzaga Duque, 1888
Rodolfo Amoedo, Gonzaga Duque
Óleo sobre tela, c.s.d.
40,00 cm x 50,00 cm

Luiz Gonzaga Duque Estrada (Rio de Janeiro RJ 1863 - idem 1911). Crítico de arte, romancista, contista, jornalista, cronista e historiador. Começa cedo a atuar no jornalismo. Em 1880, funda, com Olímpio Niemeyer, o periódico O Guanabara. Colabora na Gazetinha, de Artur Azevedo (1855-1908), em 1882, e, no ano seguinte, na Gazeta da Tarde, de José...

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Biografia
Luiz Gonzaga Duque Estrada (Rio de Janeiro RJ 1863 - idem 1911). Crítico de arte, romancista, contista, jornalista, cronista e historiador. Começa cedo a atuar no jornalismo. Em 1880, funda, com Olímpio Niemeyer, o periódico O Guanabara. Colabora na Gazetinha, de Artur Azevedo (1855-1908), em 1882, e, no ano seguinte, na Gazeta da Tarde, de José do Patrocínio (1853-1905). No ano de 1887, escreve artigos de crítica para A Semana com o pseudônimo de Alfredo Palheta. Em 1888 publica seu primeiro livro, A Arte Brasileira.

Funda em 1895 a Rio-Revista com Lima Campos. Escreve em 1898 Revoluções Brasileiras: Resumos Históricos, texto de história do Brasil que aborda, de maneira bastante inovadora, as diversas lutas populares pelo poder político, revoltas como a Cabanada, 1832, a Balaiada, 1838-1841, e a Guerra dos Farrapos, 1835-1845, e faz a descrição do Quilombo dos Palmares. Em 1899, publica o romance Mocidade Morta, que o faz reconhecido como uma das principais figuras da literatura simbolista no país.

Em 1901 funda as revistas Mercúrio e a simbolista Galáxia, esta com Lima Campos. Com ele e Mario Pederneiras (1868-1915) cria em 1908 a revista Fon-fon. Colabora em diversos periódicos: Brasil Moderno, Revista Contemporânea, O Globo, O Paiz, Diário de Notícias, Diário do Comércio, entre outros, usando muitas vezes pseudônimos como André de Resende, Amadeu, J. Meirinho, Diabo Coxo, o Risonho.

Gonzaga Duque trabalha ativamente na revista Kosmos, uma das mais importantes surgidas no meio intelectual e artístico do fim do século XIX, na qual escrevem figuras como Oliveira Lima (1867-1928), Artur Azevedo, Manoel Bonfim (1868-1932), Rocha Pombo (1857-1933), Capistrano de Abreu (1853-1927). A partir de 1907, assume as "Chronicas" que abrem a revista, até então assinadas por Olavo Bilac (1865-1918), em que comenta assuntos do momento, como o carnaval, a reforma urbana, a emancipação feminina.

Em 1909, é nomeado diretor da Biblioteca Municipal do Rio de Janeiro, cargo que exerce até falecer, em 1911. Publica Graves e Frívolos em 1910, reunião de artigos publicados na imprensa, em que faz a defesa da estética art nouveau. Figura conhecida e atuante no meio artístico carioca, é retratado por diversos artistas, entre os quais Eliseu Visconti (1866-1944), Belmiro de Almeida (1858-1935), Rodolfo Amoedo (1857-1941) e Presciliano Silva (1883-1965).

Articula, em torno da revista Folha Popular, o primeiro grupo simbolista carioca, e convive com escritores e poetas como Leôncio Correia (1865-1950), Marcelo Gama (1878-1915), Bastos Tigre (1882-1982), Luiz Delfino (1834-1910), Dário Veloso (1869-1937) e Emiliano Perneta (1866-1921). Seus contos reunidos no livro Horto de Mágoas, editado postumamente em 1914, revelam a influência dos escritores franceses Charles Baudelaire (1821-1867) e Stéphane Mallarmé (1842-1898). Outra edição póstuma é Contemporâneos, publicado em 1929, uma coletânea de críticas e crônicas publicadas na Kosmos.

Entre os arquivos de Gonzaga Duque estão duas novelas inacabadas, Sacrifício Inútil, título de um conto do seu livro Horto de Mágoas, e Sangravida, além de cadernos, anotações e uma vasta correspondência mantida com artistas como Visconti e Hélios Seelinger (1878-1865), o poeta Cruz e Souza (1861-1898), com quem planeja criar a Revista dos Novos, e o crítico Nestor Vitor (1868-1932).

Comentário Crítico
Gonzaga Duque é o mais importante crítico de artes plásticas brasileiro do século XIX, pela quantidade de artigos publicados na imprensa e relevância de sua produção. Deixa uma significativa contribuição bibliográfica nas áreas artística e literária. A maioria de seus textos avalia e analisa a produção dos artistas atuantes no Rio de Janeiro entre as décadas de 1880 e 1910, constituindo uma grande fonte de informações históricas sobre o desenvolvimento das artes visuais no Brasil.

De postura crítica em relação à arte acadêmica, busca detectar no ambiente artístico obras e autores capazes de demonstrar a existência no país de uma produção afinada com as grandes questões estéticas modernas debatidas na Europa. Identifica-se sobretudo com o simbolismo, movimento cosmopolita e universalista, crítico da razão moderna, que valoriza a imaginação, a visão subjetiva, simbólica e espiritual do mundo. Para Gonzaga Duque, a arte não é a imitação da natureza, mas uma atividade intelectual. A obra de arte, por sua vez, não é uma tradução fiel da realidade, mas a concretização de uma idéia estética. Considera o naturalismo e o realismo tendências simplesmente imitativas e elogia as realizações artísticas em que detecta reflexão, meditação e criatividade, observando nessas manifestações a modernidade artística da arte produzida no Brasil.

Em seu livro de estréia, A Arte Brasileira, faz um balanço da produção de pintura e escultura brasileira desde os tempos coloniais até o momento contemporâneo à sua publicação. Nessa obra, Gonzaga Duque insere a arte no universo cultural brasileiro mais amplo, procurando reverter a desatenção dada às artes plásticas e alçá-las à uma mesma posição alcançada pela literatura no debate intelectual nacional. O capítulo introdutório e a conclusão apresentam ao leitor um panorama da formação social do país, compondo um diagnóstico pessimista sobre a sociedade brasileira. Influenciado pelos estudos de Hippolyte Taine (1828-1893) e Eugéne de Veron (1825-1889), Gonzaga Duque empreende uma análise de fundo determinista, que aponta aspectos socioculturais e políticos do país como as causas do "desnacionalismo" da produção artística. Nos capítulos internos do livro, analisa obras e artistas. O capítulo "Manifestação" cobre o período que vai de 1695 até a chegada da Missão Artística Francesa, em 1816, e seus desdobramentos; "Movimento", os anos de 1831 até 1870; e "Progresso" é dedicado à década de 1870 até o momento contemporâneo. Completam a obra os apêndices "Amadores" e "Escultura".

Numa atitude ousada para a época, Gonzaga Duque critica a arte produzida na Academia Imperial de Belas Artes (Aiba) e o gosto convencional acadêmico. A vinda da Missão Artística Francesa é vista como um episódio negativo, pois introduz um sistema de ensino que institucionaliza o neoclassicismo e produz um rompimento com a tradição visual que se desenvolve, descaracterizando-a. Critica a "incultura estética" brasileira, o "inesteticismo do meio". Segundo Gonzaga Duque, a formação social do artista no Brasil, considerado ofício menor, de negros e mulatos, é uma das principais razões da incompreensão e desprezo do meio para com a arte.

Num contexto em que o debate sobre a criação de uma arte nacional, que tivesse uma configuração que expressasse inequívocos sinais da identidade brasileira, ocupa o centro das preocupações, Gonzaga Duque posiciona-se contra o apelo ao exótico e à figura do índio como representação dessa identidade, defendendo uma cultura estética que contenha uma reflexão sobre as singularidades do país, mas que se mantenha atenta à tradição universal. Nesse sentido, afirma que não encontra na produção local uma interpretação da paisagem brasileira, criticando o paisagista Georg Grimm (1846-1887), que, segundo ele, forma apenas imitadores e insiste na necessidade de fixar a luz tropical. O livro é repleto de considerações sobre alguns dos principais artistas do período, destacando positivamente as produções de Almeida Júnior (1850-1899), Rodolfo Amoedo, Belmiro de Almeida, Henrique Bernardelli (1858-1936), Castagneto (1851-1900), entre outros.

Mas em A Arte Brasileira, o autor transcende a mera crônica sobre os artistas. Como aponta a historiadora Paula Vermeersch,1 suas considerações e posições combativas amparam-se num projeto político, o que se atesta pela ligação de Gonzaga Duque com o Partido Abolicionista e pela influência exercida, no meio em que circula, pela figura de José do Patrocínio. Como ressaltam alguns estudiosos e comentadores dessa sua obra, chama a atenção a disparidade entre a introdução e a conclusão, em que o autor adota uma postura pessimista e centrada na postulação por uma arte nacional, e os capítulos internos de A Arte Brasileira, em que transparece uma postura positiva quanto ao cosmopolitismo.2 Para Gonzaga Duque, a arte deveria fugir dos temas ligados à tradição e explorar os valores morais burgueses, os temas ligados à modernidade. As obras de alguns artistas, trabalhos influenciados pelo ideário burguês, cultura urbana e ambiente parisiense, como Descanso do Modelo, 1882, de Almeida Júnior, Estudo de Mulher, 1884, de Rodolfo Amoedo, e Arrufos, 1887, de Belmiro de Almeida, parecem apontar-lhe caminhos para a arte.

Na realidade, Gonzaga Duque vai progressivamente mudando de postura e deixa a visão primeiramente pessimista em relação ao cosmopolitismo, que em A Arte Brasileira era sinônimo de desnacionalismo, e passa a pautar-se pela idéia de que a produção artística do país é herdeira da tradição da cultura ocidental, sendo então legítimos os códigos internacionais cosmopolitas.

Em Mocidade Morta, de 1899, o protagonista Camilo Prado, um jovem crítico e jornalista, destila seu pessimismo e decepção, afirmando a impossibilidade de criação de uma arte moderna num país como o Brasil, de maioria inculta e iletrada. No romance, contudo, transparece uma visão menos crítica sobre o cosmopolitismo e uma defesa da liberdade individual, da produção artística original, o que Gonzaga Duque explora nas discussões entre Camilo Prado e o artista em início de carreira Agrário.

O cosmopolitismo passa a ser visto como qualidade positiva em Contemporâneos. Na maioria dos artigos da coletânea, que contempla o período que vai de 1901 a 1908, em que atua intensamente como crítico de arte, Gonzaga Duque não menciona o problema da identidade nacional. Quando isso ocorre, o autor se mostra intolerante quanto ao apego à temática nacional, que se dá em prejuízo da qualidade artística dos trabalhos. A análise mostra como os artistas resolvem plasticamente os temas propostos, para o tratamento pictórico e a criatividade da composição. Os textos trazem observações sobre eventos ligados às artes, como em Os Aquarelistas, 1904, a respeito da segunda exposição da Associação de Aquarelistas, comentários sobre a Exposição Geral de Belas Artes de 1904 e 1906, além de críticas sobre artistas de sua predileção, como Rodolfo Amoedo e Hélios Seelinger.

Gonzaga Duque escreve dois artigos sobre caricatura, nos quais aponta o caráter esquemático, sintético e irreverente, ressaltando seu poder crítico. Em um deles, comenta a produção de Raul Pederneiras (1874-1953), e elogia a deformação e inversão da realidade promovidas pelo traço do artista.

A coletânea Impressões de um Amador, publicada em 2001, traz diversos artigos originalmente publicados na revista Kosmos, entre os quais Queda dos Muros, em que elogia a reforma Pereira Passos; em Primo Basílio, discorre sobre o romance e a relação da obra de Eça de Queirós (1845-1900) e a atmosfera da década de 1870; comentários sobre Antônio Parreiras (1860-1937), Pedro Américo (1843-1905) e o Grupo Grimm; além de diversos artigos memorialistas sobre o ambiente carioca no fim de século XIX.

Os textos de Gonzaga Duque expressam sua reflexão sobre os acontecimentos da época do império e início da república e as formulações deste que, segundo o historiador Tadeu Chiarelli, foi "o primeiro crítico brasileiro a formular uma visão menos provinciana sobre a arte produzida no país, e sobre os programas que ela deveria seguir para alcançar sua autonomia".3

Notas
1 VERMEERSCH, Paula. Por uma arte brasileira: a pintura acadêmica no final do Segundo Reinado e a crítica de Gonzaga Duque. Rotunda. Campinas: Centro de Estudos de Pesquisa das Artes no Brasil (CEPAB), Instituto de Artes, Unicamp, 2003. p. 23.
2 Ver: CHIARELLI, Tadeu. Gonzaga Duque: a moldura e o quadro da arte brasileira. In: DUQUE, Gonzaga. A Arte brasileira. Campinas: Mercado de Letras, 1995. p. 11-52; VERMEERSCH, Paula. op. cit; LINS, Vera. Gonzaga Duque: crítica e utopia na virada do século. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1996.
3 CHIARELLI, Tadeu. Op. cit. p.31.

Obras 1

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Fontes de pesquisa 12

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  • CHIARELLI, Tadeu. Gonzaga Duque: a moldura e o quadro da arte brasileira. In: DUQUE, Gonzaga. A Arte brasileira. Campinas: Mercado de Letras, 1995. 270 p. (Arte: ensaios e documentos). p. 11-52.
  • DUQUE, Gonzaga. A Arte brasileira: pintura e esculptura. Rio de Janeiro: H. Lombaerts & C., 1888. 254 p.
  • DUQUE, Gonzaga. Contemporâneos: pintores e esculptores. Rio de Janeiro: Tipografia Benedicto de Souza, 1929.
  • DUQUE, Gonzaga. Impressões de um amador: textos exparsos de crítica (1882-1909). Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2001.
  • DUQUE, Gonzaga. Revoluções brasileiras: resumos históricos. Organização Francisco Foot Hardman e Vera Lins. São Paulo: Unesp : Giordano, 1998.
  • GUIMARÃES, Júlio Castañon. Gonzaga Duque: ficção e crítica de artes plásticas. In: CARVALHO, José Murilo de, et alii. Sobre o pré-modernismo. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988.
  • LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário crítico da pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988.
  • LINS, Vera. Crítica e utopia nos escritos de Gonzaga Duque: uma terceira margem do moderno. In: Qfwfq. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Vol 2, no 1, 1996.
  • LINS, Vera. Gonzaga Duque: crítica e utopia na virada do século. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1996.
  • MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasilia: Ministério da Educação e Cultura, 1973. 590 p., il. foto p.b., (Literatura brasileira, 12).
  • VERMEERSCH, Paula. Lista de artigos de Gonzaga Duque na Revista Kosmos. Rotunda. Campinas: Centro de Estudos de Pesquisa das Artes no Brasil (CEPAB), Instituto de Artes, Unicamp, 2003.
  • VERMEERSCH, Paula. Por uma arte brasileira: a pintura acadêmica no final do Segundo Reinado e a crítica de Gonzaga Duque. Rotunda. Campinas: Centro de Estudos de Pesquisa das Artes no Brasil (CEPAB), Instituto de Artes, Unicamp, 2003.

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