Artigo da seção pessoas Bide e Marçal

Bide e Marçal

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Música  

Biografia

Alcebíades Maia Barcelos, Bide (1902-1975) e Armando Vieira Marçal, Marçal (1902-1947) conhecem-se no bairro carioca do Estácio. Nele, em 1928, fundam o bloco carnavalesco Deixa Falar, ao lado de Ismael Silva (1905-1978), Baiaco (ca.1913-ca.1935) e Brancura (ca.1908-1935). Entre os jovens inovadores do Estácio, Bide e Marçal formam uma bem-sucedida parceria, com dezenas de canções gravadas por intérpretes como Francisco Alves (1898-1952) e Carmen Miranda (1909-1955). A importância da dupla é estar no centro das transformações pela qual passa o samba nos anos 1930 que formam o samba moderno. A primeira composição da dupla, o samba Agora é Cinza, vence o concurso da Prefeitura do Distrito Federal (Rio de Janeiro) no carnaval de 1934. Além disso, é eleito como o mais bonito samba de todos os tempos em 1970. A canção tem mais de 100 versões.

Os jovens sambistas do Estácio, entre os quais Bide e Marçal, têm papel pioneiro na história da música popular por fundarem, em 1928, o bloco carnavalesco Deixa Falar, no qual surge o conceito de Escola. A expressão Escola de Samba é difundida e consolidada mais tarde, consagrando uma nova prática e tradição cultural no Rio de Janeiro. O fato mais importante é que essa “escola” apresenta em seus desfiles as composições destes jovens que se afastam das experiências das primeiras décadas do século XX, vinculadas ao maxixe. De acordo com esses compositores, os sambas anteriores são feitos para dançar e o do “pessoal do Estácio” para andar ou desfilar. A historiografia consagra essa avaliação dos sambistas, destacando que estava em curso a decantação do samba urbano, estabelecendo a diferença entre “estilo antigo” e o “moderno”. O primeiro, vinculado às tradições folclóricas, de caráter rural e, muitas vezes, religioso, diferente da dicção urbana e profana do Samba do Estácio. Este acaba por revelar as mudanças que ocorrerem desde o final da década de 1920, protagonizadas pela turma do Estácio de Sá, com destaque para Ismael Silva e Noel Rosa (1910-1937). O musicólogo Carlos Sandroni (1958) define esta forma de compor como o “paradigma do Estácio”. De acordo com esse paradigma, o ritmo contramétrico, marcado pelas tradições africanas, e a melodia articulam-se de tal modo que as acentuações ocorrem de acordo com o encadeamento dos dois elementos. Esse fato exige do intérprete nova forma de cantar, aproximando-se da fala cotidiana e afastando-se das prolongações vocálicas comuns à época. A marcação desse ritmo é dada, sobretudo, pela batida do tamborim. O trinômio “cuíca, surdo e tamborim”, consagrado em canção de Ismael Silva, é outra inovação dos compositores do Estácio ao padrão rítmico das Escolas de Samba. Bide é considerado responsável pela introdução do surdo e do tamborim no acompanhamento dos sambas. Para alguns analistas, Bide cria o surdo moderno, que ele mesmo confecciona.

Bide e Marçal têm 55 das suas composições gravadas, por intérpretes como Carmen Miranda, Francisco Alves, Mário Reis (1907-1981), Almirante (1908-1980) e Carlos Galhardo (1913-1985), considerado o maior intérprete deles. 

Com Bide compondo a maioria das melodias, e Marçal, as letras, a obra destes autores traz  “Durmo Sonhando”, “Velho Estácio”, “Vila Isabel”, “Não Diga a Ela a Minha Residência”, “Companheiro Dileto” e “Madalena”. Além de sambas, compõem valsas brasileiras, como “Silêncio” e “Prece à Lua”. 

Há também a histórica “A Malandragem” (1928), parceria com Francisco Alves; “A Primeira Vez”, sucesso de Orlando Silva (1915-1978) em 1940, regravado por João Gilberto (1931) em 1961; “Barão das Cabrochas”, gravada por Quatro Ases e um Coringa em 1946; “Que Bate-Fundo é Esse”, por Anjos do Inferno em 1943  e “Violão Amigo”, gravada por Gilberto Alves (1915-1992) em 1942. 

Os dois compositores dividem a parceria da maioria de suas obras, mas também fazem canções com outros músicos. Bide é parceiro de Noel Rosa em “Fui Louco”, gravada em 1933 por Mário Reis; de Alberto Ribeiro (1902-1971) em “A Bênção Papai Noel”, lançada por Almirante em 1934, e “Implorando o Meu Perdão”, gravada por Silvio Caldas (1908-1998) em 1935. Além delas, “Não Posso Viver Sem Ela” e “Mulher Fingida” com Cartola  (1908-1980) e “Vem Meu Amor” com João de Barro (1907-2006) e Delson Carlos. Marçal  faz canções como “Sem Meu Tamborim Não Vou” e “A Mim Você Não Engana” com J. Portela;  “Não Pretendo Mais Amar” com Manoel Vieira e “Você Me Deixou” com Ataulfo Alves (1909-1969).

Outras informações de Bide e Marçal:

Fontes de pesquisa (7)

  • Alcebíades Barcelos - resumo biográfico. Disponível em: < http://www.collectors.com.br/CS07/cs07a05b.shtml >. Acesso em: 01 de fev de 2013.
  • Armando Marçal - resumo biográfico. Disponível em: < http://www.collectors.com.br/CS07/cs07a06b.shtml >. Acesso em: 01 de fev de 2013.
  • DINIZ, André. Almanaque do samba: a história do samba, o que ouvir, o que ler, onde curtir. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
  • PARANHOS, Adalberto. Percursos Sociais do Samba. De símbolo étnico ao samba de todas as cores. In: XXVI Simpósio Nacional de História - ANPUH, 2011, São Paulo. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História - ANPUH, São Paulo, jul. 2011. Disponível em: < http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300745144_ARQUIVO_Anpuh2011-texto.pdf >. Acesso em: 12 jan. 2013.
  • SANDRONI, Carlos. Feitiço decente. Transformações do samba no Rio de Janeiro, 1917-1933. Rio de Janeiro: Jorge Zahar: Ed. UFRJ, 2001.
  • TINHORÃO, José Ramos. História social da música popular brasileira. São Paulo: Editora 34, 1998.
  • VASCONCELOS, Ary. Panorama da música brasileira. Rio de Janeiro: Martins, 1964. 2 v.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • BIDE e Marçal. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa638849/bide-e-marcal>. Acesso em: 21 de Abr. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7