Artigo da seção pessoas Luciano Gallet

Luciano Gallet

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deLuciano Gallet: 28-06-1893 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 29-10-1931 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Luciano Gallet (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1893 – Idem, 1931). Compositor, pianista, professor, folclorista e maestro. Filho de pais franceses, inicia-se na música como autodidata, tocando piano e harmônio no Colégio Salesiano Santa Rosa, em Niterói, onde também toma parte do coro escolar. Concluído o ginasial, ingressa na Escola de Belas Artes e passa a trabalhar como desenhista arquitetônico, complementando seus rendimentos como pianista em uma pequena orquestra que se apresenta em cafés, cinemas e salões. Em 1911, trava amizade com o compositor italiano Glauco Velásquez (1884-1914), que o leva para tocar como pianista acompanhador e o apresenta a Henrique Oswald (1852-1931). Incentivado por Oswald, matricula-se em 1914 no Instituto Nacional de Música (INM), onde se forma em 1916, com medalha de ouro, no curso de piano. Entre 1915 e 1918, dirige a Sociedade Glauco Velásquez, responsável por divulgar a obra do amigo recém-falecido, de quem se torna um dos principais intérpretes.

Em 1917, tem suas primeiras composições impressas, o acalanto Berceuse e o maxixe Caxinguelê. No mesmo ano, passa a estudar harmonia com Darius Milhaud (1892-1974), compositor francês que vive no Rio de Janeiro entre 1917 e 1918 e o desperta para o interesse pela música popular. Gallet, cujos conhecimentos de música brasileira se restringiam aos gêneros urbanos, passa a estudar in loco o folclore de populações do estado do Rio de Janeiro, incorporando-o em suas composições segundo preceitos nacionalistas. Em 1919, assume a cadeira de piano do INM, que ocupa até pouco antes de sua morte. Ali, escandaliza o público carioca ao incluir, num concerto com 30 compositores brasileiros, o “pianeiro” Ernesto Nazareth (1863-1934), que interpreta seus próprios tangos. Em 1924, funda a sociedade coral Pró-Arte e lança os dois primeiros cadernos das Canções Populares Brasileiras, aos quais se somariam mais três volumes em 1926. Em 1929, compõe Suíte sobre Temas Negro-Brasileiros, considerada sua obra instrumental mais importante.

No ano seguinte, funda a Associação Brasileira de Música e é nomeado pelo presidente Getúlio Vargas (1882-1954) diretor do INM. Deixa vários trabalhos sobre técnica pianística, história e crítica musical, muitos deles publicados na revista Weco, que dirige entre 1928 e 1931. Seus Estudos de Folclore são publicados postumamente, em 1934, com prefácio de Mário de Andrade (1893-1945). A composição Foi Numa Noite Calmosa tem gravações de Elsie Houston (1902-1943) e Jaime Redondo (1890-1952), em 1930; Lenita Bruno (1926-1987), em 1958; Lia Salgado, em 1963;  Paulo Tapajós (1913-1990), em 1970; Inezita Barroso (1925),  em  1970; José Tobias (1928), em 1976; e Maria Lúcia Godoy (1930), em 1980.

Análise

Embora tenha deixado obra pouco extensa em função da morte prematura, Luciano Gallet desempenha importante papel no cenário musical brasileiro das primeiras décadas do século XX, sendo considerado, ao lado de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), um dos pioneiros do nacionalismo musical. Nesse contexto, três influências marcam sua trajetória. A primeira é a do compositor Glauco Velásquez, cuja obra, caracterizada por ousadias formais e grande liberdade harmônica, repercute na chamada “fase universalista” de Gallet, entre 1917 e 1921, quando o jovem compositor ainda não despertara para a questão da nacionalidade. Datam dessa época romances, elegias e canções langorosas, como Le Sonet d’Anvers e Alonguissement, nas quais alguns críticos reconhecem traços de “francesismo”, observáveis em certo preciosismo poético e no excesso de ornamentação.

Ainda nessa primeira fase, é possível distinguir a segunda influência sobre a obra de Gallet: Darius Milhaud, que em 1917 o introduz no estudo da harmonia francesa moderna. A complexidade harmônica impressa pelo modernista francês na música do compositor carioca atinge um de seus pontos altos em 1922, com o prelúdio para piano Hieroglyfo. Escrita sem armadura de clave e cheia de efeitos dinâmicos e timbrísticos, a peça de caráter impressionista evoca uma atmosfera de devaneio. Segundo o próprio compositor, trata-se da “exteriorização de um sentimento moral”, cabendo “ao intérprete, pesquisar e transmitir o seu sentido”.

Paradoxalmente, é o mesmo Milhaud quem abre caminho para a entrada de Gallet em sua “fase nacionalista”, a partir de 1921 – ainda que ecos universalistas sejam ouvidos em toda sua obra. É verdade que o contato com a música urbana, tocando tangos e maxixes em orquestra de salão, já havia deixado traços de “brasileirismo” em suas composições, como se nota em Caxinguelê (1917) ou em Tango-Batuque (1918). Mas é a partir de 1921, quando começa a harmonizar canções populares por sugestão de Milhaud, que Gallet se identifica como nacionalista. Ao todo, ele publica 31 canções, das quais 18 são harmonizações (como Luar do Sertão, Toca Zumba, Tutu Marambá, Puxa o Melão, Yayá Você quer Morrer) e as restantes composições próprias. Muitas delas preservam o refinamento harmônico presente em composições anteriores, ao qual, contudo, se soma uma rítmica rica e variada, inspirada na música afro-brasileira, como se nota em Acorda Donzela e Xangô. Já em A Casinha Pequenina, a linha vocal é acompanhada por poucos acordes do piano, mimetizando o acompanhamento de um violão. Em algumas harmonizações, Gallet consegue criar uma obra nova, com intenções distintas da original. É o caso de Foi numa Noite Calmosa, gravada por Elsie Houston. Segundo Mário de Andrade, nela o compositor “soube sublinhar o caráter pernóstico, criando comicidade e teatralidade dramática. Isso é obra de criação legítima, porque o mulato seresteiro, entoando essa cantiga, jamais não teve a intenção de fazer peça cômica”.

Mário de Andrade, aliás, constitui a terceira – e talvez mais marcante – influência sobre a obra de Gallet. Seguindo suas orientações, o compositor carioca passa a compor com base nos materiais folclóricos recolhidos por ele mesmo. Nessa direção, ele concebe Nhô Chico (1927), para piano, Pai do Mato (1928), para canto e piano, e Suíte sobre Temas Negro-Brasileiros (1929), para piano e quinteto de sopros. Ainda com Mário de Andrade, Gallet desempenha importante papel na educação musical brasileira, concebendo o projeto de remodelação do INM. Parte integrante da reforma do ensino superior elaborada pelo ministro Francisco Campos, sua proposta procura arrefecer as tendências virtuosísticas do ensino musical brasileiro, fornecendo aos alunos uma formação geral mais ampla, em que a música é compreendida em sua dimensão social. Para tanto, são inseridas no programa de ensino aulas de canto coral e de orquestra, de modo a socializar os alunos, além de se enfatizarem as matérias teóricas, com a criação da cadeira de Folclore.

Apesar da intensa atuação de Gallet no meio musical brasileiro dos anos 1920 e da importância relativa de sua obra, o compositor é mais citado do que verdadeiramente conhecido, e só nos anos 2010 sua obra vem sendo objeto de resgate histórico.

Notas

1 Armadura de clave: conjunto de acidentes disposto no início da partitura que indicam a tonalidade da peça (ou do trecho musical). É imprescindível na música tonal, mas não faz qualquer sentido no atonalismo.

2 Apud FRANÇA, Eurico Nogueira. Luciano Gallet. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 26 abr. 1960, p. 3.

3 Harmonizar: compor um acompanhamento harmônico para uma melodia pré-existente.

4 Apud FREITAG, Léa Vinocur. Harmonia, invenção e originalidade. O Estado de S. Paulo, 29 out. 1981, p. 25.

Outras informações de Luciano Gallet:

Fontes de pesquisa (7)

  • ANDRADE, Mário de. Luciano Gallet. Diário Nacional. São Paulo, 1 nov. 1931, p. 3.
  • BRUM, Marcelo Alves. Luciano Gallet e a multiplicidade do artista. Anais do Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música. São Paulo: Anppom: Unesp, 2007, p. 1-7.
  • CHAGAS, Paulo. Luciano Gallet via Mário de Andrade. Rio de Janeiro: Funarte, 1979.
  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. Organização Marcos Antonio Marcondes. São Paulo: Art editora Ltda, 1977. p. 299-300
  • FRANÇA, Eurico Nogueira. Luciano Gallet. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 26 abr. 1960, p. 3.
  • FREITAG, Léa Vinocur. Harmonia, invenção e originalidade. O Estado de S. Paulo, 29 out. 1981, p. 25.
  • LAMAS, D. M. Gallet (1983-1931): o homem e o artista. Separata da Revista Goiana de Artes, jul./dez. 1982, vol. 2, p. 93-107.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LUCIANO Gallet. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa638064/luciano-gallet>. Acesso em: 15 de Mai. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7