Artigo da seção pessoas Arthur Verocai

Arthur Verocai

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deArthur Verocai: 1945 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Arthur Côrtes Verocai (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1945). Compositor, arranjador, violonista, produtor, maestro, guitarrista, cantor. Começa a estudar violão popular em 1962, com Roberto Menescal (1937), e frequenta aulas de violão erudito e harmonia. Completa seus estudos de piano com Vilma Graça (1928-1988).

Em 1963, compõe a trilha sonora para a peça infantil Os Ciganos da Floresta, com direção de Renato Machado. Em 1965, sua música “Olhando o Mar”, composta em parceria com Ronaldo Soares, é gravada por Leny Andrade (1943), no álbum Estamos Aí. Em 1968, participa do movimento Músicanossa, que reúne compositores como Roberto Menescal, Milton Nascimento (1942) e Marcos Valle (1943), e começa a escrever os primeiros arranjos. Duas músicas suas são gravadas em álbuns do grupo: “Novo Amanhã” e “Madrugada”.

Em 1968, Elis Regina (1945-1982) classifica-se em quarto lugar no Festival Universitário do Rio de Janeiro com “Um Novo Rumo”, música de Verocai e Geraldo Flach (1945-2011). No mesmo ano, Beth Carvalho (1946) canta “Lá Vem Ela, Tá na Hora”, parceria com Paulinho Tapajós (1945-2013), e “Domingo Antigo”, parceria com Arnoldo Medeiros (1945), no Festival Universitário de Música de Porto Alegre.

No ano seguinte, escreve arranjos das músicas: “Nas Águas Claras Desse Mar”, letra de Arnoldo Medeiros e interpretada por Luiz Carlos Werneck no Festival Universitário de Porto Alegre; “A Menina e a Fonte”, composta com Arnoldo Medeiros e Paulinho Tapajós e defendida pelo grupo Golden Boys, no Festival Universitário do Rio de Janeiro; e “Queixa”, composta por Hermínio Bello de Carvalho (1935) e Maurício Tapajós e cantada por Marlene (1922-2014).

Em 1971, produz Agora, o primeiro disco de Ivan Lins (1945), e assina arranjos das músicas “Porque É Proibido Pisar na Grama”, de Jorge Ben Jor (1942), e “Ciça Cecília”, de Erasmo Carlos (1941). Entre 1970 e 1971, faz a direção musical do programa Som Livre Exportação, da Rede Globo, apresentado por Elis Regina e Ivan Lins.

Entre 1971 e 1972, trabalha como produtor e arranjador de dois discos da cantora Célia (1947), lançados pela Continental. A gravadora convida-o para gravar seu primeiro disco solo. O álbum Arthur Verocai reúne os flautista Oberdan Magalhães (1945), o percussionista Robertinho Silva (1941), o saxofonista Paulo Moura (1932-2010), o trombonista Edson Maciel, o guitarrista Hélio Delmiro (1947), além dos cantores  Célia, Carlos Dafé (1947) e Toninho Horta (1948). Todas as faixas são gravadas com o acompanhamento de uma orquestra de cordas com 16 instrumentos.

Ao longo dos anos 1970, faz arranjos para as músicas “Pontos de Luz”, do disco Índia, de Gal Costa (1945) e “Pra Aquietar”, do disco Pérola Negra, de Luiz Melodia (1951), além de produzir jingles publicitários. Entre 1983 e 2001, torna-se proprietário do estúdio V/Casa do Som.

Em 2002, lança o álbum independente Saudade Demais. No ano seguinte, o selo norte-americano Ubiquity Records relança seu primeiro disco de 1972.

Em 2008, grava o disco Encore, pelo selo inglês Far Out, e, nos anos seguintes, assina arranjos para os discos N9ve, de Ana Carolina (1974) e Feito Pra Acabar, de Marcelo Jeneci (1982). Em março de 2009, faz um concerto em Los Angeles para a gravação de um DVD da série Timeless, regendo uma orquestra de 30 músicos, entre eles o percussionista Airto Moreira (1941), o tecladista José Bertrami (1946-2012) e o baterista Ivan Conti (1946).

Análise

Arthur Verocai deve muito do reconhecimento atual ao hip hop norte-americano. A obra do artista não é tão conhecida, até que trechos de suas músicas são reeditados para a criação de bases de composições dos artistas do gênero. “Caboclo” é utilizada pelo grupo Little Brother na faixa “We Got Now” (2005) e “Na Boca do Sol” é usada por Ludacris (1977) em “Do The Right Thing” (2008). Essas apropriações despertam o interesse pela obra de Verocai, especialmente pelo disco homônimo de 1972, que traz essas duas composições sampleadas. O álbum vira objeto de culto e sua versão original torna-se um dos discos brasileiros mais cobiçados no mercado de vinil.

Essa valorização tardia evidencia o talento de Verocai como arranjador e compositor. Influenciado por jazz, funk, soul e bossa nova, ele incorpora elementos desses gêneros em seu trabalho. “Eu costumava ouvir Blood, Sweet and Tears, Chicago, Stan Keton, Wes Montgomery, Jimmy Web, Frank Zappa, Herbie Hancock, Bill Evans e Miles Davis, Milton Nascimento, bossa nova. No Brasil, temos muitas influências e naquela época elas não eram hegemônicas no mercado. Meu disco reflete uma busca e uma experimentação musical. Eu estava com espírito aventureiro nesse álbum e isso me levou a explorar novas melodias, harmonias e padrões rítmicos”, diz o músico no encarte do disco, na reedição de 2003.

Interessa-se por artistas brasileiros como Cassiano (1943) e Tim Maia (1942-1998) e por grupos norte-americanos como Earth, Wind & Fire. Trabalha com a linguagem do funk e do soul tanto no primeiro disco de Ivan Lins, como em faixas autorais como “Presente de Grego”.  Segundo Verocai, o nome da faixa remete à história do Cavalo de Troia, e a letra faz uma menção discreta à ditadura que impera no Brasil dos anos 1960. No encarte do disco, o músico comenta: “A expressão vem do cavalo de Troia, o suposto presente dos gregos, que escondia os guerreiros que derrotaram os troianos.  É uma referência, também, à ditadura militar, que, sob a aparência de um bom governo, pratica a censura e a opressão”. Diz a letra:

Debruçado na Grécia Antiga

Nas ruínas, homens ou tribos

Ouço um grito de dois mil anos

Na garganta um nó underground, ferido

Meu presente de grego

Na gente escondido

Atrás das barbas de molho

Olho por olho

Pedra por pedra

Conta por conta

A faixa “Caboclo” é a única em que Verocai canta, e o arranjo, sobretudo a harmonia ao violão, faz referência ao folk norte-americano. “Sylvia” e “Karina” são temas instrumentais com andamento jazzístico. Enquanto a primeira tem a melodia dividida entre sopros e uma orquestra de 20 cordas (12 violinos, 4 violas e 4 cellos), a segunda traz um solo de trombone com mais de dois minutos.

O esmero do músico com as cordas é notável também em faixas de outros artistas, como “Porque É Proibido Pisar na Grama”, de Jorge Ben Jor. A música combina o violão suingado do autor e os versos surrealistas (“Descobri que além de ser um anjo / Eu tenho cinco inimigos”), com um delicado arranjo de cordas.

O segundo disco autoral, Saudade Demais (2002), lançado em exatos 30 anos desde o primeiro trabalho, “retoma o percurso do autor e músico do ponto em que ele parou”, como escreve o crítico Tárik de Souza (1946)1. O trabalho tem quatro faixas instrumentais e oito cantadas por Sanny Alves (1969), filha do contrabaixista Luiz Alves, e cuja voz, segundo Ruy Castro (1948), “lembra a de Joyce, mas com um punch só dela”2.

O disco e DVD Timeless registram o show de Los Angeles, em 2009, quando as músicas do disco homônimo de 1972 são tocadas ao vivo pela primeira vez. Além das dez faixas daquele trabalho, em versões fiéis às originais, o artista apresenta composições inéditas como “Fly To L. A.” e “Queimadas”.

Notas

1SOUZA, Tárik de. Por 20 anos ele trocou a MPB pelos jingles. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 19 ago. 2002.

2CASTRO, Ruy. A Volta de Pingarilho, Verocai e Meirelles. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 14 dez. 2002.

Outras informações de Arthur Verocai:

Fontes de pesquisa (4)

  • CASTRO, Ruy. A Volta de Pingarilho, Verocai e Meirelles. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 14 dez. 2002.
  • EVANGELISTA, Ronaldo. Man Out of Time. Wax Poetics, ed. 36, jul. 2009.
  • GARCIA, Lauro Lisboa. A redescoberta do cultuado Arthur Verocai. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 9 fev. 2011.
  • SOUZA, Tárik de. Por 20 anos ele trocou a MPB pelos jingles. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 19 ago. 2002.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ARTHUR Verocai. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa638036/arthur-verocai>. Acesso em: 13 de Out. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7