Artigo da seção pessoas Luciano Perrone

Luciano Perrone

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deLuciano Perrone: 1908 | Data de morte 2001

Biografia

Luciano Perrone (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1908 - Idem, 2001). Baterista, percussionista, cantor. Filho do compositor e mestre de bandas militares Luís Perrone (1885-1918) e da pianista amadora Noêmia Franklin Batista Perrone, ingressa aos 5 anos na Schola Cantorum do Rio de Janeiro, onde estuda canto com o padre Alfeu Lopes de Araújo. Aos 9, participa do coro da ópera Lodolleta, de Pietro Mascagni (1863-1945), contracenando com o tenor italiano Enrico Caruso (1873-1921) no Teatro Municipal.

Após a morte do pai, em 1918, abandona o estudo de canto e ingressa como bolsista no Colégio São Bento, onde toca bumbo nas paradas militares. Para ajudar a família, apresenta-se em salas de cinema, inicialmente como cantor e, a partir de 1922, como “caixista” – percussionista responsável por criar efeitos sonoros dos filmes. Em 1924, passa a tocar bateria na orquestra Andreozzi, animando bailes e festas.

As primeiras gravações datam de 1927, quando toma parte na orquestra Pan-American da Odeon e inicia, no Brasil, o uso das vassourinhas, trazidas dos Estados Unidos pelo maestro Simon Bountman (1900-1977). Dois anos mais tarde, integra o elenco da Victor, tocando nas orquestras Victor Brasileira, Diabos do Céu e Guarda Velha, dirigidas por Pixinguinha (1897-1973). Nessa época, também toca em orquestras de teatro.

No início dos anos 1930, atua como cantor nas rádios Sociedade e Phillips. Grava algumas canções em 1932, na gravadora Columbia, como “Um beijo só”, de Cândido das Neves (1899-1934) e Bonfiglio de Oliveira (1891-1940); “Meu Sabiá”, de Lamartine Babo (1904-1963) e Bonfiglio de Oliveira e “O Vendedor de Pipoca”, do mesmo Bonfiglio com Alberto Ribeiro (1902-1971). Logo abandona o microfone, que só retoma em 1956 para gravar “A Voz do Morro”, de Zé Kéti (1921-1999), e “Sorriu para Mim”, de Garoto (1915-1955) e Luiz Cláudio. Toca bateria nas rádios Club, Transmissora e Educadora. Em 1936, integra o elenco da recém-inaugurada Rádio Nacional, onde toca tímpano na sinfônica da emissora e bateria na orquestra dirigida por Radamés Gnattali (1906-1988), com quem estabelece uma ligação musical. Sob sua batuta, integra a orquestra do programa Um Milhão de Melodias e toma parte no Quinteto Radamés Gnattali, com o maestro ao piano, Chiquinho do Acordeom (1928-1993), Zé Menezes (1921-2014) no violão e Pedro Vidal Ramos no contrabaixo. Em 1960, a pianista Aída Gnattali soma-se ao grupo. Na forma de sexteto, e reforçado por Edu da Gaita (1916-1982) e Luís Bandeira (1923-1998), o conjunto realiza uma excursão de quatro meses à Europa na 3ª Caravana Oficial da Música Brasileira, que resulta em dois LPs, lançados em 1960 e 1961.

Em 1960, lança Batucada Fantástica, álbum de percussão solo que lhe rende o Grande Prêmio Internacional do Disco, concedido pela Academia Charles Cros, da França. Um segundo volume do disco é lançado em 1972. Ingressa na Orquestra Sinfônica Nacional da Rádio MEC, em 1961, e na orquestra da TV Excelsior em 1963.

Mantém-se ativo até 1994, quando se despede das baquetas num show em sua homenagem, no Rio de Janeiro.

Análise

Eleito por três vezes o melhor baterista do ano, título conferido na década de 1950 pelo programa radiofônico Cinemúsica, da Rádio MEC, Luciano Perrone é considerado um dos maiores bateristas brasileiros de todos os tempos. A seu domínio técnico, soma-se a fama de “pioneiro”, responsável pela criação da “maneira brasileira de tocar bateria”, conforme depoimento de grandes ritmistas como Wilson das Neves (1936), Tutty Moreno (1947) e Oscar Bolão (1954)1. “Eu nunca me preocupei em imitar o [baterista norte-americano de jazz] Gene Krupa”, afirma Perrone, “porque o que me interessava era o batuque do samba”2. Fortemente influenciado pelos percussionistas que trabalham com ele na gravadora Victor, como João da Baiana (1887-1974) no pandeiro, Bide (1902-1975) na cuíca, Armando Marçal (1902-1947) no tamborim, Tio Faustino no omelê, Oswaldo Viana na cabaça e Vidraça (ca. 1890- ca.1975) no ganzá, ele incorpora a sua performance padrões rítmicos de instrumentos típicos como o pandeiro e o tamborim.

Desse “abrasileiramento” da bateria americana derivam os breques3 característicos, que podem ser ouvidos em suas gravações. É o caso do samba “Faceira”, de Ary Barroso (1903-1964), lançado por Silvio Caldas (1908-1998) na revista Brasil do Amor, de Ary Barroso e Marques Porto (1870-1910), com acompanhamento de Perrone. Seu registro em disco, realizado em 1931 pela Victor, destaca o diálogo entre o cantor e o baterista, que transcende o papel de acompanhador e interfere na melodia. Trata-se da primeira gravação com passagens de bateria solo realizada no Brasil. Outro recurso introduzido por Perrone é o uso de vocalizações – onomatopeias que mimetizam o fraseado dos instrumentos de percussão. O primeiro registro conhecido desse procedimento no Brasil dá-se com seu “Samba Vocalizado”, gravado no disco Batucada Fantástica volume 3, de 1972.

Segundo Wilson das Neves, Perrone dá dignidade à figura do baterista, que passa a se destacar em primeiro plano. Em 1933, na Rádio Cajuti, realiza seu primeiro recital para bateria, improvisando ritmos brasileiros com acompanhamento ao piano de Radamés Gnattali. Nessa época, ainda toca guiando-se mais pelo ouvido e pela intuição do que pela partitura. Só passa a ler música regularmente na Rádio Club, quando tem aulas de piano com Radamés Gnattali. Nessa mesma emissora, realiza seu primeiro concerto de tímpano, iniciando o trânsito entre o repertório erudito e o popular.

Ao lado de Radamés Gnattali, é considerado um dos responsáveis por revolucionar o arranjo da música popular brasileira, numa parceria comparada pelo clarinetista Paulo Moura (1933-2010) à do maestro Benny Goodman (1909-1986) com o baterista Gene Kruppa (1909-1973) que, juntos, transformaram o jazz dos anos 1930. Embora não haja consenso sobre o tema, atribui-se a Luciano Perrone a ideia de adaptar as fórmulas rítmicas da percussão à seção dos metais nos arranjos de Radamés Gnattali. Em 1938, num programa da Rádio Nacional, ele sugere ao maestro que utilize os sopros para reforçar a percussão na música “Ritmo de Samba na Cidade”, de sua autoria. À época, ao contrário do que ocorre nas orquestras de disco, que têm uma vasta seção rítmica, a orquestra da rádio conta unicamente com o baterista. A ideia, aprovada por Gnattali, desemboca alguns anos mais tarde no famoso tan tan tan do arranjo de “Aquarela do Brasil”, executado pelos metais.


A partir dos anos 1960, o sucesso da bossa nova e o aumento da presença da música norte-americana, especialmente o jazz, no repertório dos bateristas brasileiros são responsáveis pelo gradual apagamento da figura de Perrone do cenário musical. Pouco a pouco, o “samba de prato” de Edison Machado (1934-1990) – que, assim como os jazzistas, conduz o ritmo constante com a mão direita, no prato, e o contratempo com o pé esquerdo – suplanta o “modo brasileiro de tocar bateria” criado por Perrone. Isso explica seu quase desconhecimento entre os bateristas brasileiros atuais, apesar do crescente “resgate” de sua memória nos últimos anos, por meio de trabalhos acadêmicos, reportagens e de uma biografia (ainda inédita) escrita pelo jornalista Ary Vasconcelos (1926-2003).

Notas

1 HISTÓRIA da Bateria. Especial Luciano Perrone. Batera & Percussão. São Paulo,, Ano 4, n. 31, mar. 2000.

2 BOLÃO, Oscar. Batuque é um privilégio. Rio de Janeiro: Lumiar, 2003, p. 136.

3 Breques de bateria: frases solo executadas pelo baterista durante interrupção dos outros instrumentos.

Outras informações de Luciano Perrone:

Fontes de pesquisa (7)

  • AQUINO, Thiago Ferreira de. Luciano Perrone: batucada, identidade, mediação. Tese (Doutorado em Musicologia) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.
  • BOLÃO, Oscar (Oscar Luiz Werneck Pellon). Batuque é um privilégio. Rio de Janeiro: Lumiar, 2003.
  • BOLÃO, Oscar. Luciano Perrone 100 anos (08/01/1908–13/02/2001). Disponível em: < http://pacrj.blogspot.com.br/2011/07/luciano-perrone-100-anos-08011908.html >. Acesso em: 07 set. 2009.
  • HISTÓRIA da Bateria. Especial Luciano Perrone. Batera & Percussão. São Paulo, Ano 4, n. 31, mar. 2000.
  • PERRONE, Luciano. Depoimento a Lourival Marques. Rio de Janeiro: Museu da Imagem e do Som, Coleção Rádio Nacional, s/d. Editado pela Collector’s (Série Depoimentos).
  • ROSALEM, Viviane. Ele colocou a bateria no samba. Testemunhas do Século - Luciano Perrone, 92 anos. Isto é Gente, São Paulo, n. 30, 28 jan. 2000.
  • SERRA, Rodrigo. Luciano Perrone, um baterista brasileiro: uma comparação entre seus padrões rítmicos com os do samba criados a partir da década de 1930. Monografia (Especialização) – Faculdade de Artes do Paraná, Curitiba, 2007.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LUCIANO Perrone. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa638012/luciano-perrone>. Acesso em: 12 de Mai. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7