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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Roberta Tavares

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 31.10.2022
Roberta Conceição Tavares Soares (Belém, Pará, 1984). Poeta, historiadora, ativista quilombola. Por meio de seus trabalhos artísticos e acadêmicos, Roberta desenha a trajetória de quilombolas que migram para as capitais e resgata a memória ancestral e histórica dessas comunidades de origem.

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Roberta Conceição Tavares Soares (Belém, Pará, 1984). Poeta, historiadora, ativista quilombola. Por meio de seus trabalhos artísticos e acadêmicos, Roberta desenha a trajetória de quilombolas que migram para as capitais e resgata a memória ancestral e histórica dessas comunidades de origem.

Seu registro de nascimento informa algo importante que atravessa sua trajetória e escrita: o pertencimento étnico. Assim como inúmeras pessoas localizadas em comunidades rurais, sua mãe migra para uma cidade grande, a capital paraense, para o nascimento da poeta. Todavia, Roberta Tavares se considera pertencente cultural, subjetiva e politicamente à comunidade quilombola às margens de um igarapé amazônico denominado Cravo, na qual vive desde o nascimento até a adolescência. Sua ida efetiva para a capital paraense ocorre durante sua juventude, após o falecimento da avó e como forma de fugir do sofrimento causado por essa perda.

Desde a infância, Roberta gosta de artes, principalmente no que diz respeito às letras das músicas que escuta. Na escola e com acesso aos livros didáticos, cresce sua fascinação pela poesia, a forma de escrever, a sonoridade e a possibilidade imagética. Desde jovem, participa de eventos culturais que incentivam a declamação de poesia.

Seu interesse por histórias e memória também a acompanha desde a tenra infância, o que a leva a se formar em história pela Universidade Federal do Pará (UFPA), em 2016, com a monografia Escravidão negra na região do rio Bujaru: senhores e escravos na segunda metade do século XIX (1869-1882). Em sua compreensão, a história auxilia no entendimento da poesia como registro de determinado contexto, tempo e local, além de possibilitar que ela, enquanto quilombola, negra, mulher e jovem, escreva sua história pessoal e coletiva com um olhar a partir do interior de sua comunidade. Esse movimento faz parte da ruptura histórica dentro do meio acadêmico que, desde a formação, busca definir o "eu/nós" e os "outros/eles" na tentativa de justificar as violências do colonialismo. Agora, Roberta Tavares circula e articula ambos os mundos por ser, ao mesmo tempo, sujeito-pesquisadora e fonte-coletiva de sua pesquisa e escrita.

Em 2017, a poeta escreve sobre parte de sua trajetória na revista Claudia. Ela explicita sua ida a Belém e a sensação de não pertencimento que tanto a cidade quanto a universidade lhe causam, principalmente, devido ao racismo e machismo. Se nas ruas da cidade ela é ofendida devido ao seu cabelo, na universidade ela é vista apenas como objeto de pesquisa. Ainda assim, ela elucida a importância de não ceder a tais mazelas e a importância de (sobre)viver, a fim de mudar a sociedade.

No entanto, a poeta lança críticas importantes sobre a abordagem da edição final da revista, que enfatiza muito mais suas dores e violências sofridas que suas conquistas e ações. Para Tavares, isso explicita como parte dos meios midiáticos localizados no Sudeste brasileiro ainda insistem em transformar a vida de pessoas como ela em folhetins de sofrimento e vitimização ao invés de demonstrar a complexidade da própria vida humana.

Diante disso, Roberta Tavares se utiliza da poesia, da arte e da cultura como uma forma de propulsão e de linguagem para lidar com as questões sociais e se compreender enquanto sujeito no mundo. A poeta é curadora e articuladora do Sarau do Povo da Noite e do Xirê Literário, ambos em Belém, cujas propostas são a declamação de poemas, a divulgação e o encontro de artistas locais.

Com seu arcabouço poético autoral, a poeta lança de forma independente o bookzine1 Mulheres de fogo no ano de 2018. O livro tem grande repercussão e circulação, o que faz com que ele seja relançado em 2019 e em 2020. Com isso, questiona-se a percepção de que as pessoas não compram livros e não lêem poesias. Ao mesmo tempo, mostra a importância de poetas independentes que tensionam o monopólio do mercado editorial.

O poema homônimo, “Mulheres de fogo”, é o mais conhecido, lido e declamado do livro. No poema, Tavares traça uma genealogia entre ela e as diferentes mulheres que influenciam sua trajetória. São mulheres que estão com ela na escuridão e na solidão e que, mesmo no passado, ajudam na sua caminhada presente em direção ao futuro.

Após ampla aceitação e críticas positivas, a artista lança o livro Lugar de se morrer é também o poema, em 2021. O livro é aprovado pela Lei Aldir Blanc, de apoio à cultura, em parceria com o poeta e artista Thiago Kazu (1986). São reunidos 35 poemas que refletem sobre a potencialidade da poesia enquanto espaço marcado pelas diferenças e que permite o entendimento da vida como ciclo de renovação, luta e busca por liberdade. Nesse sentido, seus poemas são propositalmente atravessados pelo desconforto e pela possibilidade de se despir de dogmas. A obra é produzida de forma artesanal, criando uma relação próxima com as poesias: isso porque cada poema é feito com cuidado, multiplicando-se e se transformando em livro.

Em relação à morte, a autora opta por se afastar da percepção de fim fatídico e demonstra que a vida é cíclica, sendo a morte parte inerente de todos os ciclos vitais.

Ambos os livros são experiencialmente informados pela trajetória da poeta e as temáticas raciais, de gênero e de pertencimento permeiam os poemas, ora de forma sutil e sem nomeações, ora de forma explícita. Isso demonstra a delicadeza da autora em trazer questões que tangem a liberdade – tema caro para as mulheres negras em todo o globo – e que refletem sobre a forma de se estar em um mundo que respeite a singularidade e pluralidade das pessoas que o habitam.

Os poemas de Roberta Tavares são fontes ricas de entendimento do mundo contemporâneo no qual a autora está inserida, trazendo as mazelas de um mundo que pode ser cruel para inúmeras pessoas e, mesmo assim, ser fonte para uma reflexão crítica e criativa, por meio da arte.

Nota

1. Minilivro artesanal independente.

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