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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Garoto

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 27.11.2017
1915 Brasil / São Paulo / São Paulo
1955 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Aníbal Augusto Sardinha (São Paulo, São Paulo, 1915 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1955). Compositor e multi-instrumentista. Filho de imigrantes portugueses, Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, convive com música desde pequeno: o pai toca violão e guitarra portuguesa e pratica as primeiras notas em uma viola improvisada. Depois, ganha um banjo...

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Biografia

Aníbal Augusto Sardinha (São Paulo, São Paulo, 1915 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1955). Compositor e multi-instrumentista. Filho de imigrantes portugueses, Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, convive com música desde pequeno: o pai toca violão e guitarra portuguesa e pratica as primeiras notas em uma viola improvisada. Depois, ganha um banjo do irmão mais velho. Aos 11 anos, trabalha como ajudante em loja de instrumentos musicais e integra o conjunto Regional Irmãos Armani. Pela pouca idade, torna-se conhecido como Moleque do Banjo.

Em 1927, participa do grupo do irmão Inocêncio, Conjunto dos Sócios. Em 1929, depois de se apresentar ao lado de Canhoto (1889-1928), Zezinho e Mota, intensifica a atuação como músico: toca em eventos e em emissoras de rádio, acompanha artistas consagrados como Silvio Caldas (1908-1998) e Carmen Miranda (1909-1955) e participa de gravações de discos.
Inicia o estudo formal de violão em 1933, com Atílio Bernardini (1888-1975). Em 1937, ingressa no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e estuda teoria musical, composição e harmonia com João Sepe. Trabalha por longos anos na Rádio Nacional do Rio de Janeiro com o maestro Radamés Gnattali (1906-1988), que o orienta a dedicar-se ao violão. Garoto torna-se um dos melhores violonistas da música popular brasileira.

Como compositor, os maiores sucessos são o choro "Amoroso" (1942), com Luís Bittencourt (1915); "Estranho Amor" (1951), com David Nasser (1917-1980), gravado por Dircinha Batista (1922-1999); o samba "Sorriu para Mim" (1954), com Luiz Claudio (pseudônimo de Iraci de Abreu de Medeiros Rosa), regravado em 1991 por João Gilberto (1931); o choro Duas Contas (1953); a polca dobrado "São Paulo Quatrocentão" (1953), com Chiquinho do Acordeom (1928-1993) e Avaré, composta em para o IV Centenário da cidade de São Paulo. A música torna-se sucesso e vende 700 mil cópias, marca inédita na época. Além dessas canções, destaca-se o choro "Gente Humilde" (1945), letrada por Chico Buarque (1944) e Vinicius de Moraes (1913-1980), em 1969. Essa composição torna-se um dos maiores sucessos de Garoto e marco no repertório musical brasileiro. A música é inicialmente composta como pequena e romântica suíte ao lado de "Vivo Sonhando e Meditação". Em 1951, ela é interpretada no programa Ondas Musicais, da Rádio Nacional, pelo coral Cantores do Céu, com a primeira letra de autor desconhecido. O verso "É a voz da gente humilde que é feliz" é recuperado e reelaborado por Chico e Vinicius.

O compositor falece em 1955, sem receber reconhecimento por sua obra, recuperada e valorizada postumamente.

Análise

Um dos maiores instrumentistas brasileiros, Garoto deixa obra de elevada qualidade técnica, cuja harmonização sofisticada e inovadora é considerada precursora de características desenvolvidas na bossa nova. Inicia a atuação musical precocemente, com apenas 11 anos. O Moleque do Banjo, como é chamado, de início desperta a atenção como instrumentista. Aos 15 anos, grava o primeiro disco, com o violonista Montezano, conhecido como Serelepe. Na gravação, lançada pelo selo Parlophon, interpreta, em duo de banjo e violão, o maxixe Driblando e o maxixe-choro "Bichinho de Queijo", ambos de sua autoria. Nessas obras, é possível antever a sofisticação do compositor, expressa em soluções harmônicas e melódicas. 

No começo dos anos 1930, inicia a carreira nas rádios de São Paulo e frequenta o meio artístico e musical, no momento em que a música popular brasileira ganha seus traços característicos. Nessa época, afirma-se como figura importante no cenário musical e passa a ser conhecido como Garoto. Trabalha intensamente no rádio, em gravações e excursões. Torna-se reconhecido ao lado de cantores como Sílvio Caldas, que indica o compositor para integrar o elenco da Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro, em 1936. Em 1938, com Laurindo de Almeida (1917-1995), forma a Dupla do Ritmo Sincopado e o conjunto Cordas Quentes. O grupo grava o foxtrote de grande sucesso no ano de 1939, "Dá-me Tuas Mãos", de Roberto Martins (1909-1992) e Mário Lago (1911-2002), interpretado por Orlando Silva (1915-1978). Nesse mesmo ano, Garoto acompanha Carmen Miranda em turnê pelos Estados Unidos por oito meses. Substituindo Ivo Astolfi no Bando da Lua, Garoto destaca-se nas apresentações a espectadores ilustres como o presidente dos Estado Unidos, Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), para quem se apresenta na Casa Branca, em 1940. Participa com Carmen Miranda do filme musical Down Argentine Way (1940), que chega ao Brasil com o título de Serenata Tropical. A experiência nos Estados Unidos estreita o contato com o jazz, gênero que, na época, dá o tom da música pop ocidental. A partir daí, suas harmonias e linhas melódicas ganham matizes mais jazzísticos ou modernos. 

De volta ao Rio de Janeiro, retoma as atividades na Rádio Mayrink Veiga, formando o conjunto Garoto e seus Garotos com Waldemar Reis nos vocais,  Ângelo Apolônio (1920-1985) e Almeida ao violão e Russo no pandeiro. Em 1942, é contratado pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, onde permanece por cerca de uma década, participando de vários programas com a pianista Carolina Cardoso de Menezes (1916-1999) e atuando na orquestra da rádio sob regência de Radamés Gnattali, com quem aprimora os conhecimentos de música erudita. 

Entre 1942 e 1946, trabalha em seis discos com Carolina Cardoso de Menezes, gravando foxes e choros que se tornam famosos, como "Amoroso", do próprio Garoto e de Luiz Bittencourt; "Tico-Tico no Fubá", de Zequinha de Abreu (1880-1935); e "Carinhoso", de Pixinguinha (1897-1973) e João de Barro (1907-2006). Em todas essas gravações, sua atuação como instrumentista recebe elogios da crítica. Em dupla com José Meneses (1923-2013), Garoto grava vários discos e participa de diversos programas da Rádio Nacional, como Ao Som da Viola, Um Milhão de Melodias e Nada Além de Dois Minutos. Nelas, impressiona ao intercalar diferentes instrumentos de corda sem perder a sequência das músicas. 

No início dos anos 1950, Paulo Tapajós (1945-2013), diretor artístico da Rádio Nacional, organiza o Trio Surdina, formado por Fafá Lemos (1921-2004) no violino e assobios, Chiquinho do Acordeom e Garoto, no violão. O trio registra três discos de 10 polegadas em 1953:  Trio Surdina (com a canção "Duas Contas", cantada por Lemos, um clássico da música popular brasileira, presente no repertório de diversos cantores), Ary Barroso – Trio Surdina e Léo Perachi e sua Orquestra e Trio Surdina Interpreta Noel Rosa e Dorival Caymmi.

Em 1954, Garoto interpreta na guitarra a "Valsa do Adeus e Mazurka", do compositor franco-polonês Frédéric Chopin (1810-1849), suas últimas gravações. Morre precocemente em 1955, vítima de um ataque cardíaco, antes de realizar excursão à Europa. Ao longo da vida, dá aulas de violão para músicos como Laurindo de Almeida, Carlos Lyra (1939) e Candinho (1934). 

Sua influência é importante pela incorporação do jazz à música brasileira e pela interpretação do choro com o violão tenor. Atualmente, é considerado o pai da modernidade nesse instrumento. Pelo virtuosismo e composições precursoras da bossa nova, sua obra é referência em todos os violonistas que o sucedem.  

Entre os intérpretes de suas composições estão Rafael Rabelo (1962-1995) e Copinha (1910-1984), com a gravação de Desvairada; Dick Farney (1921-1987), com Nick Bar (parceria com José Vasconcellos); Laurindo de Almeida e Ray Turner, com "Choro Triste"; Egberto Gismonti (1944) com Choro Triste nº 1 e Lamentos do Morro; e Paulo Bellinati (1950) com "Choro Triste nº 2" e "Lamentos do Morro". 

Postumamente, são lançadas os discos Garoto Revive em Alta Fidelidade Interpretando Ary Barroso (1957), com acompanhamento posterior da orquestra de Léo Peracchi (1911-1993); Garoto (MIS, 1959), com gravações recuperadas de acetato de programas da Rádio Nacional; Viva Garoto (Núcleo Contemporâneo, 1993), com as matrizes originais e inéditas em disco a partir dos acetato gravados nos estúdios da RGE em 1950, com instrumentação e arranjos e participação de Egberto Gismonti, Teco Cardoso (1960), Lea Freire (1957), Nico Assumpção (1954-2001) e Zé Menezes (1921-2014); Aloysio de Oliveira apresenta gênios de Violão: Garoto e Luis Bonfá (1996), com sete faixas recuperadas. Dos tributos ao artista, destacam-se: Garoto por Geraldo Ribeiro (1980); Tributo a Garoto – Radamés Gnattali e Raphael Rabello (1982); Garoto, Paulo Bellinati (1986); The Guitar of Garoto, Paulo Bellinati (1991), edição acompanhada de dois songbooks e Relendo Garoto – Zé Menezes ( 1998). Esse panorama do importante legado de Garoto demonstra como sua obra influencia os violonistas brasileiros por várias décadas. 

Obras 1

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Fontes de pesquisa 3

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  • ALVIM, Lia Machado. Garoto, o gênio das cordas. Todos os Sons, Rádio Cultura Brasil, 13 jun. 2010. Programa de Rádio. Disponível em: < http://culturabrasil.cmais.com.br/programas/todos-os-sons/arquivo/garoto-o-genio-das-cordas >. Acesso em: 21 maio 2013.
  • ESTEPHAN, Sérgio. Aníbal Augusto Sardinha. O Garoto (1915-1955) e a Era do Rádio no Brasil. Projeto História, São Paulo, v. 43, p. 161-183, jul./ dez. 2011.
  • MELLO, Jorge. Gente humilde: vida e música de Garoto. São Paulo: Sesc SP, 2012.

Como citar

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