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Música

Dilermando Reis

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 14.10.2019
22.09.1916 Brasil / São Paulo / Guaratinguetá
02.01.1977 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Dilermando dos Santos Reis (Guaratinguetá, São Paulo, 1916 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1977). Violonista e compositor. Terceiro de 15 irmãos, aprende os primeiros acordes com o pai, Francisco dos Santos Reis (1877-1954), violonista amador que toca enquanto a mãe entoa versos de Catulo da Paixão Cearense (1863-1943). Ainda garoto, escutando...

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Dilermando dos Santos Reis (Guaratinguetá, São Paulo, 1916 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1977). Violonista e compositor. Terceiro de 15 irmãos, aprende os primeiros acordes com o pai, Francisco dos Santos Reis (1877-1954), violonista amador que toca enquanto a mãe entoa versos de Catulo da Paixão Cearense (1863-1943). Ainda garoto, escutando discos do pai, tira de ouvido obras de Américo Jacomino, o Canhoto (1889-1928). Tem aulas de violão com Lauro Santos e de teoria musical com o maestro Benedito Cipolli (1896-1959). Em 1931, aos 15 anos, é apresentado a Levino Albano da Conceição (1883-1955), violonista mato-grossense cego que faz show em sua cidade natal. 

Levino concorda em dar aulas a Dilermando, que o segue em excursão pelo Brasil. Em 1933, de passagem pelo Rio de Janeiro, Levino paga 15 dias de hospedagem ao jovem aprendiz e parte em viagem, sem retornar. Dilermando começa a lecionar violão em lojas de música na região central carioca. Em 1935, firma-se como professor da Guitarra de Prata, onde conhece músicos que frequentam a casa, como Pixinguinha (1897-1973) e João da Baiana (1887-1974)

Em 1936, conhece o radialista Renato Murce (1900-1987), que o convida a participar como instrumentista em dois programas da Rádio Guanabara: Alma do Sertão e Antigamente. Na mesma época, ingressa no regional de Pixinguinha, ao lado do bandolinista Luperce Miranda (1904-1977), do violonista de sete cordas Tute (1886-1957), do percussionista João da Baiana e do clarinetista Luiz Americano (1900-1960). Em 1938, atua nos sucessos radiofônicos Variedades Esso e Programa Casé, tornando-se o violonista mais bem pago das rádios cariocas. Cria o próprio regional e, a partir de 1940, forma uma orquestra que atua no Cassino da Urca e na Rádio Club do Brasil, onde assume um programa de violão solo e acompanha cantores. Seu conjunto é formado pelo cavaquista Waldir Azevedo (1923-1980), os violonistas César Ayala e Francisco Sá mais Moacyr Machado Gomes, o Risadinha do Pandeiro. O violonista Jorge Santos substitui César Ayala, assassinado em 1946. 

Em 1941, lança o primeiro disco de 78 RPM, pela Columbia, com a valsa “Noite de Lua” e o choro “Magoado”. É o primeiro dos 35 discos de 78 RPM e 27 LPs gravados pelo músico, números expressivos para um instrumentista. Em 1956, por influência do presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976), vai para a Rádio Nacional e assume o programa Sua Majestade, o Violão, apelido pelo qual é conhecido no meio musical. 

Deixa a atividade de professor em 1960 e assume o cargo de Delegado Fiscal da Receita, trabalho oferecido pelo presidente [1].  Retribui ao amigo com o disco Melodias da Alvorada (1960), no qual inclui a música “Exaltação a Brasília”, com letra de Bastos Tigre (1882-1957) e acompanhamento do pianista Radamés Gnatalli (1906-1988). Em 1962, com o cantor Francisco Petrônio (1923-2007), lança Uma Voz e um Violão em Serenata, primeiro de uma série de sete discos da dupla.

Análise

Dilermando Reis é herdeiro direto da tradição dos violonistas-compositores do final do século XIX e do início do século XX, como Américo Jacomino, o Canhoto, João Pernambuco e Mozart Bicalho (1901-1986). A atuação durante a chamada Era de Ouro das rádios cariocas, que se estende por mais de trinta anos, é um marco para a divulgação do violão solista no país. Seus programas nas rádios transformam o instrumento em protagonista. Isso é determinante para criar uma tradição de ouvintes de violão solo.

A atividade como intérprete e compositor, registrada em discos, ajuda a difundir a escola dos violonistas seresteiros. Além de gravar composições próprias e de músicos dessa tradição, ele registra temas eruditos, a exemplo de “Concerto N. 1 Para Violão e Orquestra”, de Radamés Gnattali, “Choro N. 1”, de Villa-Lobos (1887-1959), e “Adelita”, de Francisco Tárrega (1852-1909). No decorrer dos anos, suas escolhas contribuem para diminuir o afastamento entre as tradições popular e erudita do violão.

Como compositor, Dilermando grava choros, valsas, polcas, guarânias e boleros, que ajudam a definir o estilo de música dos ouvintes da emergente Era do Rádio. A composição “Noite de Lua”, gravada no primeiro disco, em 1941, apresenta semelhança estrutural e melódica com “Gotas de Lágrimas”, de Mozart Bicalho, uma valsa considerada como música de desafio. Interpretá-la nos anos 1930 garante as credenciais de bom violonista. 

Nas gravações dos sete discos com o cantor Francisco Petrônio, parceria iniciada com  Uma Voz e um Violão em Serenata, disco de 1962, seu instrumento aparece como acompanhamento e com linguagem simples. A proposta é dar destaque à voz do cantor e preencher os espaços em branco com linhas de baixo e pequenos solos, com execução precisa e arranjos sem ornamentações, mas bem marcados. Nos sete álbuns da dupla, destacam-se temas das primeiras décadas do século XX, como “Rosa”, de Pixinguinha e João de Barro, “Chão de Estrelas”, de Silvio Caldas (1908-1998) e Orestes Barbosa (1893-1966), e “Lua Branca”, de Chiquinha Gonzaga (1847-1935).

O violonista Fábio Zanon (1966) define a interpretação de Dilermando Reis como emotiva e romântica. Dilermando toca violão com cordas de aço, sem palheta, aproveitando-se da sustentação das notas com uso recorrente de vibratos e antecipando os baixos em relação à melodia. Perpetua, assim, a tradição da escola dos violonistas seresteiros. Suas valsas e choros são simples dos pontos de vista melódico e harmônico, destacando-se pelo estilo cantabile.

Muitas composições de Dilermando acabam incorporadas ao repertório do violão solista brasileiro. Suas valsas mais conhecidas – a exemplo de “Uma Valsa e Dois Amores”, “Dois Destinos”, “Se Ela Perguntar” e a já citada “Noite de Lua” –, assim como os choros “Magoado”, “Feitiço”, “Dr. Sabe Tudo” e “Xodó da Baiana”, fazem parte da seleção de músicas de estudo de quem escolhe esse caminho no país.

Ele é um marco na linguagem violonística para os instrumentistas populares posteriores. Para quem toca o mesmo instrumento no Brasil, é impossível passar indiferente a sua obra. Suas composições integram o repertório fundamental dos violonistas no país e são referência do violão brasileiro mundo afora. A valsa “Se Ela Perguntar”, com letra de Jair Amorim (1915-1993), é uma das obras  mais conhecidas no exterior, ao lado de temas como o batuque “Conversa de Baiana”. 

O disco Sua Majestade, o Violão (1957) é, ainda hoje, essencial no meio violonístico. Apresenta obras eruditas de compositores como do polonês Frédéric Chopin (1810-1849) e do espanhol Francisco Tárrega (1852-1909), executadas ao lado de composições do repertório popular (entre as quais, músicas do próprio Dilermando). Seu álbum Dilermando Reis interpreta Pixinguinha (1972) e Homenagem a Ernesto Nazareth (1973) também são clássicos entre violonistas e admiradores do instrumento.

Outras gerações de músicos que tocam o instrumento rendem homenagens a ele. Em 1994, Raphael Rabello (1962-1995) lança o álbum Relendo Dilermando Reis, produzido por J. C. Botezelli, o Pelão. Em 2016, para comemorar o centenário de nascimento de Dilermando Reis, o violonista Marco Pereira (1950) grava Dois Destinos, em que reinterpreta 12 temas do compositor. Segundo Marco, para executá-los, ele procurou imaginar como o próprio Dilermando trataria suas músicas se tivesse 30, 40 anos de idade em 2016.

Notas

1.  A proximidade entre os dois é tanta que Dilermando leciona violão à filha de Juscelino e ensina algumas posições no instrumento ao presidente, com quem participa de serestas em Diamantina, Minas Gerais. Cf. REIS, Dilermando. Acervo “Depoimentos para a Posteridade”. Música Popular. Museu da Imagem e do Som, Rio de Janeiro, 29 nov. 1972.

 

Fontes de pesquisa 6

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  • GALILEA, Carlos. Violão Ibérico. Rio de Janeiro: Trem Mineiro Produções Artísticas, 2012.
  • MARTINS, Reginaldo de Almeida. Muito além da valsa “Gotas de Lágrimas”: o violão seresteiro de Mozart Bicalho em transcrições e arranjos de seus álbuns Sonhando ao Luar e Um Senhor Violão. Dissertação (Mestrado em Performance Musical) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2013.
  • MEDEIROS, Alan Rafael de. Abordagem genealógica de Sua Majestade: o violonista e compositor Dilermando Reis (1916-1977). In: SIMPÓSIO Acadêmico de violão da Embap, 1, 2007, Curitiba. Anais... Curitiba: Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap), 2007.
  • MEDEIROS, Alan Rafael de. Não só de bossa vive um presidente: a relação entre Dilermando Reis e Juscelino Kubitschek. IV In: SEMINÁRIO de Pesquisa em Artes da FAP, 4, 2009, Curitiba. Anais… Curitiba: Faculdade de Artes do Paraná (FAP), 2009. Disponível em: http://www.academia.edu/4469637/Nao_so_de_Bossa_vive_um_Presidente_A_relacao_entre_Dilermando_Reis_e_Juscelino_Kubitschek_IV_Semin%C3%A1rio_de_Pesquisa_em_Artes_da_FAP_2009_Curitiba_. Acesso em: 19 out. 2016.
  • TABORDA, Marcia Ermelindo. Violão e Identidade Nacional: Rio de Janeiro 1830/1930. 2004. Tese (Doutorado em História Social) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004.
  • ZANON, Fábio. Violão com Fábio Zanon, exibido pela rádio Cultura FM em 2006. Programa Dilermando Reis. Disponível em: http://vcfz.blogspot.com/2006_04_01_archive.html. Acesso em: 10 set. 2016.

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