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Música

Yara Bernette

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 26.12.2016
14.03.1920 Estados Unidos / Massachusetts / Boston
31.03.2002 Brasil / São Paulo / São Paulo

Retrato de Yara Bernette, 1951
Flávio de Carvalho, Yara Bernette
Óleo sobre tela, c.s.d.
72,00 cm x 92,00 cm
Museu de Arte Brasileira - FAAP (São Paulo, SP)

Yara Bernette Epstein (Boston, Estados Unidos, 1920 - São Paulo, São Paulo, 2002). Pianista e professora. Muda-se para o Brasil com seis meses de idade. Aos seis anos, ganha um piano dos pais e começa a ter aulas com o tio, José Kliass (1895-1970) um dos principais professores de piano do Brasil1. Em 1931, apresenta-se em concerto infantil no Te...

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Biografia
Yara Bernette Epstein (Boston, Estados Unidos, 1920 - São Paulo, São Paulo, 2002). Pianista e professora. Muda-se para o Brasil com seis meses de idade. Aos seis anos, ganha um piano dos pais e começa a ter aulas com o tio, José Kliass (1895-1970) um dos principais professores de piano do Brasil1. Em 1931, apresenta-se em concerto infantil no Teatro Municipal de São Paulo, onde estreia como profissional em 1938, com a Orquestra Sinfônica Municipal, regida por Souza Lima (1989-1982). Encorajada por pianistas como Claudio Arrau (1903-1991) e Arthur Rubinstein (1887-1982), realiza sua estreia internacional em 1942, no Town Hall, em Nova York. Em 1951, é retratada em óleo sobre tela por Flávio de Carvalho (1899-1973), pintura que pertence ao Museu de Arte Brasileira – Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), São Paulo. No ano seguinte, dubla, ao piano, a atriz Tônia Carrero (1922) que interpreta uma pianista erudita, consagrada com a obra de Beethoven, no filme Appassionata, de Fernando de Barros.

A primeira apresentação europeia acontece em 1955, com a Orquestra dos Concertos do Conservatório de Paris, nas Bachianas Brasileiras n. 3, de Villa-Lobos (1887-1959), e regência do próprio compositor. No mesmo ano, apresenta-se em Viena, Amsterdã e Londres, onde ganha o Arnold Bax Special Memorial Award como melhor intérprete de música contemporânea. Em 1958, em Berlim, atua no Festival Brahms da Semana de Gala da Filarmônica de Berlim, sob regência de Karl Böhm (1894-1981). Participa do júri da primeira edição do Concurso Internacional de Piano Van Cliburn, em Fort Worth, Texas, em 1962, e estreia com a Filarmônica de Nova York em 1965, com o Concerto n. 3 para Piano e Orquestra do russo Sergey Prokófiev (1891-1953). Na década de 1970, grava, para a Deutsche Grammophon, uma versão quase completa dos prelúdios Op. 23 e Op. 32 do também russo Serguei Rachmaninov (1873-1943) (ficam de fora o Op. 23 n. 3 e os Op. 32 n. 11 e 13). Em 1972, é selecionada, entre 130 candidatos, como professora de piano da Escola Superior de Música de Hamburgo, na Alemanha, função que exerce por duas décadas. Nos anos 1970, toca em duo com o pianista Jacques Klein (1930-1982) e, em 1981, apresenta-se em São Paulo com integrantes do Quarteto Amadeus. Após dois anos de afastamento dos palcos monta, em 1988, o Artistrio, com Ayrton Pinto (1933-2009) no violino e Antonio del Claro (violoncelo). O grupo grava um disco dedicado a Villa-Lobos e posteriormente, em 1995, Bernette registra um álbum solo. Ativa até o final da vida, ocupa a cadeira n. 17 da Academia Brasileira de Música.

Análise
Yara Bernette é uma das principais pianistas brasileiras do século XX. No começo da década de 1950, recebe elogios da crítica nacional e da internacional. No Brasil, o compositor Edino Krieger, ao avaliar recital solo no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, ressalta que a pianista possui a faculdade inata da percepção musical. Independentemente das poucas restrições que se possa fazer de sua concepção estilística de alguns autores –, a qualidade de sua atuação mantém-se inalterada2.

No mesmo ano de 1950, o Prescott Evening Courier, do Arizona, destaca o entusiasmo do público perante uma performance que mescla repertório europeu tradicional – Ludwig van Beethoven (1770-1827), Fryderyk Chopin (1810-1849), Debussy e Rachmaninov – a compositores latinos, como o do espanhol Isaac Albéniz (1860-1909) e Villa-Lobos, cuja “Dança do Índio Branco” é considerada “selvagemente empolgante”3.

A artista plástica Tarsila do Amaral (1866-1973), em crônica de 1952, pergunta: “Quem não conhece Yara Bernette? Quem não lhe conhece o dom de empolgar, quando suas mãos maravilhosas percorrem o teclado de um piano?”. O texto de Tarsila explora o álbum de recortes da pianista, destacando louvores da crítica internacional. Cita Irving Kolodin, do New York Sun, que qualifica a execução da Chacona, de Bach, transcrita por Busoni, de definitiva. No mesmo jornal, é possível ler que “talentos pianísticos desse calibre têm raros similares”, enquanto o New York Post proclama: “Tirem os chapéus, senhores! Miss Bernette é a última e irresistível palavra”4.

O ponto alto de sua carreira fonográfica é a gravação de um álbum de prelúdios de Rachmaninov para a Deutsche Grammophon, na década de 1970. Ao comentar o disco em 1971, na revista norte-americana High Fidelity, David Hamilton louva a diversidade de cores e o lirismo de Bernette. “Excelente senhora do teclado, Miss Bernette navega por todas as dificuldades com perfeito aplomb e sem jamais confundir pianismo com egotismo. Seu som básico tem brilho e solidez, atraente variedade de colorido e claridade soberba e cantante”, afirma. Ao comparar a gravação desse repertório com as dos pianistas Michael Ponti (1937) e Alexis Weissenberg (1929-2012), Hamilton considera a realização de Bernette a mais equilibrada, e com maiores possibilidades de permanecer, e só perderia em comparação com as interpretações de Vladimir Horowitz (1903-1989), Richter (1915-1997) ou do próprio compositor5.

Dentre os autores brasileiros, associa-se ao paulista Camargo Guarnieri (1907-1993), que lhe dedica o “Ponteio n. 45” (publicado em 1961), a “Valsa n. 7” (composta em 1954) e o “Concerto n. 3 para piano e orquestra” (composto em 1964). Grava, além disso, a “Dança Negra”, e executa, nos Estados Unidos, as “Variações” sobre um tema nordestino, em Washington, com a orquestra sinfônica local, dirigida por Howard Hanson (1896-1981). Em entrevista ao Jornal do Comércio, na época, o compositor avalia a interpretação de Bernette como “de primeira ordem”6, manifestando sua satisfação com a fidelidade da intérprete a suas intenções.

Em 1989, no Teatro Maksoud Plaza, Yara Bernette grava os trios n. 1 e 3 de Villa-Lobos com seus colegas de Artistrio, o violinista Ayrton Pinto e o violoncelista Antonio del Claro. Ao comentar sobre o grupo, o maestro Julio Medaglia (1938) afirma que Bernette dá uma lição de música “ao saber calibrar o brilho e a expressividade de seu pianismo em meio à fina textura da sonoridade camerística”7. Lançado como volume 2 da Coleção Alcoa de Música Erudita Brasileira, o CD chega ao mercado internacional em 2000, pelo selo Arcobaleno.

Aos 75 anos, em 1995, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, Bernette volta a gravar um disco solo: Encores, álbum independente, com direção artística de Denis Wagner Molitsas e Evandro Pardini. O CD é constituído de 19 peças de curta duração, dos compositores Domenico Scarlatti (1685-1757), Domenico Paradies (1707-1791), Felix Mendelssohn (1809-1847), Robert Schumann, Johannes Brahms, Fryderyk Chopin, Claude Debussy, Serguei Rachmaninov e Heitor Villa-Lobos.

Para Antonio Gonçalves Filho, ao abordar tamanha variedade de autores e cerca de três séculos de música, a pianista empreende uma maratona estilística. O crítico destaca que “sua interpretação de Rachmaninov, por exemplo, representa uma fronteira que outros pianistas dificilmente ousariam atravessar”, e que a grande lição do disco é a “Mazurka Op. 7 n. 3” de Chopin, e que Bernette, além de entender, capta a ambiguidade da obra8.

No ano 2000, dentro da série Grandes Pianistas Brasileiros, o selo Master Class recupera duas gravações até então inéditas em disco, feitas três décadas antes, com importantes orquestras alemãs: o “Concerto n. 2” (1926-7) do compositor russo Nikolai Medtner (1880-1951), com a Filarmônica de Munique, dirigida pelo célebre Rudolf Kempe (1910-1986); e o “Concerto n. 2” (1956) do norte-americano Everett Helm (1913-1999), com a Sinfônica de Bamberg e regência de Ferdinand Leitner (1912-1996). Ambas as peças são defendidas com vigor e convicção.

Notas
1 MARTINS, José Eduardo. Escola Pianística do Professor José Kliass. Blog José Eduardo Martins, 14 abr. 2012. Disponível em: < http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2012/04/14/escola-pianistica-do-professor-jose-kliass/ >. Acesso em: 22 dez. 2015.
2 KRIEGER, Edino. Yara Bernette na Cultura Artistica. Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 29 set. 1950.
3 BUTCHER,   Harold. Young pianist, given praise. Prescott Evening Courier, Prescott, 30 jan. 1950.
4 AMARAL, Aracy. Tarsila cronista. São Paulo: Edusp, 2001.
5 HAMILTON, David. A Rachmaninoff eruption. High Fidelity,Great Barrington, v. 21, n.7, jul. 1971.
6 JORNAL do Comércio.Camargo Guarnieri, de retorno dos EUA. Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 4 jul.1961.
7 MEDAGLIA, Júlio. Artistrio toca Beethoven e Mendelssohn no Festival Vulcan. Folha de S.Paulo, São Paulo, 19 jan.1989. Acontece.
8 FILHO, Antonio Gonçalves. Yara Bernette grava de Bach a Debussy. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 2 abr. 1996. Caderno 2.

Obras 1

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Fontes de pesquisa 14

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  • AMARAL, Aracy. Tarsila Cronista. São Paulo: Edusp, 2001.
  • BUTCHER, Harold. Young pianist, given praise. Prescott Evening Courier, Prescott, 30 jan. 1950.
  • CAMARGO Guarnieri, de retorno dos EUA. Rio de Janeiro: 1961. Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 4 de junho de 1961.
  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998.
  • FILHO, Antonio Gonçalves. Yara Bernette comemora 50 anos de piano e forma um novo trio. Folha de S.Paulo, São Paulo, 28 out. 1988. Ilustrada.
  • FILHO, Antonio Gonçalves. Yara Bernette grava de Bach a Debussy. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 2 abr. 1996. Caderno 2.
  • FORGBER, Heinz. Die neue professorin stammt aus Brasilien. Hamburger Abendblatt, Hamburg, 7 abr. 1973.
  • HAMILTON, David. A Rachmaninoff eruption. High Fidelity, Great Barrington, v. 21, n.7, jul. 1971.
  • JORNAL do Comércio.Camargo Guarnieri, de retorno dos EUA. Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 4 jul.1961.
  • KRIEGER, Edino. Yara Bernette na Cultura Artistica. Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 29 set. 1950.
  • MARTINS, José Eduardo. Escola Pianística do Professor José Kliass. Blog José Eduardo Martins, 14 abr. 2012. Disponível em: < http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2012/04/14/escola-pianistica-do-professor-jose-kliass/ >. Acesso em: 22 dez.2015.
  • MEDAGLIA, Júlio. Artistrio toca Beethoven e Mendelssohn no Festival Vulcan. Folha de S.Paulo, São Paulo, 19 jan. 1989. Acontece.
  • THE NEW York Times.14 soloists will make debuts with Philharmonic. The New York Times, Nova York, 8 abr. 1964.
  • VERHAALEN, Marion. Camargo Guarnieri: expressões de uma vida. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Imprensa Oficial, 2001.

Como citar

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