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Música

Miltinho

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 23.12.2014
31.02.1928 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
07.09.2014 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Milton Santos de Almeida (Rio de Janeiro, RJ, 1928 - idem 2014). Cantor e pandeirista. Inicia sua carreira na década de 1940, integrando o conjunto amador Cancioneiros do Ar, com o qual participa do programa de calouros de Ari Barroso na Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Em 1946, passa a integrar a segunda formação do conjunto vocal Namorados da Lua...

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Biografia
Milton Santos de Almeida (Rio de Janeiro, RJ, 1928 - idem 2014). Cantor e pandeirista. Inicia sua carreira na década de 1940, integrando o conjunto amador Cancioneiros do Ar, com o qual participa do programa de calouros de Ari Barroso na Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Em 1946, passa a integrar a segunda formação do conjunto vocal Namorados da Lua, atuando também como pandeirista, ao lado do cantor Lúcio Alves. Com esse conjunto acompanha a cantora Isaura Garcia na gravação do samba De Conversa em Conversa, de Lúcio Alves e Haroldo Barbosa, realizada pela gravadora Victor.

Em 1948, compõe o conjunto Anjos do Inferno, com o qual viaja pelo Brasil e pelo exterior, passando pela Bolívia, Uruguai, Paraguai, Argentina, Chile e México, onde permanece por dois anos, gravando e atuando em um programa de rádio dedicado ao Brasil. Com esse conjunto, viaja ainda pelos Estados Unidos, acompanhando a cantora Carmem Miranda. Volta ao Brasil em 1951, e é aprovado em um concurso para o Ministério da Fazenda, em razão do qual fica impossibilitado de excursionar durante muito tempo. Ingressa então no conjunto Quatro Ases e um Coringa, como cantor e pandeirista. Atua ainda como crooner na Orquestra Tabajara de Severino Araújo, em boates no beco das garrafas, na boate Vogue e no conjunto Milionários do Ritmo, do pianista Djalma Ferreira, com o qual se apresenta em boates como a Monte Carlo no Hotel Plaza e na boate Drink.

É com os Milionários do Ritmo que faz suas primeiras gravações como crooner, lançadas em 1958, pelo selo Drink, também do líder do conjunto Djalma Ferreira. Interpreta canções de Djalma Ferreira e Luis Antonio como Lamento, Recado e Nosso Samba. Desses discos de 78 rpm surge o convite para lançar seu primeiro LP solo, Um Novo Astro, pela gravadora Sideral. Nesse trabalho é acompanhado pelo Sexteto Sideral, formado por Celso Pereira no piano, Damásio no contrabaixo, Jorginho no saxofone alto, Néco na guitarra, Maurício na bateria, Humberto no ritmo e participação de Baden Powell no violão, na faixa Eu e o Rio. No mesmo ano interpreta a canção o Poema do Adeus no filme O Vendedor de Linguiça produzido por Amacio Mazzaropi e dirigido G. M. Laurelli. A gravadora Sideral entra em falência, e Miltinho passa pela RCA, lançando Samba em Tu, e posteriormente, é contratado pela RGE, pela qual lança em 1961 o LP Miltinho é Samba.

Em 1966 é contratado pela Odeon, onde grava, entre 1967 e 1969, três LPs ao lado de Elza Soares e mais quatro, entre 1970 e 1973, ao lado de Dóris Monteiro. Entre seus discos solos destacam-se Samba + Samba = Miltinho (1966), Samba & Cia (1969), Novo Recado (1971) e Miltinho (1974). Após longo hiato de gravações, é lançado o CD Em Tempo de BoleroI, pela Movieplay, em 1996, e Miltinho Convida, pela Globo/Columbia, em 1997, com participações de artistas como João Bosco, Luis Melodia, João Nogueira e Chico Buarque.

Comentário crítico
Miltinho, em sua interpretação de timbre peculiar, fanhoso e seleção de repertório, liga-se à linhagem mais tradicional do samba, particularmente àquela dos cantores mais sincopados, embora também tenha obtido grande sucesso com a gravação de sambas-canções e baladas românticas.

Miltinho é uma peça importante no processo da síncopa na música brasileira, efetuado por cantores ligados ao ritmo, como Luiz Barbosa, Jackson do Pandeiro ou ainda Germano Mathias. O início da carreira, marcada pela participação em conjuntos vocais, expõe o artista responsável, entre outras coisas, pela base rítmica dos grupos que integra.

Suas interpretações partem de uma base métrica bem definida e desenvolvem na melodia vocal novas nuances rítmicas, nas quais a relação entre os acentos da melodia e os do compasso criam um “balanço” novo, o sambalanço. No começo dos anos 1960, Miltinho torna-se um dos ícones do estilo sambalanço, com os sucessos Mulher de Trinta, de Luis Antonio, Eu Quero Um Samba, de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida, Mulata Assanhada, de Ataulfo Alves. Somado aos êxitos em canções românticas, ele monopoliza as paradas de sucesso deste período, numa proporção só vista, a seguir, com Roberto Carlos.

Entre as décadas de 1940 e 1950 os conjuntos vocais são frequentes no Rio de Janeiro, contratados para programas de diversas rádios e boates. Desses conjuntos surgiram importantes cantores, como Miltinho e Lucio Alves, do Namorados da Lua, e João Gilberto, do Garotos da Lua. Esses dois conjuntos são contratados da Rádio Tupi na segunda metade da década de 1940, aparecendo com grande frequência no programa Parada de Sucessos do cantor e pesquisador Almirante. Um estilo de cantar brasileiro está amadurecendo por essa época, e os crooners dos conjuntos vocais e orquestras influenciam-se e diferenciam-se em uma busca por originalidade que traz resultados significativos para a música brasileira, em particular para o samba.

Já em carreira solo, Miltinho propõe uma interpretação marcada por um tipo de variação rítmica na qual coloca a frase musical em lugares diferentes do compasso. Ou, como o próprio explica: “Você já reparou que eu não canto na cabeça da nota. Eu canto dois tempos atrasados com a harmonia na frente”. Gerando deslocamentos entre os apoios da melodia que está cantando e o apoio do acompanhamento musical, que permanece fixo. Assim o cantor pode improvisar não apenas melodicamente mas também ritmicamente, “derramando” suas melodias sobre o compasso do samba. Não se trata, entretanto, de um tipo de canto nunca antes visto, mas sim de um desenvolvimento e uma nova forma de lidar com a tradição do samba sincopado, que já contava com artistas importantes como Luiz Barbosa, Vassourinha, Geraldo Pereira, Cyro Monteiro e Orlando Silva, referência de toda uma geração de cantores.

Mas, se por um lado esses cantores estão desenvolvendo em conjunto algo como um estilo nascido e criado em terras brasileiras, por outro é bastante visível a influência norte-americana nos arranjos e timbres dos conjuntos vocais, orquestras e crooners atuantes no Rio de Janeiro. Frank Sinatra e Stan Kenton são bastante populares nas rádios e lojas de discos nessa época, e a marca das harmonizações orquestrais americanas ou o tipo de emissão vocal de seus cantores está impressa nos melhores cantores e conjuntos vocais brasileiros da década de 1950. Ao desenvolver as variadas e ricas formas de síncopa da tradição musical brasileira do samba é que os nossos cantores – e Miltinho em particular – encontram uma de suas maiores contribuições e o modo mais eficiente de desprender-se da forte influência da música americana.

Miltinho fez dessa maneira de improvisar e deslocar ritmicamente os acentos da melodia o principal traço de seu estilo. Igualmente saído dos conjuntos vocais, também o cantor João Gilberto fará desse tipo de improvisação uma estratégia central de sua interpretação. João Gilberto faz com que um breve deslocamento rítmico da frase original cause novos acentos, produzindo uma leve sensação de polirritmia, que dá sua originalidade e balanço típicos. Esse é também o procedimento de Miltinho, embora mais exagerado e incluindo repetições de trechos da frase e alterações nas notas da melodia.

Fontes de pesquisa 6

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  • CAMPOS et alii. Um Certo Geraldo Pereira. Rio de Janeiro, FUNARTE, 1983.
  • CASTRO, Ruy. Chega de Saudade: a história e as histórias da Bossa Nova. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998.
  • NO TEMPO DE MILTINHO, documentário de André Weller, produzido por Napressão, 17 min, RJ, Brasil, 2008.
  • SOUZA, Tárik de. A bossa dançante do sambalanço. Revista USP, São Paulo, n.87, p. 28-39, set./ nov. 2010.
  • ULHÔA, M. T. “Métrica Derramada: tempo rubato ou gestualidade na canção brasileira popular.” In: VII Congreso Latinoamericano IASPM - AL, 2006, La Habana. Actas Del VII Congreso Latinoamericano IASPM - AL, 2006. v. Online. p. 1-9.

Como citar

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