Artigo da seção pessoas Ezequiel Freire

Ezequiel Freire

Artigo da seção pessoas
Artes visuais / literatura  
Data de nascimento deEzequiel Freire: 10-04-1850 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Resende) | Data de morte 14-11-1891 Local de morte: (Brasil / São Paulo / Caçapava)

Biografia

José Ezequiel Freire de Lima (Resende, RJ, 1850 - Caçapava, SP, 1891) Poeta, cronista, jornalista, contista e crítico. Em Resende, cidade na qual reside até a adolescência, é vizinho da poetisa Narcisa Amália (1852-1924), que influencia fortemente seus poemas. Cursa o preparatório no Rio de Janeiro e ingressa na Escola Militar e na Escola Politécnica, sem concluir nenhum dos cursos. Em 1869, colabora com poesias e crônicas em jornais fluminenses, como o Astro Resende. Em 1871, integra o Instituto Literário, no Rio de Janeiro. Entre 1870 e 1873, publica versos na revista O Mosquito. Parte para São Paulo em 1874, e no mesmo ano publica o livro de versos Flores do Campo, com prefácio de Narcisa Amália. Livro e prefácio são elogiados posteriormente, em 1879, por Machado de Assis na Revista Brazileira.

Em 1876, ingressa no curso de direito da Faculdade do Largo São Francisco. Convive com muitos escritores e jornalistas, entre eles Assis Brasil (1857-1938), Valentim Magalhães (1859-1903), Gaspar da Silva, Affonso Celso Junior (1860-1938), Wenceslau de Queiroz (1865-1921) e Lucio de Mendonça (1854-1909), com quem escreve os versos Duo de Amor, transcritos por Machado de Assis (1839-1908) em A Semana Illustrada, em 1874. Em 1876, publica versos no jornal A Consciência e, em 1879, na Revista Illustrada. Em 1880, se forma bacharel em direito.

Na década de 1880, intensifica a produção jornalística. Entre 1881 e 1884, colabora no jornal Correio Paulistano com a coluna De Omnibus Rebus. Em 1885, volta a escrever para o Correio Paulistano, reestreando com o artigo No Atelier de Almeida Junior. Escreve ainda para as revistas Entr’Acto, o Bohemio e, em 1886, para a Gazeta de Notícias como correspondente literário. Entre 1887 e 1888, trabalha nas revistas A Semana, A Província de São Paulo (atual O Estado de S. Paulo) e na Gazeta do Povo, como diretor literário, em 1889.

É nomeado juiz municipal de Araras em 1884, cargo que exerce por breve período, devido à saúde debilitada pela tuberculose. Obtém a cadeira de retórica no curso anexo da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, dedicando-se ao magistério a partir de 1885. Nos últimos anos, vive na rua da Consolação, entre poucos amigos e o cultivo de seu jardim, uma extensa biblioteca e uma coleção de arte oriental. Devido a seu estado de saúde, retira-se para Caçapava em 1891. Segundo o escritor Valentim Magalhães, no início de novembro envia aos amigos um cartão, no qual escreve: “Por conta de maior quantia/ rezai por ele/ Pater Noster e Ave Maria”.1 O poeta teria falecido dias depois. Em 1910, é editado o Livro Póstumo com contos, crônicas e críticas publicadas na imprensa. Ezequiel Freire é patrono da cadeira nº 20 da Academia Paulista de Letras (APL).


Comentário crítico

O poeta Ezequiel Freire, conhecido pelo poema Flores do Campo, é um dos primeiros e mais importantes críticos de arte atuantes no final do século XIX em São Paulo. Sua produção pode ser definida como a de um publicista, que se debruça sobre os mais variados temas, da estética à política. Em relação à política, defende uma posição antimonárquica e abolicionista.

No conjunto de seus escritos, de todos os gêneros, predomina a exaltação da natureza, encarada como objeto de fruição e reflexão. Em Flores do Campo esse tema surge em versos singelos e espontâneos. Sobre eles o escritor paulista Hernâni Donato (1922-2012) comenta que: “[...] sem o rótulo do simbolismo, Flores do Campo fora legítimo precursor do simbolismo, contínuo referir-se às relações entre os sentidos e as emoções, os perfumes e as cores, as cores e os sons”.2 Freire pertence a um círculo de escritores influenciados pelos poetas românticos e simbolistas, movimentos dos quais se distancia no decorrer de sua trajetória.

Em 1887, aproximando-se da narrativa naturalista, o conto Pedro Gobá relata a brutalidade do sistema escravocrata, fundindo a ficção com o caráter documental. O conto é dedicado ao escritor português Ramalho Ortigão (1836-1915), que faz o seguinte o comentário: “Pela intensidade do colorido e pela vibração do sentimento local recorda-me alguns trechos da vida rústica da Rússia narrados por Tourgueneff ou por Tolstoi”.3

Escreve ensaios dedicados a jovens poetas brasileiros e, em menor medida, críticas teatrais e musicais, interessando-se por intérpretes contemporâneos. Aprecia botânica, chegando a publicar artigos nos quais defende o isolamento em meio às plantas como repouso necessário ao espírito.4

Na crítica de arte, seus interesses pelo belo natural e pelo belo artístico fundem-se na análise da obra do pintor Almeida Junior (1850-1899). O termo naturalismo, palavra corrente em seus artigos, é observado na pintura de Almeida Junior na adesão à cor local e no desapego a estruturas preconcebidas. O método de análise do crítico é influenciado pela obra de Ramalho Ortigão, com o qual compartilha a preferência pelo naturalismo. No artigo No Atelier de Almeida Junior, de 1885, o crítico comenta o desconhecimento de muitos leitores sobre a existência de um pintor paulista do mérito de Junior, “dos mais aproveitados discípulos de Cabanel”, que traria também em seus modos pessoais “o cunho característico do ‘paulinismo’”, da linhagem heroica dos bandeirantes, “aventureira e artística”, cujos traços ituanos nem as sofisticações parisienses foram capazes de suprimir. Chama-lhe a atenção a verdade dos nus femininos, feitos conforme a natureza e não segundo os artifícios das vitrines, perturbando a visão com um golpe de realidade inesperada.

Valoriza no pintor a atenção à paisagem paulista. Considera-o, ao lado do compositor Carlos Gomes (1836-1896), motivo de orgulho para a região. No entanto, somente Almeida Junior, em sua expressão espontânea, seria o paulista genuíno, a “rediviva alma do bandeirante, cambiada a rude ambição das riquezas pela delicada aspiração do gozo estético”. Analisa inclusive os aspectos físicos: “(...) tal constituição psicofísica robustecida pela educação técnica, devia naturalmente fazer de Almeida Junior o criador da pintura nacional, e fê-lo, porventura”.

Para o crítico, a prova da inspiração artística brasileira não está nas galerias da Academia de Belas Artes (ABA). Os quadros de batalhas seriam em geral “incaracterísticos” e inexpressivos para o nosso temperamento. Sobre o indianismo, só excepcionalmente poderia ser fonte inspiradora, considerando-o como pitoresco apenas. Os heróis indígenas estariam completamente fora da vida nacional. Para Freire, o verdadeiro tipo brasileiro seria o caipira, o gaúcho, o tapuia, o caburé, o mulato e também o branco, de origem lusa abrasileirada.

Afirma que “é a salutar reação à arte de arremedo estrangeiro que eu principalmente vejo, amo e proclamo na grande tela de Almeida Junior – os Caipiras Negaceando”. Tal pintura é para o crítico “uma insurreição contra o velho potro da renascença sobre o qual a obsoleta estética de Platão martirizou por tanto tempo o talento, sopitando na alma do artista a vis criadora da espontaneidade, infligindo-lhe a atrofiante disciplina da imitação clássica, acenando-lhe para além de toda a realidade o fantasma intangível do belo ideal”.5 

 

Notas
1 MAGALHÃES, Valentim. Ezequiel Freire. In: FONSECA, Henrique; BITTENCOURT, Heitor (orgs.). Almanaque do centenário de Rezende para o ano de 1902. Rezende, RJ: Typographia e Papelaria Fonseca, 1902, p. 35.
2 DONATO, Hernâni. Discurso de posse da cadeira nº 20 da Academia Paulista de Letras, em 24/5/1972. Disponível em:. O escritor paulista Wenceslau de Queiroz, no entanto, aponta elementos em seu poema que se tornariam consonantes com o futuro movimento naturista, criado pelo escritor francês Saint-Georges de Bouhélier, por volta de 1894, em oposição ao simbolismo. QUEIROZ, Wenceslau de. Ezequiel Freire, à guisa de prefácio. In: FREIRE, Ezequiel. Livro póstumo. São Paulo: Weiszflog Irmãos, 1910, p. 6-7.
3 ORTIGÃO, Ramalho. Correspondência de agradecimento. In: Idem, p. 313.
4 "Do que precisamos, porém, é de um desarmamento completo, de um licenciamento geral das tropas, de uma paz absoluta, sem verba alguma no orçamento do ministério da guerra. Fechem-se os quartéis, vamos para os jardins”. FREIRE, Ezequiel. De Omnibus Rebus: jardins, hortas e pomares. Correio Paulistano. São Paulo, 21 dez. 1883, p. 1.
5 FREIRE, Ezequiel. Almeida Junior, os Caipiras Negaceando. Livro Póstumo. São Paulo: Weiszflog Irmãos, 1910, p. 141-147.

Outras informações de Ezequiel Freire:

  • Outros nomes
    • José Ezequiel Freire de Lima
  • Habilidades
    • Poeta
    • Cronista
    • jornalista
    • Contista
    • Crítico

Fontes de pesquisa (1)

  • ASSIS, Machado de. A nova geração. Revista Brazileira, Rio de Janeiro: N. Midosi (editor), ano I, tomo II, out. a dez. 1879, p. 374-413.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • EZEQUIEL Freire. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa636155/ezequiel-freire>. Acesso em: 09 de Dez. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7