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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

André da Silva Gomes

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 29.05.2019
1752 Portugal / Distrito de Lisboa / Lisboa
1844 Brasil / São Paulo / São Paulo
André da Silva Gomes (Lisboa, Portugal, 1752 - São Paulo, São Paulo, 1844). Compositor e regente. Filho de Francisco da Silva Gomes e Inácia Rosa. De sua formação musical, sabe-se apenas que é discípulo do compositor e mestre-de-capela José Joaquim dos Santos (1747-1801) no Seminário Patriarcal de Lisboa. É trazido ao Brasil pelo terceiro bispo ...

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Biografia

André da Silva Gomes (Lisboa, Portugal, 1752 - São Paulo, São Paulo, 1844). Compositor e regente. Filho de Francisco da Silva Gomes e Inácia Rosa. De sua formação musical, sabe-se apenas que é discípulo do compositor e mestre-de-capela José Joaquim dos Santos (1747-1801) no Seminário Patriarcal de Lisboa. É trazido ao Brasil pelo terceiro bispo de São Paulo, frei D. Manuel da Ressurreição, que o contrata para ser o quarto mestre-de-capela da Sé, com a incumbência de reorganizar e ensaiar o coro, compor e reger música para as solenidades religiosas e manter a escola pública de música. Até 1806, exerce funções análogas nas irmandades do Santíssimo Sacramento e da Ordem Terceira do Carmo - nessa última, é sucedido por Joaquim José da Silva, filho adotivo e discípulo. Desde sua chegada, até 1801, é também responsável pela música nas festas reais anuais da câmara de São Paulo. Pertence ao Primeiro Regimento de Infantaria Miliciana, sucessivamente como alferes, capitão (em 1789) e tenente-coronel (em 1787), organizando ainda a vida musical da corporação. Em 1775, casa-se com Maria Garcia de Jesus, que morre em 1820; não tem filhos no casamento, porém Gomes adota a enteada e cerca de 16 outras crianças, ensinando-lhes a língua portuguesa e as primeiras noções de música.

Em 1797, é nomeado interinamente e, posteriormente (1801), efetivado no cargo de mestre régio de Gramática Latina, com salário de 400 mil-réis anuais - remuneração dez vezes superior à de mestre-de-capela da Sé. A nova função o faz abandonar todos os serviços extraordinários em música, à exceção da Sé, na qual permanece por especial solicitação do bispo de São Paulo. Recusa-se, contudo, a receber pagamento pelas tarefas que segue a prestar ali até 1823. Em 1821, integra, como representante da instrução pública, o governo provisório estabelecido em São Paulo, em consequência do levante liberal que levara à instalação de um regime constitucional em Lisboa. Falece aos 91 anos, em 17 de junho de 1844, e é sepultado na catedral da Sé.

Análise

André da Silva Gomes é autor de um tratado teórico de 150 páginas intitulado Arte Explicada do Contraponto. No verbete a respeito do compositor no The New Grove Dictionary of Music and Musicians, Gérard Béhague assinala que, "embora seu período criativo aparentemente tenha se estendido de 1784 a 1823, a maioria de suas obras revela práticas estilísticas tardias do Barroco, incluindo o uso ocasional de baixo contínuo"1.

Na verdade, suas primeiras composições datadas e assinadas remontam ao ano da chegada do compositor ao Brasil, 1774: uma das três Matinas de Natal, o salmo De profundis, os Ofícios ad Matutinum de 5.a e 6a feira santas, para quatro vozes missas e órgão. Sua derradeira partitura é uma Missa de Natal de 1823, destinada para execução em Cotia. Responsável pela descoberta moderna da obra do compositor, Régis Duprat afirma que "há em André da Silva Gomes certa frequência da nostalgia de Deus e certo desencanto da paz na terra"2.

Estilisticamente, ao analisar algumas das partituras mais célebres do músico, Duprat aponta para as práticas destacadas por Béhague. Assim é que na Missa em mi bemol para solistas, coro a oito vozes e orquestra "o contínuo caminha de forma barroca", enquanto a Missa a cinco vozes e instrumentos oferece "um esquema intermediário entre o barroco e o clássico".

Em 1960, na Cúria Metropolitana de São Paulo, Duprat encontra manuscritos do compositor cuja existência é ignorada até mesmo pelo pessoal técnico especializado do arquivo da instituição. Antes das pesquisas de Duprat, pioneira monografia do musicólogo Clóvis de Oliveira3 sobre o músico lisboeta, publicada em São Paulo, em 1954, não lista mais do que dez obras de sua autoria. Em 1995, Duprat publica um catálogo com nada menos que 130 peças da lavra de André da Silva Gomes.

A divulgação de partituras do compositor em edição crítica inicia-se em 1966, com a publicação, pela Universidade de Brasília e Ministério das Relações Exteriores, da transcrição musicológica de Duprat da acima mencionada Missa em mi bemol, por iniciativa de Claudio Santoro, então coordenador do Departamento de Música da universidade.

Cabe aos maestros George Olivier Toni (1926) e Walter Lourenção (1929) a primazia na gravação de obras de André da Silva Gomes, com o Adjuva nos Deus e Immutemur, do Ofício de Quarta-Feira de Cinzas, de 1781. Em 1970, Júlio Medaglia (1938) registra a Missa em mi bemol para o selo Festa, enquanto Santoro grava a anteriormente citada Missa a cinco vozes com a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília, em 1983, para a Basf. Na década de 1990, o grupo paulista Brasilessentia, regido por Vitor Gabriel, dedica dois CDs ao compositor paulista, para a gravadora Paulus.

Com a virada do século, começam a surgir gravações que interpretam a música de André da Silva Gomes dentro da corrente "historicamente informada", de música antiga com instrumentos "de época". Em 2002, Luís Otávio Santos registra a Missa Concertada para a Noite de Natal com a Orquestra Barroca do 13. Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga de Juiz de Fora (MG).

Em 2004, na Sala São Paulo, Ricardo Bernardes comanda o Américantiga - Coro e Orquestra de Câmara em nova gravação da Missa a cinco vozes. Com o mesmo grupo de instrumentos originais, Bernardes registra em Buenos Aires, em 2009, o Stabat Mater para quatro vozes, flauta, cordas e contínuo.

Notas

1 SADIE, Stanley (ed.). The New Grove Dictionary of Music and Musicians. London: Macmillan Publishers, 1995.

2 DUPRAT, Régis. Música na Sé de São Paulo Colonial. São Paulo: Paulus, 1995.

3 Clóvis de Oliveira elabora em 1946 uma biografia e compilação da obra de André da Silva Gomes, em monografia para o Concurso Municipal de Monografias. Op. cit. DUPRAT, Regis. Música na Sé de São Paulo Colonial. São Paulo: Paulus, 1995.

Fontes de pesquisa 6

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  • DUPRAT, Régis (org.). Música Sacra Paulista. São Paulo: Arte & Ciência; Marília: Editora Empresa Unimar, 1999.
  • DUPRAT, Régis. Garimpo Musical. São Paulo: Novas Metas, 1985.
  • DUPRAT, Régis. Música na Sé de São Paulo Colonial. São Paulo: Paulus, 1995.
  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998.
  • GOMES, André da Silva. Missa a Cinco Vozes: Coro, solistas e orquestra/André da Silva Gomes; Régis Duprat (ed.). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999.
  • SADIE, Stanley (Ed.). The New Grove dictionary of music and musicians. London: Macmillan Publishers, 1995.

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