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Música

Bonfiglio de Oliveira

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 10.01.2019
27.09.1891 Brasil / São Paulo / Guaratinguetá
16.05.1940 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Bonfiglio de Oliveira (Guaratinguetá, São Paulo, 1891 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1940). Trompetista, contrabaixista, compositor, regente. Seu primeiro instrumento é o bumbo, que aprende a tocar ainda criança. Tem aulas de trompete com o maestro local e, por volta de 1906, começa a tocar na banda da qual seu pai é contrabaixista. Também in...

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Biografia

Bonfiglio de Oliveira (Guaratinguetá, São Paulo, 1891 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1940). Trompetista, contrabaixista, compositor, regente. Seu primeiro instrumento é o bumbo, que aprende a tocar ainda criança. Tem aulas de trompete com o maestro local e, por volta de 1906, começa a tocar na banda da qual seu pai é contrabaixista. Também integra a banda do colégio em que estuda. Recebe as primeiras lições de composição e regência e logo assume a direção do conjunto colegial. Em homenagem ao diretor da escola, escreve sua primeira composição, o dobrado Padre Frederico Gióia.

Conclui os estudos na cidade de Piquete, São Paulo, onde monta uma banda com a qual excursiona por cidades vizinhas. Por volta de 1912, convidado pelo maestro Lafaiete Silva (c. 1878-c.1940) para integrar a orquestra do Cinema Ouvidor, muda-se para o Rio de Janeiro. Frequenta as rodas de choro da cidade e passa a morar na Pensão Viana, o conhecido casarão do pai de Pixinguinha, com quem Bonfiglio estabelece profunda amizade.

Em 1913, integra o conjunto Choro Carioca, do qual também fazem parte Pixinguinha (1897-1973) e Candinho do Trombone (1879-1960). Com o grupo, grava a valsa “Rosecler” e a polca “Guará”, ambas de sua autoria. Toca contrabaixo e trompete em orquestras de cinema e teatro, e integra a Orquestra da Sociedade de Concertos Sinfônicos. Frequenta o Conservatório Musical do Rio de Janeiro, do qual se torna professor de trompete. Também atua em diversos grupos e ranchos carnavalescos, como Grupo do Caxangá, União da Aliança, Ameno Resedá e Recreio das Flores.

Em 1922, integra com Pixinguinha a jazz-band Oito Batutas, com a qual excursiona pela Argentina. Toma parte da Companhia Negra de Revistas e da Ba-Ta-Clan Preta, trupes formadas por artistas negros. Em 1933, viaja para Portugal com a jazz-band da Companhia Tro-Lo-Ló. No ano seguinte, sua marchinha “Carolina”, parceria com Hervé Cordovil (1914-1979), é sucesso no carnaval. Igualmente exitosos são o samba “Mariana”, com letra de Lamartine Babo (1904-1963), e a marcha “Onde Você Mora”, composta com Valfrido Silva (1904-1972). Compõe canções baseadas em motivos populares para a trilha do filme O Jovem Tataravô (1936), de Luís de Barros (1893-1981).

Apresenta-se na Itália, França e Espanha com a orquestra do Cassino Atlântico e é apontado por críticos europeus como um dos maiores trompetistas do mundo. Ainda nos anos 1930, atua como instrumentista e diretor de orquestra nas emissoras Educadora, Mayrink Veiga e Phillips, além de tomar parte no Grupo da Guarda Velha e na Orquestra Diabos do Céu, regidos por Pixinguinha.

Deixa mais de 50 composições, algumas gravadas por conhecidos cantores e instrumentistas. Em 1972, sua marcha “Mais uma Estrela”, composta com Herivelto Martins (1912-1992), é regravada por Nara Leão (1942-1989) para o filme Quando o Carnaval Chegar (1972), de Cacá Diegues (1940).  Em 1979, o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro lança o disco Bonfiglio de Oliveira Interpretado por Copinha e Seu Conjunto. Em 2002, o selo Revivendo reúne as gravações de seus principais sucessos, alguns interpretados pelo próprio compositor, no disco Bonfiglio de Oliveira – Compositor e Trompetista de Ouro.

Análise

Ao lado do flautista Pixinguinha e do saxofonista Luís Americano (1900-1960), com quem forma o “trio mágico” da música brasileira, Bonfiglio de Oliveira é considerado um dos maiores instrumentistas de sopro do Brasil das primeiras décadas do século XX. Tamanho reconhecimento rende-lhe, em 1930, uma homenagem do presidente Washington Luís (1896-1957), que lhe oferece um trompete de prata contendo a seguinte inscrição na chapa de ouro: “Ao maior pistonista do Brasil”.

Como compositor, tem importante participação no processo de desenvolvimento idiomático do choro, ajudando a fixar certas inflexões melódicas, rítmicas e harmônicas características do gênero. Sua evolução nesse campo pode ser notada por meio da comparação entre duas composições de épocas distintas: a polca “Guará”, gravada pelo Choro Carioca, em 1913, e o choro “Saudades de Guará”, gravado pela Orquestra Victor Brasileira em 1937. Ambas aludem, em seus títulos, ao carinhoso apelido pelo qual é conhecida a cidade Guaratinguetá. A primeira assemelha-se às antigas polcas europeias, com uma melodia de motivos simples, curtos e repetidos, escritos sobre uma base harmônica elementar. Já a segunda apresenta um desenho melódico sinuoso, floreado com escalas e arpejos, e uma harmonia mais complexa, que passeia por diferentes graus da tonalidade e sofre modulações, revelando as transformações do gênero. O ponto alto de sua produção de choros dá-se com Flamengo, composto em 1931, em homenagem ao bairro carioca em que mora. Trata-se da composição mais conhecida nesse gênero, sendo gravada por importantes chorões, como Jacob do Bandolim (1918-1969) – cuja gravação de 1948 venda atinge 100 mil cópias, fato raro na época –, Altamiro Carrilho (1924-2012), Copinha (1910-1984), Sivuca (1930-2006) e Yamandú Costa (1980).

Embora entre para a posteridade como compositor de choro, Bonfiglio de Oliveira é mais conhecido pelas marchinhas carnavalescas. Antes da popularização das baterias de escolas de samba, surgidas no final dos anos 1920, o carnaval carioca de rua é dominado por blocos e ranchos que desfilam ao som de bandas e pequenos conjuntos musicais compostos por instrumentos de sopro e percussão. Tendo iniciado sua trajetória artística como músico de banda, Bonfiglio de Oliveira encontra nas sociedades carnavalescas um importante espaço de atuação. Participa como instrumentista e diretor de harmonia em muitas delas, nos anos 1910 e 1920. Considerado o responsável pelo êxito do rancho carnavalesco Ameno Resedá, para o qual compõe marchas antológicas como “O Sol”, “Luz da Inspiração”, “Canção Pastoril” e “Consolação”, ele é bastante requisitado como compositor de marchas por diversas sociedades carnavalescas. Para animar os foliões, escreve melodias simples, cantáveis e de ritmo vivo, que recebem letras pomposas recheadas de termos difíceis (como “rosicler”, “lirial”,” “melopeia” e “nenúfares”), como era característico na época. Assina algumas composições com carnavalescos destacados como Oscar de Almeida (1895-1942), com quem escreve a marcha “A Queda da Rosa”, em 1919. Ao longo dos anos 1930, quando as marchas migram dos blocos de rua para o disco, Bonfiglio encontra novos parceiros, como André Filho (1906-1974), Valfrido Silva, Hervé Cordovil (1914-1979) e Lamartine Babo.

Também se destaca no repertório romântico. Em 1918, compõe a valsa “Glória”, considerada uma de suas obras-primas. Em 1931, a canção é imortalizada com letra da poetisa Branca M. Coelho, nas vozes de Gastão Formenti (1894-1974), Orlando Silva (1915-1978) e Vicente Celestino (1894-1968), cujas interpretações destacam o caráter dolente da melodia. Igualmente românticas são a modinha “Teus Olhos Castanhos”, com poema de Lamartine Babo, gravada em 1934 por Augusto Calheiros (1891-1956); a sertaneja “Frô do Ipê”, com letra de Nelson de Abreu, gravada em 1932 por Sílvio Vieira (1899-1970); e a canção “Cartas do Amor”, cantada com sucesso por Aracy Cortes (1904-1985) na revista Morangos com Creme (1932). No teatro musicado, obtém sucesso com o samba “Mulher”, cantado pela mesma atriz na revista Salada de Frutas.

Além de importante divulgador da música brasileira, tendo participado de gravações históricas como “O Teu Cabelo Não Nega” e “De Papo pro Ar”, nas quais os metais têm destaque, Bonfiglio de Oliveira também se torna conhecido como instrumentista de jazz. Desde o início dos anos 1920, com a proliferação das jazz-bands no Brasil, o trompetista é requisitado entre os grupos especializados no gênero estadunidense. Além de liderar conjuntos atuantes em teatros e casas noturnas – como a Jazz Bonfiglio de Oliveira, que trabalha no Perola Club; a Riso Jazz, do Club Riso do Rio de Janeiro; ou a jazz-band de azeviche, da Companhia de Revistas Ba-Ta-Clan Preta –, ele também dirige orquestras de jazz nas rádios Mayrink Veiga, Educadora e Phillips. O título jazz-band, contudo, refere-se antes à formação do que ao repertório desses conjuntos, que incluem em suas apresentações tanto gêneros jazzísticos como marchas e sambas.

Bonfiglio de Oliveira transita entre o jazz e a música erudita, compondo de valsas românticas a marchinhas carnavalescas. Ilustra, como poucos, a versatilidade musical brasileira das primeiras décadas do século XX, da qual Pixinguinha é outro representante. Apesar disso, não tem a memória preservada, sendo pouco conhecido do grande público e dos pesquisadores da música brasileira. Carece, até hoje, de estudos de sua obra e trajetória artística.

Fontes de pesquisa 7

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  • CABRAL, Sérgio. Pixinguinha: Vida e Obra. 4. ed. Rio de Janeiro: Funarte, 2007.
  • CENTRO Petrobrás de Referência da Música Brasileira. Memórias Musicais. Rio de Janeiro: Biscoito Fino, Sarapuí, c. 2002.
  • DIÁRIO Carioca. Bonfiglio de Oliveira, o piston mágico do Brasil. Diário Carioca, Rio de Janeiro, 27 dez. 1932, p. 5.
  • EFEGÊ, Jota. Figuras e coisas do carnaval carioca. 2. ed. Rio de Janeiro: Funarte, 1997.
  • LACAZ, José da Silva. O centenário de nascimento de Bonfiglio de Oliveira. Ângulo – Cadernos do Centro Cultural Teresa D’Ávila, Lorena, n. 58, p. 4-5, mar./ abr. 1994.
  • MARCONDES, Marcos Antônio. (Ed.). Enciclopédia da Música Popular Brasileira: erudita, folclórica e popular. São Paulo: Art Editora,1977. 2 v. p. 567
  • TAUBKIN, Myriam. Um Sopro de Brasil. São Paulo: Myriam Taubkin, 2005. (Projeto Memórias Brasileiras).

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