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Música

Martinho da Vila

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 30.08.2021
12.02.1938 Brasil / Rio de Janeiro / Duas Barras
Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional

Martinho da Vila, 1973

Martinho José Ferreira (Duas Barras, Rio de Janeiro, 1938). Compositor, cantor, ritmista, produtor e escritor. Importante figura do samba carioca, Martinho da Vila representa em suas composições os subúrbios brasileiros, além de celebrar a herança africana na cultura do país e abordar assuntos cotidianos de maneira poética.

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Martinho José Ferreira (Duas Barras, Rio de Janeiro, 1938). Compositor, cantor, ritmista, produtor e escritor. Importante figura do samba carioca, Martinho da Vila representa em suas composições os subúrbios brasileiros, além de celebrar a herança africana na cultura do país e abordar assuntos cotidianos de maneira poética.

Filho de lavradores, nasce em uma fazenda do interior fluminense e muda-se com os pais para a cidade do Rio de Janeiro aos quatro anos. Criado no subúrbio carioca, interessa-se pelo samba e passa a compor para a escola Aprendizes da Boca do Mato, o que faz entre 1958 e 1964. Trabalha como contador e datilógrafo no Exército de 1956 a 1969.

O nome Martinho da Vila decorre da relação que estabelece com a escola de samba Unidos de Vila Isabel em meados dos anos 1960, tornando-se o principal compositor e autor de enredos da agremiação. Inscreve-se nos festivais da TV Record em 1967 e 1968, respectivamente com os sambas "Menina Moça", uma das músicas finalistas, e "Casa de Bamba", gravado em seu primeiro LP, Martinho da Vila (1969), que contém alguns de seus primeiros sambas-enredo. A canção apresenta aspectos do cotidiano dos subúrbios e das favelas cariocas, marcados pela religiosidade afro-brasileira ("Macumba lá minha casa/Tem galinha preta, azeite de dendê...") e pela musicalidade ("Mas se tem alguém cantando/Todo mundo canta, todo mundo dança/Todo mundo samba e ninguém se cansa...").

Interessado pelas músicas de tradição oral, Martinho torna-se notável por gravar, estilizar e popularizar o partido-alto1, produzindo uma versão da modalidade que se baseia na alternância entre um refrão cantado por um coro (geralmente feminino) e estrofes entoadas pelo solista. Isso ocorre em "Quem É do Mar Não Enjoa", canção que também integra o LP Martinho da Vila.

À frente do grupo de compositores da Unidos de Vila Isabel, promove transformações na estrutura do samba-enredo: acelera o andamento e, para facilitar a memorização da letra e da melodia, adota uma linguagem mais próxima da fala cotidiana, reduzindo a extensão do texto, como faz em “Carnaval de Ilusões" (1967, parceria com Gemeu) e "Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade" (1972), cujos refrãos citam cirandas e músicas folclóricas de origem portuguesa.

Diversas canções de Martinho da Vila se inspiram em pontos do candomblé e de outros tipos de música praticada em rituais afro-brasileiros. Isso ocorre, por exemplo, em "Som Africano" (1973), cantada em dialeto quimbundo de Angola, e "Festa de Umbanda" (1974). O vínculo com tradições musicais rurais, presentes em seus sambas-enredo, aparece em canções como "Folia de Reis" (1970), "Linha do Ão" (1970), e "Calango Longo" (1972).

Na década de 1970, Martinho se torna um dos principais nomes do samba, com canções de grande sucesso, como ”Canta, Canta Minha Gente" (1974). Além disso, intensifica o engajamento na luta pela afirmação da identidade negra e pela defesa da igualdade racial. A turnê que realiza em Angola em 1972 é determinante para isso, pois desperta seu interesse pelas ligações históricas entre as culturas africanas e afro-brasileiras. A recorrente crítica política e social na obra do músico está relacionada aos temas da discriminação racial, da afirmação da cultura negra e das más condições de vida nas favelas e periferias das grandes cidades. Em Assim Não Zambi (1979), por exemplo, ele denuncia a situação dos afrodescendentes brasileiros, sujeitos à miséria e à repressão injusta da polícia.

A agenda política de Martinho da Vila não o impede de dedicar-se à composição de canções românticas, como "Disritmia" (1974) e "Você Não Passa de uma Mulher" (1975), cujo lirismo é acentuado por seu estilo vocal suave e intimista. O artista continua compondo sambas de raiz, como "Daquele Amor Nem Me Fale" (1981), uma parceria com João Donato (1934), e transitando pelos ritmos tradicionais rurais, como faz na canção "Roda Ciranda" (1984), acompanhada de viola caipira e acordeão, e "Madalena do Jucu" (1989), adaptada de uma canção folclórica capixaba.

Em 1980, o músico participa da organização de shows de brasileiros em Angola e leva artistas angolanos ao Brasil para realizar o show Canto Livre de Angola (1983), gravado em um LP produzido por ele. Em 1988, compõe Meu Homem, canção gravada por Beth Carvalho (1946-2019) e que tematiza a luta de Nelson Mandela contra o apartheid. O tema retorna no enredo "Kizomba, Festa da Raça" (1988), criado por Martinho para a música composta por Jonas, Rodolpho e Luiz Carlos da Vila (1949-2008). A letra exalta a luta dos negros pela liberdade e leva a escola de samba Unidos de Vila Isabel ao título inédito de campeã do carnaval carioca.

Martinho dá os primeiros passos na literatura com o livro infantojuvenil Vamos falar de política? (1986), seguido pelo autobiográfico Kizombas, Festas e Andanças (1992). Nos anos 2000, grava o disco Lusofonia (2000) e Do Brasil e do Mundo (2007), além de DVDs de shows, como Conexões (2004) e Brasilatinidade (2005), cujos repertórios incluem obras de artistas de países de língua portuguesa e espanhola. De volta à literatura, publica, entre outros títulos, História do samba (2013) e Barras, vilas & amores (2015).

Como músico ou como escritor, Martinho da Vila amplia com tais feitos a difusão da cultura brasileira, abrindo caminho para que se discutam as manifestações artísticas geradas e vivenciadas por pessoas negras, as questões raciais e as injustiças vividas no país.

 

Notas

1. O partido-alto é um estilo de samba que interpõe a um refrão fixo, entoado por um coro, improvisos de diferentes solistas. Embora gravado desde os anos 1930 por artistas como Noel Rosa (1910-1937), fica quase sempre circunscrito às rodas de samba do subúrbio carioca.

Fontes de pesquisa 9

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  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998.
  • KFOURI, Maria Luiza. Discos do Brasil. Disponível em: <http://www.discosdobrasil.com.br/discosdobrasil/indice.htm>. Acesso em: 12 out. 2010.
  • KUBRUSLY, Maurício. Um cruzado em defesa da arte negra do Brasil. In: MARTINHO DA VILA. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1982, p. 7-8. 1 disco de vinil, 33 rpm, estéreo. Fascículo da Coleção História da Música Popular Brasileira. 8p., il. color.
  • MARTINHO DA VILA. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. 1 disco de vinil, 33 rpm, estéreo. Fascículo da Coleção História da Música Popular Brasileira, v. 39.
  • MARTINHO DA VILA. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1982. 1 disco de vinil, 33 rpm, estéreo. Fascículo da Coleção História da Música Popular Brasileira. 8p., il. color.
  • MARTINHO DA VILA. Kizombas, andanças e festanças. 2.ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. 300 p., il. p&b.
  • NEVES, José Roberto Santos. A MPB de conversa em conversa: 40 entrevistas com grandes nomes da música popular brasileira. Vitória: Lei Rubem Braga, 2006. 368 p., il. p&b.
  • SEVERIANO, Jairo. Uma história da música popular brasileira. São Paulo: Editora 34, 2008.
  • SOUZA, Tárik. Veículos das questões da maioria sem voz. In: MARTINHO DA VILA. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1982, p. 1-2. 1 disco de vinil, 33 rpm, estéreo. Fascículo da Coleção História da Música Popular Brasileira,. 8p., il. color.

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