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Literatura

José J. Veiga

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 04.09.2017
02.02.1915 Brasil / Goiás / Corumbá de Goiás
19.09.1999 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
José Jacinto da Veiga (Corumbá, Goiás, 1915 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1999). Romancista, contista, jornalista, tradutor. Passa os primeiros anos da infância na zona rural do interior goiano. Órfão de mãe aos dez anos, é criado por um casal de tios, pequenos fazendeiros locais. Dois anos depois, é acolhido pela família Costa Campos, paren...

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Biografia

José Jacinto da Veiga (Corumbá, Goiás, 1915 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1999). Romancista, contista, jornalista, tradutor. Passa os primeiros anos da infância na zona rural do interior goiano. Órfão de mãe aos dez anos, é criado por um casal de tios, pequenos fazendeiros locais. Dois anos depois, é acolhido pela família Costa Campos, parentes que o incentivam a ir à escola. Muda-se para Goiás, então capital do Estado. Ingressa no liceu local, estuda inglês e francês e conclui a primeira parte de sua formação. 

Disposto a conquistar novos horizontes, transfere-se para o Rio de Janeiro. Escriturário de repartição pública, cursa a Faculdade Nacional de Direito, formando-se em 1943. Inscreve-se num concurso para a rádio BBC de Londres. Em 1945, José J. Veiga desembarca na capital britânica. Trabalha como comentarista e tradutor de programas para o Brasil, enquanto desfruta da intensa vida cultural da Londres do pós-guerra. Retorna ao Brasil em 1950 e colabora com veículos da imprensa carioca, como os jornais O Globo, A Tribuna da Imprensa e a revista Seleções, da qual se torna editor-chefe. 

Escreve seus primeiros textos, de teor regionalista, dos quais se desfaz. Conhece o escritor mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967). Publica seu primeiro livro, o volume de contos Os Cavalinhos de Platiplanto (1959). No começo dos anos 1960, inicia a redação do primeiro romance, A Hora dos Ruminantes, lançado em 1966 pela editora Civilização Brasileira, sob o ambiente de repressão instaurado pelo golpe militar de 1964. Escreve novos contos, reunidos em A Estranha Máquina Extraviada (1967). A experiência do romance e da crítica social expande-se com Sombras de Reis Barbudos (1972). Ainda em 1972, ingressa no Departamento de Documentação da Faculdade Getúlio Vargas (FGV), assumindo, tempos depois, a chefia da editora universitária. Lança a novela Os Pecados da Tribo (1976) e De Jogos e Festas (1980), reunião de duas novelas e um conto. Incursiona pela literatura infantil com O Professor Burrim e As Quatro Calamidades (1980). Lança Torvelinho Dia e Noite (1985) e o infantil Tajá e sua Gente (1986). 

Análise

Celebradas desde cedo pela crítica, as narrativas, personagens e situações criadas por José J. Veiga assentam-se na observação realista de um universo tematizado pela literatura regional brasileira. O autor goiano traz para esse universo circunstâncias insólitas e absurdas, pouco comuns a nossa ficção. Na construção de suas histórias, José J. Veiga combina o regionalismo com um realismo irreverente que, embora parente do fantástico, não se enquadra aos cânones do gênero. Inscrita nesse campo de ambiguidade, a obra expande o imaginário da literatura brasileira em direção a novas representações do real, distanciando-se do exotismo regionalista e do naturalismo reinantes. Incursionando pelo fantástico, seus textos rejeitam a reprodução mecânica dos temas e recursos da narrativa clássica de mistério, frequentemente desmobilizados em suas histórias. Distinguem-se ainda da produção literária vinculada ao chamado realismo mágico latino-americano, contemporâneo a sua obra.

José J. Veiga participa de um “seleto” grupo de prosadores brasileiros que, desde o final dos anos 1940, no esteio da renovação formal modernista, rompe com o “pacto realista” hegemônico. Escritores como os mineiros Aníbal Machado (1894-1964), Rosário Fusco (1910-1977) e Murilo Rubião (1916-1991) lançam-se sobre o fantástico e o surrealismo. Valendo-se do livre jogo da imaginação, da desarticulação estrutural da narrativa e da suspensão da expectativa realista, ampliam os caminhos da literatura brasileira num momento de predomínio do romance social, herdeiro de 1930. Em diálogo com esse processo, a obra de José J. Veiga também participa de outro movimento da prosa moderna no Brasil, ligado à implosão criativa das principais tradições da nossa literatura, como o regionalismo, demolido e transfigurado por João Guimarães Rosa. 

A construção de sua escrita passa por um inusitado arranjo de circunstâncias e universos simbólicos aparentemente inconciliáveis. Nele, o mundo sertanejo de lavradores, carros de boi, gente simples do campo e aldeias longínquas – a “ordem primitiva”, matéria por excelência da ficção regionalista – convive com as manifestações de um “estranho”. Este, embora egresso do fantástico, assume papel peculiar, sem narrativas de espanto ou pavor, cadenciadas pela expectativa do sobrenatural, conforme o figurino tradicional do gênero.

É da combinação entre o familiar e o insólito, nivelados e contíguos, que se fazem as histórias do autor. Beiram o lírico e o emotivo, como nos contos de Os Cavalinhos de Platiplanto, ou assumem as feições da farsa e da tragicomédia, numa carnavalização do medo, como nos romances A Hora dos Ruminantes e Sombra de Reis Barbudos. Assim, corporificado o absurdo, cabe ao narrador, numa prosa localista e liberta do estereótipo, descrever as situações e a reação (ou o imobilismo) de suas personagens diante de um insólito que, próximo ao real, configura-se como arredio e opressor. Boa parte da força da escrita de José J. Veiga também repousa no tratamento alegórico dado à narrativa. Essa estratégia discursiva garante maior desprendimento do real, sem comprometer o potencial crítico e a capacidade de seus textos de reverberar problemas da realidade brasileira.

A singularidade do autor apresenta-se no primeiro livro, Os Cavalinhos de Platiplanto, composto por uma série de contos nos quais mistério e realidade conjugam-se. No texto que dá nome à coletânea, por exemplo, um menino “desliza” do real para o onírico ao ver tolhido seu objeto de desejo, o cavalo prometido pelo avô. Há que se destacar também em Os Cavalinhos de Platiplanto a presença de narradores infantis, cujas percepções lúdicas do mundo fazem contraponto à visão racionalista do adulto. Em outros, como “A Usina Detrás do Morro”, matriz do romance A Hora dos Ruminantes, uma cidadezinha é tomada por estranhos acontecimentos. 

A força política da alegoria surge com nitidez no livro-síntese de sua obra, A Hora dos Ruminantes. Ambientado na pequena Manarairema, nos recônditos do interior, o romance trata do desassossego dos moradores da cidadezinha quando surpreendidos pela chegada de misteriosos visitantes. À medida que especulam sobre eles, sempre temendo represálias, são colocados diante de situações insólitas, como a da invasão promovida por hordas de bois e cães, os quais ocupam a cidade, como numa fábula aterradora. O “mal-estar” da narrativa descreve um pesadelo, com opressão difusa e autoritarismo, que remete às circunstâncias políticas da ditadura brasileira nos anos 1960. 

Nos contos de A Estranha Máquina Extraviada, José J. Veiga insiste no foco narrativo infantil, em novas perspectivas, como no conto “Acidente em Sumaúma”, em que ressoam imagens de violência e tortura. Também em “Domingo de Festa”, história “indianista” protagonizada por um jovem índio que é, aos poucos, destituído de sua condição de sujeito, até a aniquilação e abandono completos. Em Sombra de Reis Barbudos, o autor retoma o ambiente ameaçador e farsesco de A Hora dos Ruminantes para descrever a chegada de uma estranha fábrica a uma cidade do interior. Alegoria política, crítica social e investigação do homem frente a situações insólitas de opressão marcam as páginas do romance.

Obras 1

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Fontes de pesquisa 8

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  • CAMPEDELLI, Samira Y. José J. Veiga. São Paulo: Abril, 1982. (Literatura Comentada).
  • CANDIDO, Antonio. A nova narrativa. In: ______. A Educação pela Noite. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2006. p. 241-260
  • DANTAS, Gregório Foganholi. O insólito na ficção de José J. Veiga. Dissertação (Mestrado em Teoria e História Literária) – Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, 2002.
  • PRADO, Antonio Arnoni. Atrás do mágico relance: uma conversa com José J. Veiga. Campinas: Editora da Unicamp, 1989. (Coleção Viagens da Voz).
  • PRADO, Antonio Arnoni. Prefácio. In: VEIGA, José J. A Hora dos Ruminantes. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
  • SOUZA, Agostinho Potenciano de. Um olhar crítico sobre o nosso tempo: uma leitura da obra de José J. Veiga. Campinas: Editora da Unicamp, 1990.
  • VEIGA, José J. A Hora dos Ruminantes. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
  • VEIGA, José J. Os Cavalinhos de Platiplanto. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

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