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Teatro

Lima Barreto

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 16.08.2021
13.05.1881 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
01.11.1922 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, 1919
Lima Barreto
Brasiliana Itáu/Acervo Banco Itaú

Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1881 - idem,1922). Romancista, contista, cronista e jornalista. Definida pelo próprio autor como "militante", sua obra está quase inteiramente voltada para a investigação das desigualdades sociais e da hipocrisia e falsidade dos homens. Com frequência adotando a ironia, o humor e ...

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Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1881 - idem,1922). Romancista, contista, cronista e jornalista. Definida pelo próprio autor como "militante", sua obra está quase inteiramente voltada para a investigação das desigualdades sociais e da hipocrisia e falsidade dos homens. Com frequência adotando a ironia, o humor e o sarcasmo, ora alcança altos níveis de criatividade e realização estética, ora abdica de maiores preocupações artísticas para se assumir como panfleto ou meio de documentação social, política e histórica. 

Filho de pai tipógrafo (João Henriques de Lima Barreto) e mãe professora (Amália Augusto Barreto), o escritor é apadrinhado pelo visconde de Ouro Preto (1836- 1912), influente ministro do Império, que lhe garante uma educação escolar de qualidade. Torna-se órfão de mãe ainda na infância. 

Ingressa na Escola Politécnica em 1897, mas, reprovado continuamente em diversas matérias e obrigado a sustentar os irmãos, por causa dos problemas psiquiátricos do pai, abandona os estudos. Em 1903, torna-se funcionário público ao ingressar no setor burocrático da Secretaria de Guerra, passando também a colaborar intensamente com a imprensa do Rio de Janeiro, publicando artigos e crônicas em periódicos como Correio da Manhã, Jornal do Commercio e A Gazeta da Tarde. Com amigos literatos, funda e dirige a revista Floreal, que tem apenas dois números. 

Estreia como romancista no ano de 1909, com a publicação de Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Em 1911, em formato de folhetim, nas páginas do Jornal do Commercio, publica Triste Fim de Policarpo Quaresma, que se torna sua obra mais célebre, editada em livro apenas quatro anos depois. O romance narra a história de Policarpo Quaresma, homem de inteligência mediana, mas de nacionalismo e boa-fé inabaláveis. Agindo de modo a valorizar e popularizar ideais do que ele julga ser a verdadeira cultura brasileira, Quaresma obtém da sociedade uma resposta sempre dura, sendo classificado como louco (ora inofensivo, ora perigoso). 

Como observa o romancista e crítico Osman Lins (1924-1978), esse "é um romance sobre o desajuste entre o imaginário e o real, entre a idealização e a verdade, entre a ideia que o personagem-título faz do seu país e o que o seu país é realmente"1. A obra também procura ridicularizar o apego da sociedade aos títulos, sobretudo o de bacharel, bem como as instituições políticas da época, sua burocracia e sua inoperância.

Já em O Homem que Sabia Javanês (1911) é apresentado o caso de uma pessoa que, afirmando dominar o idioma javanês sem na realidade conhecê-lo, consegue enganar boa parte da sociedade carioca da época e até mesmo ascender na carreira política, acadêmica e diplomática com base nessa mentira. A certa altura, o personagem declara: "Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios", trecho que representa uma crítica contundente à predominância das aparências nos meios sociais e políticos do período retratado.

Esses mesmos temas, quase sempre de ordem social, apresentam abordagens distintas em outras obras. No conto “Nova Califórnia” (1910), por exemplo, a escrita de Lima Barreto ganha certos contornos macabros ao narrar a história dos habitantes de uma pequena cidade que, ao descobrirem que se poderia fabricar ouro a partir de ossos humanos, esquecem todos os seus supostos valores éticos e morais em razão da possibilidade de riqueza e ascensão social.

Antonio Candido (1918-2017) ressalta, em sua leitura de Lima Barreto, o valor da "inteligência voltada com lucidez para o desmascaramento da sociedade e a análise das próprias emoções"2, mas também afirma que o escritor não atinge toda a sua potencialidade como narrador, sendo algumas vezes malsucedido na transposição de uma ideia numa realização literária criativa.

Contemporâneo dos maiores representantes do parnasianismo no Brasil, como Olavo Bilac (1865-1918) e Alberto de Oliveira (1857-1937), Lima Barreto declara diversas vezes não aprovar nenhum tipo de preciosismo na escrita literária. Critica seu contemporâneo Coelho Neto (1864-1934) afirmando que "não posso compreender que a literatura consista no culto ao dicionário" e declarando que a beleza literária "não é um caráter extrínseco da obra, mas intrínseco, perante o qual aquele pouco vale. É a substância da obra, não são suas aparências". Declarações que indicam como eram indissociáveis a estética buscada e a ética preconizada pelo autor, que procura despir tanto a literatura quanto a sociedade de suas falsas aparências. Dessa postura, cria-se uma literatura marcada pelo coloquialismo, por um vocabulário pouco rebuscado e pela expressão direta, no esforço de adequar o modo de expressão àquilo que se deseja demonstrar.

Essa crueza estilística, no caso de um romance de teor autobiográfico como o livro de estreia, serve à representação dos percalços e dos preconceitos de ordem social e racial enfrentados por seu personagem em busca de ascensão na profissão de jornalista. O mesmo acontece em O Cemitério dos Vivos. Dura descrição da loucura e da internação em um hospício, esse romance, escrito entre 1919 e 1920, é deixado inacabado pelo autor, que na época enfrenta crises relacionadas ao alcoolismo e à depressão. 

Lima Barreto constrói uma obra singular ao apostar na literatura como um dos meios para uma possível intervenção na sociedade: o fundo político de seus preceitos estéticos se destaca na literatura brasileira, então afeita aos ideais de beleza do parnasianismo.

Notas

1. LINS, Osman. Lima Barreto e o espaço romanesco. São Paulo: Ática, 1976.

2. CANDIDO, Antonio. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1989.

Obras 3

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Espetáculos 6

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Exposições 1

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Mostras audiovisuais 1

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Fontes de pesquisa 3

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  • CANDIDO, Antonio. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1989.
  • LINS, Osman. Lima Barreto e o Espaço Romanesco. São Paulo: Ática, 1976.
  • Programa do Espetáculo - Policarpo Quaresma - 2010. Não catalogado

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