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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Freusa Zechmeister

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 14.11.2019
1941 Brasil / Minas Gerais / Patos de Minas
Freusa Zechmeister (Patos de Minas, Minas Gerais, 1941). Figurinista, arquiteta e designer. Reconhecida no meio artístico por seu trabalho como figurinista do Grupo Corpo, constrói figurinos valendo-se de sua percepção particular de espaço, movimento e cores, fruto de sua formação como arquiteta e de seu interesse pelas artes.

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Freusa Zechmeister (Patos de Minas, Minas Gerais, 1941). Figurinista, arquiteta e designer. Reconhecida no meio artístico por seu trabalho como figurinista do Grupo Corpo, constrói figurinos valendo-se de sua percepção particular de espaço, movimento e cores, fruto de sua formação como arquiteta e de seu interesse pelas artes.

Após formar-se pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1964, Freusa passa a trabalhar com arquitetura, design e paisagismo. Em uma viagem pela Europa, conhece o gestor e produtor cultural Emílio Kalil, então codiretor do Grupo Corpo, de quem se aproxima. É por seu incentivo que Freusa aceita criar figurinos para a companhia, a partir de 1981.

Diferentemente da criação de coreografias, Freusa não parte da música. Seu processo não é sonoro. É na movimentação proposta para a obra que ela encontra as origens de seu trabalho, imaginando e criando histórias, que nem sempre se relacionam com aquilo que o coreógrafo, Rodrigo Pederneiras (1955), o diretor, Paulo Pederneiras (1951), e os demais artistas envolvidos pensam para a produção.

A partir dessas imagens, desenvolve seu trabalho arquitetônico de figurinista: observa a movimentação dos bailarinos, os elementos que podem ser isolados ou ampliados no corpo e seus desenhos no espaço. Na sua criação, leva em conta referências pessoais, numa estratégia muito semelhante ao que faz em arquitetura.

Freusa tem papel importante na consolidação da persona cênica do Grupo Corpo. No espetáculo 21 (1992), que inaugura um estilo brasileiro de conceber a dança, o figurino proposto por ela ajuda a revelar a linguagem própria da companhia, que se estabelece nessa obra. Para a abertura, Freusa propõe uma malha colante amarela, que veste todos os bailarinos do pescoço às canelas, e dos ombros ao pulso. O figurino dá visibilidade às múltiplas contrações e distensões dos membros e do torso, destacando suas ondulações e os movimentos do quadril.

Em outras partes do espetáculo, preservando o tecido colante, Freusa investe na multiplicidade de cores entre os bailarinos: em alguns, o preto do tronco contrasta com uma cor forte nos membros inferiores; outros vestem listras em todo o corpo, ou tecidos com imagens de flores. A intensificação do colorido acompanha as transformações na cadência e no andamento da coreografia: o monocromático prevalece nas sequências com movimentos mais homogêneos, geométricos e, por vezes, repetitivos, e o colorido se destaca quando, em remissões mais evidentes às danças populares brasileiras, os bailarinos realizam movimentos variáveis, com andamento mais acelerado e aproveitamento maior dos níveis espaciais.

O pensamento imagético baseado em repertório acumulado se mostra em obras como Sete ou Oito peças para um balé (1994), para a qual Freusa imagina uma cena de soldados se enfrentando. No espetáculo, isso se reflete no uso de capacetes – na verdade, modificações da parte interna de capacetes de obras. A imagem de soldados faz referência à popularização dos jogos eletrônicos daquela época. Freusa cria essas imagens e histórias para si, mas elas não fazem necessariamente parte dos processos criativos do todo das obras.

Desde 1981, Freusa assina todos os figurinos do Grupo Corpo, salvo Santagustin (2002) – este é feito por Ronaldo Fraga, em um breve período de distanciamento de Freusa da companhia, que se encerra já na criação seguinte, Lecuona (2004).  Neste espetáculo, criado com músicas do compositor cubano Ernesto Lecuona (1895-1963), sequências de coreografias de casais remetem aos temas e relações, um tanto exagerados, retratados pelas letras. O figurino espelha isso em vestidos de baile esvoaçantes, que contribuem para o aspecto cumulativo da obra, culminando em sua cena final: um baile-apoteose, com todos os casais vestidos de branco e um cenário de espelhos refletindo a luz e a coreografia.

Se nas produções de Freusa nem sempre há um diálogo imediato ou direto com os outros elementos das obras, em trabalhos como Gira (2017), pode-se observar mais integração entre as criações. Para buscar inspiração em Exu e obter referências, a equipe criativa do Corpo vive experiências em terreiros. O figurino resultante é testemunha dos processos da companhia, deixando o individual de lado para abrir espaço para o coletivo, como pontuou a crítica sobre a obra.

Em Gira, os bailarinos têm o torso nu e vestem saias brancas. A saia, um pouco abaixo do joelho, em camadas, amarrada à cintura e feita de um tecido que parece cru e rugoso, é fundamental para o espetáculo, e reconhecida por sua integração com a coreografia. A movimentação toma mais o espaço do chão, e o corte da saia refaz no tecido a estrutura do movimento dos corpos, em linhas arredondadas e fluidas, aumentando a ação e dinâmica próximas ao chão do palco.

Ao ver histórias nas obras para organizar seus figurinos, Freusa Zechmeister vai em direção contrária ao que faz o coreógrafo do Corpo, que parte da abstração e da música. É a força própria da figurinista que marca sua reconhecida assinatura em meio a esses trabalhos. Essa força vem calcada em sua experiência como arquiteta, que vê o figurino como uma forma de arquitetura do corpo, e o corpo como arquitetura da cena.

Espetáculos de dança 16

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Mídias (1)

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Freusa Zechmeister - Série Encontra - Arte 1 (2019)
A figurinista, arquiteta e paisagista Freusa Zechmeister recebe Gisele Kato em seu escritório. De forma bem humorada, conta sobre a dificuldade em conceber seu próprio guarda-roupa para além do preto e branco, ao contrário do que realiza em seus trabalhos, sempre com muitas cores.

Também comenta sobre o projeto para o hotel em Inhotim e os longos anos de trabalho com o Grupo Corpo, enquanto visita o acervo de figurinos.

O olhar minucioso para seus projetos permanece ao longo dos anos, assim como a memória visual apurada que a permite resgatar trabalhos entregues há muito tempo.

A Enciclopédia Itaú Cultural apresenta a série Encontra, produzida pelo canal Arte 1. Em um bate-papo com Gisele Kato, o público é convidado a entrar nas casas e ateliês dos artistas, conhecendo um pouco mais sobre os bastidores de sua produção.

Créditos
Presidente: Milú Villela
Diretor-superintendente: Eduardo Saron
Superintendente administrativo: Sérgio Miyazaki
Núcleo de Enciclopédia
Gerente: Tânia Rodrigues
Coordenação: Glaucy Tudda
Núcleo de Audiovisual e Literatura
Gerente: Claudiney Ferreira
Coordenação: Kety Nassar
Arte 1
Direção: Gisele Kato/ Ricardo Sêco
Produção: Yuri Teixeira
Edição: Tauana Carlier

Fontes de pesquisa 12

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  • ALMEIDA, Tereza Virginia de Almeida. Corpos em tensão: feminino, masculino e barroco no espetáculo Bach. Estudos Feministas, Florianópolis, 11(1), 336, jan-jun/2003.
  • ARAÚJO, Siane Paula de. Análise coreográfica: o espetáculo “Nazareth” do Grupo Corpo. Curitiba: Appris, 2015.
  • BOGÉA, Inês. Contraponto brasileiro no tempo da dança. Revista Sala Preta, 4, 67-75, 2004.
  • BOGÉA, Inês. Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo. São Paulo: Cosac & Naify Edições, 2001.
  • Grupo Corpo. Site oficial da Companhia. Belo Horizonte. Disponível em: http://www.grupocorpo.com.br/. Acesso em: 22 jul. 2019.
  • KATZ, Helena. 'Gira', do Grupo Corpo, une 3 pontos que precisam ser ligados: o chão, o céu, o caos. O Estado de S.Paulo, 4 de ago. 2017. Disponível em: https://cultura.estadao.com.br/noticias/teatro-e-danca,gira-do-grupo-corpo-une-3-pontos-que-precisam-ser-ligados-o-chao-o-ceu-o-caos,70001923348. Acesso em: 22 jul. 2019.
  • REIS, Sérgio Rodrigo. Rodrigo Pederneiras e o Grupo Corpo: dança universal. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008.
  • ROCHELLE, Henrique. Lecuona | Grupo Corpo. Da Quarta Parede. São Paulo, 2016. Disponível em: https://daquartaparede.wordpress.com/2016/08/21/lecuona-grupo-corpo/. Acesso em: 22 jul. 2019.
  • ROCHELLE, Henrique. QUEIRÓS, Amanda. (Orgs.) ‘Gira’ e ‘Bach’. Dossiê de Críticas. Criticatividade: Plataforma de Crítica de Dança. São Paulo, 2017. Disponível em: https://www.criticatividade.com/setembro-2017-gira-e-bach. Acesso em: 22 jul. 2019.
  • SARAIVA, Ernani Viana, et al. Um “Pas de Deux” da Estratégia com a Arte: as Práticas do Grupo Corpo de Balé. RAC - Revista de Administração Contemporânea. Curitiba, v. 15, n. 6, art. 3, pp. 1016-1039, 2011.
  • SILVA, Thays Anyelle Macêdo. O Corpo do Grupo Corpo: Os movimentos das obras Benguelê, Lecuona e Onqotô. Dissertação. Mestrado em Educação Física. Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2013.
  • ZECHMEISTER, Freusa. Freusa Zechmeister. São Paulo: [s.n.], 2019. Entrevista concedida a Henrique Rochelle, crítico de dança.

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