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Artes visuais

Hercule Florence

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 19.07.2021
29.02.1804 França / Provença-Alpes-Cote d'Azur / Nice
27.03.1879 Brasil / São Paulo / Campinas

Manuscrito Livre - D´Annotations et de Premiers Materiaux, 1834
Hercule Florence

Antoine Hercule Romuald Florence (Nice, França 1804 - Campinas, São Paulo, 1879). Desenhista, pintor, fotógrafo, tipógrafo, litógrafo, professor, inventor. Chega ao Brasil em 1824. Trabalha no comércio e numa empresa tipográfica, antes de ingressar na Expedição Langsdorff como desenhista, entre 1825 e 1829, ocasião na qual concebe um método para...

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Antoine Hercule Romuald Florence (Nice, França 1804 - Campinas, São Paulo, 1879). Desenhista, pintor, fotógrafo, tipógrafo, litógrafo, professor, inventor. Chega ao Brasil em 1824. Trabalha no comércio e numa empresa tipográfica, antes de ingressar na Expedição Langsdorff como desenhista, entre 1825 e 1829, ocasião na qual concebe um método para a transcrição do canto dos pássaros denominado zoophonia. Reside na Vila de São Carlos (atual Campinas), onde inventa um processo fotográfico em 1833, batizado de photographie [fotografia]. É responsável por diversas outras invenções, entre elas a polygraphie [poligrafia], um sistema de impressão simultânea de todas as cores primárias. Em 1842, lança O Paulista - o primeiro jornal do interior da província de São Paulo - e, em 1858, imprime em sua litografia o Aurora Campineira, o primeiro jornal de Campinas. Seu talento múltiplo atrai a atenção do imperador Dom Pedro II (1825-1891), que o visita em Campinas, em 1876. É autor de vários livros, entre os quais se destaca Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, publicado em 1875.

Análise

Pouco se sabe da vida de Hercule Florence antes de sua chegada ao Rio de Janeiro, em 1824, como tripulante de um navio francês. Filho de médico militar e uma nobre francesa, desde cedo demonstra interesse por desenho, ciências e pelas famosas expedições de viajantes europeus ao Novo Mundo.  Não há certeza de que tenha aprendido a desenhar de forma autodidata. No Rio de Janeiro emprega-se na loja de modas do francês senhor Dillon e depois na livraria do senhor Plancher. Como resultado de resposta a um anúncio, em setembro de 1825 parte com a Expedição Langsdorff (1821-1829) - viagem científica idealizada pelo cônsul russo Barão Langsdorff (1773-1852) - na condição de segundo desenhista. O grupo vai para Santos de navio e segue para a Amazônia pelo interior do país. De 1826 a 1829 percorre os atuais Estados de São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Amazonas e Pará. Florence realiza uma série de desenhos e aquarelas, nos quais retrata a fauna, a flora, a paisagem e a população dos locais visitados, que, com os trabalhos do artista alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858) e do desenhista francês Adrien Taunay (1803-1828), constituem a única documentação visual dessa aventura que custou a sanidade do próprio cônsul.

Nos trabalhos realizados por Florence, conservados na Academia de Ciências de Moscou, revela-se seu olhar objetivo e minucioso na tarefa de representação da natureza. A historiadora Ana Maria Beluzzo acredita que, em busca de um traçado linear homogêneo e impessoal, o artista teria utilizado a camera lucida na produção de seus desenhos. Meticuloso, o artista assinala as condições de observação de cada registro feito: data e local da coleta, dimensões do exemplar documentado, as proporções entre o tamanho do referente e da referência, se são imagens elaboradas com plantas secas ou animais empalhados etc. Sua visão analítica apreende o objeto em seu todo e nos detalhes. As plantas e animais são mostrados de diversos pontos de vista, por dentro e por fora, com ênfase nas características de cada gênero. No caso dos retratos etnográficos, apresenta as figuras de frente e perfil, esforçando-se em reproduzir suas particularidades (por exemplo, cor da pele, pinturas corporais, adereços e vestimentas). Nota-se que Hercule Florence procura individualizar as fisionomias e afirmar a diversidade étnica, sem recorrer a padronizações. Nas paisagens, além da topografia de cada região, interessa-se em registrar a luminosidade do céu e das nuvens.  

De volta ao Rio de Janeiro em 1829, deixa suas anotações diárias sobre a expedição com Félix Taunay (1795-1881), irmão de Adrien, que morre afogado em 1828 no Rio Guaporé. O manuscrito intitulado Esboço da Viagem Feita pelo Snr. Langsdorff ao Interior do Brasil desde Setembro de 1825 até Março de 1829 é traduzido e publicado por Alfredo D´Escragnolle Taunay, com o consentimento do autor, mais de 40 anos depois, entre 1875 e 1876.

Só em 1849 Hercule Florence retoma suas anotações e começa a escrever o diário completo sobre a viagem científica. Esse diário, atualmente em posse de seus descendentes, é publicado em 1977 sob o título Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas pelas Províncias Brasileiras de São Paulo, Mato Grosso e Grão-Pará (1825-1829).

Com o fim de seu trabalho como segundo desenhista, o artista radica-se a partir de 1830 na Vila de São Carlos, atual Campinas, em São Paulo, onde constitui família e torna-se fazendeiro, mas sem deixar a arte e as questões científicas de lado. Continua registrando a paisagem e as transformações pelas quais passa a região no decorrer do século XIX. Documenta o incremento da lavoura de cana-de-açúcar e café, o trabalho escravo nos engenhos, as queimadas e derrubada das matas para plantio e, em menor número, a capital paulista. É de Florence um dos poucos desenhos do interior da antiga Igreja da Sé (s.d) de São Paulo. Por essa produção é reconhecido como um dos pioneiros da iconografia paulista.

Hercule Florence é precursor também em outro campo: o dos processos químicos de reprodução de imagens. Em busca da simplificação dos procedimentos comuns na época (restritos aos diferentes tipos de gravura como, por exemplo, a litografia e a xilogravura), inventa, em 1830, o que chama de polygraphie [poligrafia], método de impressão em cores semelhante ao atual mimeógrafo. A partir de 1832, começa a investigar as possibilidades de fixação da imagem utilizando a câmera escura por meio de um elemento que mude de cor pela ação da luz. Com a ajuda do boticário Joaquim Correa de Mello, realiza experiências fotoquímicas que dão origem a imagens batizadas de photographie [fotografia] em 1833. Ou seja, quase na mesma época que Joseph Nicéphore Niépce (1765 - 1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1781 - 1851), na França, e William Henry Fox Talbot (1800 - 1877), na Inglaterra, e sob condições científicas muito diversas, Florence produz cópias fotográficas de desenhos em Campinas.1 Entre os exemplares realizados, restam hoje as impressões fotográficas do "Diploma da Maçonaria" (ca.1833) e de rótulos de farmácia (s.d). Como reconhecimento a seu trabalho iconográfico é declarado Membro Correspondente do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil em 1877. Falece em Campinas dois anos depois.

Nota

1. Em geral, a data oficial do nascimento da fotografia recai sobre o ano de 1839. Nesse momento, a daguerreotipia - antigo processo de obtenção de imagens fotográficas inventado pelo físico e pintor francês Louis Jacques Mande Daguerre - é declarada de domínio público pelo governo francês. Ao tomar conhecimento desse fato, Hercules Florence declara: "A fotografia é a maravilha do século. Eu também já havia estabelecido os fundamentos, previsto esta arte em sua plenitude. Realizei-a antes do processo de Daguerre, mas trabalhei no exílio. Imprimi por meio do sol sete anos antes de se falar em fotografia. Já tinha lhe dado esse nome, entretanto, a Daguerre todas as honras".  Apud: MONTEIRO, Salvador (org.), KAZ, Leonel (org.). Expedição Langsdorff ao Brasil, 1821-1829: Rugendas, Taunay, Florence. Rio de Janeiro: Alumbramento : Livroarte, 1998. p. 360. 

Obras 9

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Exposições 23

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Feiras de arte 1

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Fontes de pesquisa 17

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  • ARTE no Brasil. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
  • BELLUZZO, Ana Maria de Moraes. O Brasil dos viajantes: um lugar no universo. São Paulo: Metalivros, 1994. v. 2.
  • BOURROUL, Estevam Leão. Hercules Florence (1804-1879): ensaio historico-litterario. São Paulo: Typ. Andrade, Mello, 1900. xvi, 583, vi [2] p.
  • BRAGA, Theodoro. Artistas pintores no Brasil. São Paulo: São Paulo Editora, 1942.
  • DICIONÁRIO brasileiro de artistas plásticos. Organização Carlos Cavalcanti e Walmir Ayala. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1973-1980. 4v. (Dicionários especializados, 5).
  • EXPEDIÇÃO Langsdorff ao Brasil 1821-1829: aquarelas e desenhos de Florence. Tradução Marcos Pinto Braga, Brian Hazlehurst, Peter Young. Rio de Janeiro: Alumbramento : Livroarte, 1988. v. 3.
  • EXPEDIÇÃO Langsdorff ao Brasil 1821-1829: aquarelas e desenhos de Rugendas. Tradução Marcos Pinto Braga, Brian Hazlehurst, Peter Young. Rio de Janeiro: Alumbramento : Livroarte, 1988. v. 1.
  • EXPEDIÇÃO Langsdorff ao Brasil 1821-1829: aquarelas e desenhos de Taunay. Tradução Marcos Pinto Braga, Brian Hazlehurst, Peter Young. Rio de Janeiro: Alumbramento: Livroarte, 1988. v. 2.
  • FLORENCE, Hercule. Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas: 1825 a 1829. Tradução Visconde de Taunay. São Paulo: Cultrix, 1977.
  • GULLAR, Ferreira (et. al). 150 anos de pintura no Brasil: 1820-1970. Rio de Janeiro: Colorama, 1989.
  • KOSSOY, Boris. Hercules Florence: 1833, a descoberta isolada da fotografia no Brasil. 2.ed. rev. aum. São Paulo: Duas Cidades, 1980.
  • LAGO, Pedro Corrêa do. Iconografia paulistana do século XIX. São Paulo: Metalivros, 1998.
  • LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário crítico da pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988.
  • MONTEIRO, Salvador e KAZ, Leonel (orgs.). Expedição Langsdorff ao Brasil, 1821-1829: Rugendas, Taunay, Florence. Tradução Christopher James Tribe, Dorothy Sue Dunn de Araújo. Rio de Janeiro: Alumbramento : Livroarte, 1998. 3v.
  • MORALES DE LOS RIOS FILHO, Adolfo. Grandjean de Montigny e a evolução da arte brasileira. Rio de Janeiro: Noite, 1941.
  • OLIVEIRA, Erivam Morais de. Hércules Florence: pioneiro da fotografia no Brasil. 2003. 98 f. + vídeo. Dissertação (Mestrado) - Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo - ECA/USP, São Paulo, 2003.
  • TRADIÇÃO e ruptura: síntese de arte e cultura brasileiras. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1984.

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