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Lygia Fagundes Telles

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 09.02.2021
19.04.1923 Brasil / São Paulo / São Paulo
Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional

Lygia Fagundes Telles, s.d.

Lygia Fagundes Telles (São Paulo, São Paulo, 1923). Romancista e contista. Entre a perscrutação subjetiva, o trabalho com a memória e a perspectiva imaginativa, a prosa de Lygia Fagundes Telles dedica-se a explorar a complexidade da experiência humana. 

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Lygia Fagundes Telles (São Paulo, São Paulo, 1923). Romancista e contista. Entre a perscrutação subjetiva, o trabalho com a memória e a perspectiva imaginativa, a prosa de Lygia Fagundes Telles dedica-se a explorar a complexidade da experiência humana. 

Passa a infância no interior do estado de São Paulo, em razão do trabalho do pai. Aos 8 anos, transfere-se com a mãe para a capital, e em seguida passa cinco anos no Rio de Janeiro. De volta a São Paulo, matricula-se na Escola Caetano de Campos, onde conclui os estudos em 1937. Financiada pelo pai, publica a coletânea de contos Porões e Sobrados (1938). 

Ingressa na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e emprega-se na Secretaria de Agricultura. Seu segundo livro, Praia Viva, é lançado em 1944, um ano antes de seu bacharelado. Lygia exerce a profissão durante algum tempo, mas a abandona pelas letras, tornando-se colaboradora do jornal A Manhã, para o qual escreve crônica semanal. 

Ciranda de Pedra (1954), seu primeiro romance, é o livro com o qual a escritora atinge a maturidade literária, segundo o crítico literário Antonio Candido (1918-2017). A narrativa centra-se em dois momentos da trajetória da personagem Virgínia: a infância solitária, dividida entre pais separados, e a volta da jovem à casa do pai. Preconceito contra filhos de casais divorciados, saúde mental, suicídio, homossexualidade e falsa paternidade são algumas das dificuldades que a protagonista enfrenta em seu crescimento.

Escreve com o ensaísta Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977), o roteiro cinematográfico de Capitu (1967), inspirado no romance Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis (1839-1908)

A introspecção psicológica e o aspecto imaginativo se destacam como temas de Lygia Fagundes Telles, o que se verifica nos contos de Antes do Baile Verde (1970). “Venha Ver o Pôr do Sol”, por exemplo, trata de um personagem sombrio, cuja humanidade ambígua provoca a reflexão sobre a natureza do sentimento amoroso. O amor, aliás, por vezes conduz à frustração ou ao retrato da hipocrisia. Para as protagonistas femininas e oprimidas pelas dificuldades da realização de desejos, há o encontro com a impossibilidade de idealização. No que concerne aos homens, o conto “Eu Era Mudo e Só” (1970) é exemplar: integrando o que considera uma realidade de "cartão-postal", o protagonista abre mão de suas aspirações por uma família de aparências perfeitas.

Na ficção de Lygia, os recursos tradicionais da narrativa são manipulados de acordo com a inclinação para investigar os efeitos das relações entre os sujeitos e dos sujeitos com o mundo sobre o que há de mais íntimo no ser humano. Em As Meninas (1973), romance ambientado na ditadura militar, a investigação se dá com base nos impactos subjetivos exercidos pela sociedade. O foco narrativo é alternado entre as três meninas que assumem a primeira pessoa. Com mudanças deliberadas e não assinaladas de perspectiva, articulam-se o discurso indireto livre, o monólogo interior e o discurso direto. Os recursos terminam por oferecer diferentes pontos de vista a respeito de uma mesma situação, em trechos que eventualmente recuperam um único episódio.

O intervalo de tempo das narrativas costuma ser breve, sobretudo por causa da retratação de conflitos internos. Nos contos, pode-se tratar de um rápido encontro entre personagens ou de instantes de reflexão.

No romance As Meninas, o recorte objetivo é também diminuto: o período de uma greve estudantil, em que as protagonistas dedicam-se às próprias questões e aos momentos que passam juntas no pensionato onde moram. É o tempo subjetivo, portanto, que sustenta a narrativa: lembranças recentes ou longínquas trazem à tona acontecimentos passados com forte peso para a configuração presente. No que diz respeito ao espaço, embora a cidade de São Paulo seja o ambiente prevalente, todos os dados objetivos são convocados como correlatos do estado de fragilidade emocional dos personagens. 

Lygia integra, em 1976, o grupo de intelectuais que vai a Brasília entregar o Manifesto dos Mil, contra a censura. O posicionamento político se insinua na ficção da autora em Seminário dos Ratos (1977), uma alegoria em que homens e ratos se invertem. Escrito sob o signo da ditadura, o conto reconfigura a realidade, elaborando uma referência cifrada à condição então vivida pelo Brasil. Da mesma coletânea, o conto “Noturno Amarelo” é um longo e improvável passeio pelo âmbito do sonho, concentrado nos devaneios da protagonista.

Publica A Disciplina do Amor (1980), obra que consiste em fragmentos de memórias enlaçados a incursões pelo fantástico, que dão novo significado ao real. É eleita para a Academia Brasileira de Letras em 1985. Na mesma década, publica o romance As Horas Nuas (1989). 

Nos anos 1990, duas coletâneas de contos são lançadas, A Estrutura da Bolha de Sabão (1991) e A Noite Escura e Mais Eu (1995). Narrativas ligadas à memória ou que abordam as descobertas ao longo do amadurecimento predominam nos anos 2000, em livros como Invenção e Memória (2000) e Durante Aquele Estranho Chá (2002). Em 2005, recebe o Prêmio Camões e, em 2011, publica Passaporte para a China, relato de viagem sobre a participação da escritora no evento comemorativo do 11º aniversário do socialismo chinês, em 1960.

Explorando a subjetividade e as fronteiras do real, a prosa de Lygia Fagundes Telles passa tanto por tramas de teor intimista ou familiar quanto por narrativas que distorcem a realidade a fim de compreendê-la.

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