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Padeirinho da Mangueira

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
1927 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
1987 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Oswaldo Vitalino de Oliveira (Rio de Janeiro RJ 1927 - idem 1987). Cantor, compositor e ritmista. Recebe o apelido de Padeirinho devido à profissão de seu pai, o padeiro José Vitalino de Oliveira. Abandonado pela mãe, passa a infância dormindo nas padarias em que seu pai trabalha, quando, aos 12 anos, vai com ele morar no Morro da Mangueira. Não...

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Biografia

Oswaldo Vitalino de Oliveira (Rio de Janeiro RJ 1927 - idem 1987). Cantor, compositor e ritmista. Recebe o apelido de Padeirinho devido à profissão de seu pai, o padeiro José Vitalino de Oliveira. Abandonado pela mãe, passa a infância dormindo nas padarias em que seu pai trabalha, quando, aos 12 anos, vai com ele morar no Morro da Mangueira. Não frequenta a escola, e se alfabetiza sozinho.

Exerce os mais diversos ofícios durante a vida, além do de compositor. Trabalha como entregador, gari e estivador, até conseguir um emprego público no Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro. Depois de um convite de seu futuro cunhado e compositor, Geraldo da Pedra, entra para a ala de compositores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, aos 20 anos de idade.

Suas primeiras músicas são gravadas por Jamelão, como Mora no Assunto (1952), parceria com Joaquim dos Santos, Linguagem do Morro (1961) e Fofoca no Morro (1962). O cantor paulistano Germano Mathias grava A Situação do Escurinho (1957), parceria com Aldacír Louro, Não Diz que É Doutor (1966) e Terreiro de Itacuruçá (1968). Jamelão e Germano Mathias são os dois intérpretes que gravam o maior número de composições de Padeirinho.

Em 1956, seu samba-enredo é escolhido para o desfile da Mangueira em homenagem ao presidente Getúlio Vargas: intitulado inicialmente Exaltação a Getúlio Vargas, o samba rende o terceiro lugar para a escola, sendo posteriormente gravado por Jamelão como O Grande Presidente, em 1960, para a época um registro raro de samba-enredo. Nessa década, Padeirinho participa de rodas de samba no Teatro Opinião, com Dalmo Castello, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola e Baianinho. É convidado para atuar no mesmo teatro no show O Samba Pede Passagem, ao lado dos compositores mangueirenses Jorge Zagaia e Bide. Participa de programas de rádio e televisão, além de compor sambas para blocos de Carnaval, como o Clube do Samba, de João Nogueira.

Padeirinho realiza aproximadamente 300 composições e tem cerca de 70 delas gravadas por artistas da MPB, tais como Nara Leão, Elza Soares, Paulinho da Viola, Leci Brandão, Beth Carvalho e João Nogueira, que cantam, respectivamente, Favela (1966), Rio, Carnaval dos Carnavais (1972), Cavaquinho Emprestado (1975), A Mais Querida (1975), Salve a Mangueira (1981), parceria com Quincas, e Como Será o Ano 2000? (1983).

Um dos seus últimos trabalhos é a participação no disco de Cartola intitulado Cartola entre Amigos, em 1984, interpretando Festa na Penha.

 

Comentário Crítico

Para Padeirinho da Mangueira a convivência com a escola de samba e seus artistas é fundamental em sua formação. Nesse ambiente, torna-se amigo de Xangô da Mangueira, Nelson Sargento e Delegado. Aos 17 anos é ritmista e toca suas primeiras composições em bares e vendas no próprio morro, onde conhece Cartola, Nelson Cavaquinho e, sobretudo, Geraldo Pereira, compositores que são referências para o jovem Padeirinho.

Assim como Geraldo Pereira, Padeirinho é um dos expoentes do chamado "samba sincopado". Logicamente, é redundante falar em "samba sincopado", pois é a síncopa que o identifica. O samba é composto em compasso binário e ritmo sincopado - ou seja, é a execução da nota fora do tempo normal dos compassos -, mas no samba sincopado há uma espécie de exagero da síncopa. Isso é feito adiantando ou prolongando o fraseado, em desarmonia com o compasso, realizando o que os músicos chamam de contratempo.

Além de Pereira, o sambista paulista Germano Mathias ajuda a popularizar esse tipo de samba, também conhecido como "samba do telecoteco", ao gravar várias composições de Padeirinho, como A Situação do Escurinho (1957), uma resposta à canção Escurinho (1955), do próprio Pereira. Mathias ainda obtém sucesso com Terreiro de Itacuruçá (1962) e Colher de Chá (1963). As letras dessas canções são recheadas de humor e uma linguagem repleta de gírias utilizadas pelos habitantes do morro, a qual os diferencia dos outros. Exemplo disso pode ser observado na composição Linguagem do Morro (1961): "Tudo lá no morro é diferente / Daquela gente não se pode duvidar/ Outro fato muito importante também interessante/ É a linguagem de lá". Sendo assim, a linguagem corrente do morro é a principal matéria-prima de seu trabalho. Como um cronista do morro, ele retrata a vida de sua gente. Padeirinho exalta o saber e a oralidade das pessoas do morro, Favela, título de uma de suas mais conhecidas canções: "Cada um pobre que passa por ali / Só pensa em construir seu lar / E é aí que o lugar / Então passa a se chamar favela". E ainda dialoga com a bossa nova no samba Modificado: "Já não se fala mais no sincopado / Desde quando o 'Desafinado' / Aqui teve grande aceitação / E até eu também gostei daquilo / Modificando o estilo / Do meu samba tradição". A faixa-título do grupo Sereno da Madrugada, anteriormente registrada no disco Mangueira - Sambas de Terreiros e outros Sambas, projeto do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, em 1999.

Padeirinho também é reconhecido graças a sua grande capacidade de fazer versos rápidos e improvisados, sendo um dos responsáveis pela modernização do samba chamado de "partido-alto", ao introduzir nessas improvisações a malícia e o "gingado" do "samba sincopado". Trata-se de uma modalidade de cantoria na qual se criam versos, normalmente de improviso, cantando-os a partir de uma linha melódica preexistente de uma ou duas quadras, as quais podem ser preexistentes e também compostas no próprio momento.1 Pela própria característica efêmera, poucos são os registros dos "partidos-altos" compostos por Padeirinho. Destaca-se uma seleção de várias rimas feitas pelo mangueirense, em rodas na escola de samba, intitulado Partido-Alto do Padeirinho (1989), gravado pela Velha Guarda da Mangueira.

A Estação Primeira de Mangueira também é uma das grandes inspirações de Padeirinho, uma vez que ele compõe inúmeros sambas de exaltação para a escola, além de sambas de terreiro e alguns sambas-enredo. Faz letra e melodia para um enredo sobre o presidente Getúlio Vargas, em 1956, samba que se torna conhecido a partir da gravação de Jamelão intitulada O Grande Presidente. A composição apresenta uma visão idealizada exaltando as virtudes e os feitos do presidente Vargas como estadista. No ano seguinte, compõe novamente o samba da verde e rosa, Emancipação Nacional, rumo ao progresso, fruto do ambiente político otimista do desenvolvimentismo, vivido no Brasil nessa década. Esses são alguns dos primeiros sambas-enredos tipo lençol, característicos das escolas de samba nas décadas de 1950 e 1960, marcados por letra extensa que discorre sobre todo o enredo e apresenta uma visão idealizada de fatos e ícones nacionais. Já em 1972, apresenta seu último samba-enredo, Rio, Carnaval dos Carnavais, em parceria com Moacyr da Silva e Nilton Russo.

Em sua obra há um tom de denúncia contra a penúria e a extrema pobreza na qual vive, não apenas ele, mas quase todos os habitantes do morro que tanto exalta. Padeirinho não lança disco próprio em vida, sendo toda sua obra conhecida pelos registros de outros artistas. Poucas canções de seu cancioneiro são gravadas e Padeirinho lamenta essa situação que acomete não apenas ele, mas a maior parte dos compositores populares brasileiros, na canção Decepção de um Autor: "Desci do morro com meu samba pra cidade / E tive uma grande decepção / No meio da alta sociedade / Desfizeram da minha composição / Infelizmente quem compõe no morro / Não tem direito a gravação".

 

Nota

1. LOPES, Nei. Partido-alto. Samba de bamba. Rio de Janeiro: Editora Pallas, 2005. p. 17, 18.

Fontes de pesquisa 6

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  • CABRAL, Sérgio. Mangueira. A nação verde e rosa. São Paulo: Editora Prêmio, 1998.
  • DINIZ, André. Almanaque do samba: a história do samba, o que ouvir, o que ler, onde curtir. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
  • LOPES, Nei. Partido Alto. Samba de Bamba. Rio de Janeiro: Editora Pallas, 2005.
  • PADEIRINHO DA MANGUEIRA. In: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro: Instituto Cultural Cravo Albin. Disponível em: <http://www.dicionariompb.com.br/padeirinho>. Acesso em 25 de agosto de 2011.
  • PADEIRINHO DA MANGUEIRA. In: Site Samba de Raiz. Disponível em: <http://www.sambaderaiz.net/padeirinho-biografia/>. Acesso em 26 de agosto de 2011.
  • PAULINO, Franco. Padeirinho da Mangueira. Retrato Sincopado de um artista. São Paulo: Editora Hedra, 2005.

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