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Música

Marcelo Tupinambá

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 08.10.2021
29.05.1889 Brasil / São Paulo / Tietê
04.07.1953 Brasil / São Paulo / São Paulo
Fernando Álvares Lobo (Tietê, SP, 1889 - São Paulo, SP, 1953). Compositor, pianista e regente. É filho do maestro Eduardo Álvares Lobo e sobrinho do compositor Elias Lobo. Quando criança, aprende sozinho a tocar piano. Mais tarde, na cidade de São Paulo, estuda música e tem aulas de violino com o maestro italiano Savino de Benedictis. Em razão d...

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Biografia
Fernando Álvares Lobo (Tietê, SP, 1889 - São Paulo, SP, 1953). Compositor, pianista e regente. É filho do maestro Eduardo Álvares Lobo e sobrinho do compositor Elias Lobo. Quando criança, aprende sozinho a tocar piano. Mais tarde, na cidade de São Paulo, estuda música e tem aulas de violino com o maestro italiano Savino de Benedictis. Em razão das atividades do pai, vive em várias cidades, como Itapetininga, São Paulo, e Pouso Alegre, Minas Gerais. Nesta cidade, conclui os estudos, toca piano e torna-se regente da banda local, excursionando pela região e também pelo interior de São Paulo. Fernando Lobo usa o pseudônimo Marcelo Tupinambá, por recomendação do diretor da Escola Politécnica de São Paulo, onde estuda de 1911 a 1916, para esconder sua condição de músico popular e de teatro de revista.

No período em que estuda engenharia atua como pianista em cinemas e cafés da cidade e compõe algumas canções. Várias delas são utilizadas na revista São Paulo do Futuro, escrita pelo libretista Danton Vampré, estreada em 1914. Duas canções da peça, Cavaleiros do Luar e o maxixe São Paulo Futuro, são gravadas por Bahiano em 1916. No ano seguinte, em parceria com o libretista Arlindo Leal, compõe Viola Cantadera e Maricota, Sai da Chuva, dois tanguinhos gravados pelo grupo O Passo no Choro, em 1919, e também destinados ao teatro de revista. Logo em seguida, sua composição O Matuto, gravada por Mário Pinheiro em 1918, é muito cantada no Carnaval.

Mesmo diante dos relativos sucessos, a instabilidade da vida profissional do músico ainda é regra. Por isso, Fernando Lobo muda-se em 1917 para Barretos, São Paulo, com o objetivo de trabalhar exclusivamente como engenheiro. Nessa cidade casa-se, no ano seguinte, com Irene Menezes e, em 1919, nasce sua filha Cecília Menezes Lobo. Permanece na cidade por seis anos exercendo a profissão. Mas, mesmo assim, incentivado pelo colega músico e editor João Campassi e pela esposa, compõe algumas canções. Nessa época é acometido por uma doença que lhe consome grande parte da visão. Impedido de ser engenheiro e precisando tratar-se, retorna a São Paulo, e retoma a vida artística como Marcelo Tupinambá.

A partir de meados da década de 1920 volta a compor, a escrever e a dirigir o teatro musicado, faz concertos e realiza excursões. Reconhecido pela crítica e pelo público nos anos 1930, continua a carreira artística e é convidado a ser diretor musical de algumas emissoras de rádio paulistanas. Paralelamente ao trabalho no rádio, nos anos 1940, torna-se fiscal do estado no conservatório musical de São Paulo. Escreve músicas eruditas como a suíte para cordas Estrela Velha, a partitura da ópera Abraão e os bailados Garoa, Butantã e Juca Mulato.

Comentário Crítico
Marcelo Tupinambá faz parte da geração de compositores que colabora destacadamente para a decantação de certos gêneros da música popular. No inicio do século XX, a vida cultural do Brasil passa por mudanças importantes, marcadas pelo crescimento e ebulição da vida urbana, e a cidade de São Paulo ecoa, à sua maneira, essas transformações. A singularidade da capital paulista se traduz no seu crescimento muito acelerado e nela convivem os elementos citadinos modernizadores, as tradições rurais e escravistas, com a forte presença de imigrantes, suas culturas, modo de vida e inúmeros sotaques. Nesse contexto as trocas culturais são as mais variadas. Os gêneros musicais e suas variações são apresentados em festas populares, salões, teatro de revista, cafés, indústria fonográfica e, na década de 1930, pelas emissoras de rádio. Tupinambá participa desse universo como protagonista, atuando principalmente no "abrasileiramento" e na definição de um gênero musical regional paulista.

Sua trajetória artística profissional é composta de pelo menos três períodos distintos. O primeiro tempo é marcado pelo início ainda amador da carreira, que convive com sua condição de estudante de engenharia na Escola Politécnica de São Paulo. Atua como instrumentista e compositor nas pequenas orquestras de cinema e no teatro de variedades. Como autor de canções para a cena musical se torna conhecido em 1914 com o sucesso da revista São Paulo do Futuro, texto do libretista Danton Vampré. A peça é uma revista satírica que conta as peripécias do caipira Gaudêncio, recém-chegado à cidade de São Paulo, que se mete em inúmeras confusões. Essa seria a temática de grande parte das revistas e burletas do período em que Tupinambá participa musicando. Da trilha musical coordenada e composta por Tupinambá para a peça de 1914, são gravadas pela Casa Edison as canções Cavaleiros do Luar e São Paulo Futuro, interpretadas pelo conhecido cantor Bahiano. Com Arlindo Leal, autor de diversas burletas regionais paulistas, parceiro no sucesso Tristeza de Caboclo, compõe duas dezenas de canções, a maioria destinada à cena musical, como, por exemplo, Viola Cantadera e Maricota, Sai da Chuva, estreadas na revista Cenas da Roça, em 1918, e gravadas na Odeon, em 1919. Essas gravações revelam como as relações de reforço mútuo entre o teatro musicado e a indústria fonográfica também estão presente em São Paulo.

Esse conjunto presente na primeira fase de Marcelo Tupinambá, formado pelo teatro musicado paulista, canções com fortes tinturas regionais e a presença na indústria fonográfica, associado ao forte sentimento nacionalista regionalista da época, colabora para a formação do que se convencionaria chamar de música sertaneja. Porém, o tipo de canção feita por Tupinambá na época é denominada arbitrariamente de "tanguinho", como forma de diferenciar-se do "tango brasileiro" de Ernesto Nazareth (que do ponto de vista musical é maxixe). É que, da mesma maneira que o célebre compositor carioca, ele tem formação musical formal - rara nos músicos populares do período - e realiza uma espécie de sintaxe entre polca, maxixe, samba e introduz outras referências folclóricas. Esse processo todo de novos ordenamentos e fusão pode ser captado muito bem na canção Maricota, Sai da Chuva. Composta para a peça Cenas da Roça, gravada pelo grupo O Passo do Choro, ela é identificada como "tanguinho", a letra faz referência bem-humorada ao universo do caboclo e, tudo indica, contém citação a uma melodia folclórica nordestina (Borboleta. Contemporaneamente, Marisa Monte grava no CD Mais essa canção e a identifica como originária do folclore nordestino). Geralmente suas parcerias poéticas reforçam o universo sonoro regional e destacam o modo de vida do "caboclo" e o mundo cultural do "caipira". Assim, sua obra colabora para gradativamente formar no universo urbano a imagem positiva do caboclo e decantar a "música caipira".

Desse modo, Tupinambá cria uma obra singular que se destaca no período, a tal ponto que Mário de Andrade o considera, já em 1924, um autêntico autor nacional. O modernista o compara a Ernesto Nazareth, mas, diferente do compositor carioca - mais buliçoso e ritmado -, Tupinambá é visto como excelente melodista. Porém, antes da avaliação do musicólogo, suas obras chamam atenção do compositor francês Darius Milhaud, adido cultural no Brasil. Na sua conhecida obra Le Boeuf Sur le Toit (1919), o francês utiliza sete composições de Tupinambá como se fossem melodias folclóricas (São Paulo Futuro, Viola Cantadera, O Matuto, Tristeza do Caboclo, Maricota, Sai da Chuva, Que Sôdade e Sou Batuta), sem dar nenhuma referência.

Todo esse reconhecimento o consagra como músico e compositor, e enseja, nos anos 1930, uma nova fase da carreira. Nesse período ele aprofunda e multiplica as composições das "canções características", arrisca algumas criações no campo erudito, faz vários concertos e apresentações e chega a compor o hino da Revolução de 1930 (Redenção, com Paulo Gonçalves) e também de 1932 (O Passo do Soldado, em parceria com Guilherme de Almeida). Finalmente ingressa no rádio, e se torna regente e diretor musical de algumas emissoras da cidade.

A partir da segunda metade da década de 1940, sua carreira sofre acomodamento no funcionalismo público e certo retraimento artístico, condição que permanece até sua morte, em 1953. Tupinambá deixa uma obra com mais de duas centenas de composições, gravadas por diversos intérpretes, como Francisco Alves (Asas do Jaú, 1927), Gastão Formenti (Cabocla Apaixonada, 1927), Vicente Celestino (Praiana, 1926, e O Cigano, 1924), Silvio Caldas (Coração), Os 8 Batutas, Zizi Possi (Ao Som da Viola), Zezé Gonzaga e Hamilton de Holanda (Trovas). O pianista Marcelo Guelfi grava em 1983 o disco Obras de Marcelo Tupinambá, com 12 obras do compositor.

Fontes de pesquisa 9

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  • ALMEIDA Benedito Pires de, Marcelo Tupinambá: obra musical de Fernando Lobo. SP, Ed. Anglotec, 1993.
  • ANDRADE, Mário de, Marcelo Tupinambá, In Música doce música, 3ª ed., BH, Ed. Itatiaia, 2006.
  • Acervo Instituto Moreira Salles. http://ims.uol.com.br/ims/.
  • LEANDRO, Marcelo Tupinambá. A criação musical e o sentido da obra de Marcelo Tupynambá na música brasileira. 2005. Dissertação (Mestrado em Pós Graduação Em Música) - Escola de Comunicações e Artes da Universidade de S. Paulo.
  • MARCONDES, Marcos Antônio. (Ed.). Enciclopédia da Música Popular Brasileira: erudita, folclórica e popular. São Paulo: Art Editora,1977. 2 v.
  • MORAES, José Geraldo Vinci. Metrópole em sinfonia. História, cultura e música popular na São Paulo dos anos 30. São Paulo, Editora Estação Liberdade, 2000.
  • MUGNANI Jr., Ayrton, Enciclopédia das músicas sertanejas, SP, Letras e letras, 2001.
  • NEPOMUCENO, Rosa. Música Caipira: da roça ao rodeio. São Paulo: Editora 34, 1999.
  • TINHORÃO, José Ramos, Os gêneros rurais urbanizados, In Pequena história da música popular, SP, Circulo do livro, s/d.

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