Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Alexandre Levy

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 26.02.2019
10.11.1864 Brasil / São Paulo / São Paulo
17.01.1892 Brasil / São Paulo / São Paulo
Alexandre Levy (São Paulo SP 1864 - Idem 1892). Compositor, pianista, regente e crítico musical. Filho do clarinetista francês Henrique Luís Levy e da suíça Anne Marie Teodoreth¹. Vindos de Campinas, o casal se estabelece em São Paulo em 1860 e funda a Casa Levy, uma loja de pianos e partituras. Durante todo o final do século XIX o estabelecimen...

Texto

Abrir módulo

Biografia

Alexandre Levy (São Paulo SP 1864 - Idem 1892). Compositor, pianista, regente e crítico musical. Filho do clarinetista francês Henrique Luís Levy e da suíça Anne Marie Teodoreth¹. Vindos de Campinas, o casal se estabelece em São Paulo em 1860 e funda a Casa Levy, uma loja de pianos e partituras. Durante todo o final do século XIX o estabelecimento permanece como importante ponto de encontro de músicos paulistanos e nele são divulgadas composições como A Sertaneja, rapsódia para piano do estudante de direito Brasílio Itiberê da Cunha e a modinha Quem Sabe, de Carlos Gomes, amigo de longa data do pai, Henrique Levy. O casal tem quatro filhos, dois deles profundamente influenciados pela formação musical dos pais: Luiz (1861-1935) e Alexandre Levy. O irmão mais velho é o primeiro professor de piano de Alexandre. Criado neste ambiente musical e de grandes personalidades, ele apresenta-se ao público aos 8 anos. Ainda garoto, continua sua formação como instrumentista com aulas com os pianistas franceses radicados em São Paulo, Louis Maurice e Gabriel Giraudon e, mais tarde, em 1883, estuda harmonia e contraponto com o compositor o alemão radicado em São Paulo Georg von Madeweiss. Em 1885, retoma os estudos de harmonia e composição com o professor austríado, naturalizado brasileiro, Gustavo Wertheimer.

Suas primeiras composições são publicadas, ainda na adolescência, no início da década de 1880. Em algumas delas se identifica a influência da amizade de Carlos Gomes com a família, como nas variações em forma de Fantasia sobre temas do O Guarani (1880, para dois pianos) e Fosca (1881). Como é comum à época, essas partituras são editadas na Europa. Em 1882 viaja a Buenos Aires onde se apresenta com o irmão Luiz no Club Unión Argentina, executando a quatro mãos a Segunda Rapsódia Húngara, de Franz Liszt (1811 - 1886) Em 1883 participa da fundação do Club Haydn na tentativa de estimular a cultura musical paulistana. Em 1885, rege, no 20º Concerto no Teatro São José, uma orquestra de 26 instrumentistas, a Sinfonia nº 1, de Joseph Haydn, e uma Abertura de Otto Nicolai (1810 - 1849).

Durante o ano de 1887 passa nove meses estudando entre Milão, onde conhecem os professores Cerare Dominicet (1821 - 1888) e Alberto Giannini (1842 - 1903), e Paris, onde tem aulas de harmonia e contraponto com Émile Durand (1830 - 1903), mestre de Claude Debussy (1850 - 1918), e Vizenzo Ferroni (1958 - 1934). Ao retornar, retoma as atividades artísticas e faz crítica musical no jornal Correio Paulistano, assinando artigos com o pseudônimo Figarote. A partir deste momento torna-se compositor prolífico, compondo entre outras, obras sinfônicas como Werther (1888), Sinfonia em Mi Menor (1889) e a Suíte Brésilienne (1890); música de câmara, como o quarteto de cordas Reverie (1889); música vocal, Marcha com Coros (1888) e Aimons (1889); e solos para piano, como Variations sur un Thème Populaire Brésilien (Vem cá Bitu - 1887), Tango Brasileiro (1890) e Schumanniana (1891).

Nota:
¹ Em algumas fontes como o a ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica, popular. Edição Marcos Antonio Marcondes. São Paulo: Art Editora: Itaú Cultural, 1998., aparece o nome Laurette Chassot, porém no site oficial da Casa Levy (http://www.casalevydepianos.com.br/historia) consta Anne Marie Teodoreth. Já no artigo Judeus da Alsácia e imigrantes alsacianos na vida cultural do Brasil e da Argentina, publicado na Revista Brasil-Europa, nº 120/8, de 2009 (http://www.revista.brasil-europa.eu/120/LuisHenriqueLevy.html), consta Anne Marie Teodorette Laurette Chassot. Optamos por utilizar o nome como é grafado no site da Casa Levy

 

Comentário Crítico

Alexandre Levy é considerado pela historiografia da música, ao lado de Alberto Nepomuceno (1864-1920), um dos compositores precursores, no final do século XIX, da formação do caráter nacional da música erudita no Brasil. Sua trajetória é compreendida em direção da descoberta dessa nacionalidade. Inicialmente é um jovem e promissor compositor com características evidentemente Românticas - e de certo modo sua morte repentina que interrompeu prematuramente a carreira em ascensão reforça essa imagem - influenciado por Robert Schumann - que homenageou com sua Schumanniana (1891) - e Richard Wagner (1813 - 1883). Sua passagem pela Europa no final da década de 1880 significa seu amadurecimento artístico. A experiência européia teria também influenciado o jovem compositor nos projetos de modernização da cultura musical paulistana e brasileira, apoiando a formação de um circuito musical na cidade de São Paulo composto por instrumentistas, público e crítica. Para alguns intérpretes, a partir deste momento ele deixa as influências Românticas em segundo plano e assume um caráter mais modernizador e de acordo com a geração intelectual do final do século XIX. Deste modo, ele inspira-se em temas populares em suas composições e é identificado com o processo formativo da música nacionalista. No entanto, não são temas exclusivamente folclóricos e indigenistas, como era voga à época: ele busca elementos no mundo urbano e na cultura afro-brasileira.

São três os casos característicos associados aos aspectos fundador e modernizador da nacionalidade musical. O primeiro é o uso da canção popular infantil Vem Cá, Bitu (Vem cá, Bitu! Vem cá, Bitu! Vem cá, meu bem, vem cá! Não vou lá! Não vou lá, Não vou lá! Tenho medo de apanhar? cuja variação mais conhecida contemporaneamente é Cai-cai balão! Cai-cai balão ... ) que utiliza em 1887 nas Variações sobre um tema popular brasileiro. A peça é originalmente escrita para piano solo (1884) e somente mais tarde orquestrada, ganhando assim a primazia precursora a que se referiu Vasco Mariz. No entanto, nela o tema popular infantil surge na introdução da peça. Já no Tango Brasileiro (1890), peça para piano solo, o compositor nitidamente incorpora a influência do maxixe ao utilizar de maneira clara a sincope característica deste gênero.

Por fim, o caso mais conhecido é o da quarta parte da Suíte Brésilienne (composta por 1. Prelúdio; 2. Dança rústica - Canção Triste; 3. À beira do Regato), intitulada Samba. Esse trecho é o único estreado separadamente no Rio de Janeiro, com regência de Leopoldo Miguez, com Levy ainda vivo e tudo indica que bem acolhido pelo público. De acordo com o musicólogo G. Behague, Levy usou como referência nesta peça dois temas folclóricos do samba rural muito conhecidos na cidade de São Paulo: Balaio, meu bem, balaio e Se eu te amei (harmonizado anteriormente pelo mestre-de-capela da Sé Central, José Almeida Cabral). E tudo indica também que Levy teria sido influenciado pela descrição de um "samba de umbigada" presente no romance naturalista A carne de Júlio Ribeiro, expondo assim o contraste com a geração romântico-indigenista. Deste modo, pode-se dizer que Alexandre Levy usou em parte de sua obra, elementos musicais populares díspares: aqueles existentes no universo urbano como a Polca, o Tango Brasileiro e o Maxixe; os do Samba rural paulista; e as manifestações transformadas desta cultura rural no centro urbano.

Alexandre Levy deixa um conjunto de obras, boa parte dela distante destes esforços de atualização nacional da música, como Fantasia Sobre Motivos do Guarani (1880) e de Fosca(1881); Impromptu-Caprice, Opus 1 (1881); Trois Improvisations (1882); Trois Petits Morceaux Faciles (s.d.); Allegro Appassionato Opus 14 (1887); Trio em Si Bemol (s.d), para piano, violino e violoncelo; Werther (1888), Marcha com Coros (1888); Sinfonia em Mi Menor (1889); Reverie (1889); Aimons (1889); Comala (1890); Schumanniana (1891), o poema sinfônico Hymne à 14 Juillet e a Suíte Brésilienne, esta última em quatro partes: 1 Prelúdio, 2 Dança rústica - canção triste, 3 - a beira do regato; 4 Samba. No samba (dança rural dos negros do interior de São Paulo), inspira-se nos termos do fandango sulino, anteriormente utilizado por Brasílio Itibere da Cunha em a Sertaneja, e de uma chula do compositor popular José de Almeida Cabral, e é  referência precursora do nacionalismo musical.

Fontes de pesquisa 4

Abrir módulo
  • ANDRADE, Mário de, "Evolução social da música no Brasil", In Aspectos da música no Brasil, 2ª ed., SP, Martins/INL, 1975.
  • MARIZ, Vasco. História da música no Brasil. 2.ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.
  • Página web oficial da Casa Levy. Disponível em:http://www.casalevydepianos.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=51:historia-alexandre-levy&catid=38:historia&Itemid=62 . Acesso em: 06 de outubro de 2011.
  • SEGALA, Camila Dura. Alexandre Levy: uma revisão, Dissertação de Mestrado, Instituo de Artes, Unesp. 2003. TUMA, Said. O Nacional e o Popular na Música de Alexandre Levy: Bases de um Projeto de Modernidade. Dissertação de Mestrado, Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo. 2008.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: