Artigo da seção pessoas Claus Ogerman

Claus Ogerman

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deClaus Ogerman: 29-04-1930

Claus Ogerman (Ratibor, Prussia, atual Alemanha, 1930). Pianista, compositor, regente e arranjador. Inicia os estudos musicais ao piano, com Richard Ottinger, em sua cidade natal. Ogerman se radica com a família em Nurembergue; a mãe do músico falece durante a jornada. Em 1945, aos 15 anos, passa a estudar com Karl Dremmer, regente da Orquestra Sinfônica de Nurembergue, e com o pianista Ernst Goreschel (1918-2000). Na década de 1950, trabalha como pianista e arranjador na big band do pianista e clarinetisa Kurt Edelhagen (1920-1982) e, entre 1952 e 1957, no sexteto do clarinetista e saxofonista Max Greger (1926-2015).

Sob o pseudônimo de Tom Collins, participa, como vocalista, em gravações de discos, fazendo duetos com Hannelore Cremer (1936) e solo com Delle Haensch Jump Combo (1926-2016). Em 1955, escreve a primeira trilha sonora de filmes, para o drama Die Prinzessin von St. Wolfgang (1957), com direção de Harald Reinl (1908-1986). Escreve mais algumas trilhas para películas alemãs antes de  transferir-se para Nova York, em 1959, mudando a grafia de seu nome de Klaus Ogermann para Claus Ogerman. Por meio de um amigo comum, conhece o arranjador Don Costa (1925-1983) que o apresenta a nomes-chave do meio musical norte-americano, como Quincy Jones (1933) e Ray Ellis (1923-2008).

Em 1963, entra para o selo Verve/MGM Records, de Creed Taylor (1929) e trabalha em gravações de Tom Jobim (1927-1994), Bill Evans (1929-1980), Wes Montgomery (1923-1968), Kai Winding (1922-1983) e Cal Tjader (1925-1982). Recebe 15 indicações para o Grammy, prêmio que vence em 1979, por melhor arranjo em gravação instrumental: “Souful Strut”, de George Benson (1943). A partir deste ano, abandona o trabalho como arranjador, concentrando-se em composições próprias, inscritas na tradição erudita europeia. Em 2001, depois de duas décadas afastado do cenário da música popular, assume os arranjos e a regência da Orquestra Sinfônica de Londres no álbum The Look of Love, de Diana Krall (1964), que recria a atmosfera e sonoridade do disco Amoroso, de João Gilberto (1931-2019).

 

Análise 

Para a música brasileira, a importância da obra de Claus Ogerman consiste em seu trabalho com Tom Jobim, no período em que este se lança em carreira internacional. A parceria dura 17 anos, entre 1963 e 1980, e resulta em sete álbuns: The Composer of Desafinado Plays (1963); A Certain Mr. Jobim (1965); Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim e Wave (1967); Matita Perê (1973); Urubu (1976); e Terra Brasilis (1980).

Quando Creed Taylor indica Ogerman para os arranjos de The Composer of Desafinado Plays, que marca a entrada de Tom Jobim no mercado norte-americano, o músico carioca demonstra ceticismo: “ele vai transformar minha música em marcha quadrada de banda prussiana”, diz. 

Logo, contudo, o arranjador ganha a confiança do compositor brasileiro, a ponto de sua irmã, Helena Jobim, afirmar que “Tom sempre preferia que ele fizesse os arranjos de suas músicas”.  O violonista Oscar Castro Neves (1940-2013) fala em parceria: 

 

Se ouvirmos todos os contrapontos, todas as linhas eram mesmo de Jobim. Ele deu a Claus tal riqueza de material que praticamente fez os arranjos junto com ele. Claus entrou com a concepção do peso da orquestra, a escolha dos instrumentos, a escrita e a valorização das cordas. Mas, se você ouvir as gravações brasileiras, o contraponto já estava lá. Os arranjos de Tom passaram a fazer parte das músicas.

 

A consagração vem na crítica escrita por Pete Welding (1935-1995) para a revista Down Beat, em 1963: 

 

os arranjos para cordas feitos por Claus Ogerman captam perfeitamente a essência da alegria flutuante e de tristeza pensativa da música de Jobim, e levam adiante as linhas sem esforço e enganosamente simples do piano-de-um-dedo-só do compositor, complementando-as e secundando-as com maravilhosa força rítmica e claridade melódica, 

 

afirma, dando cotação máxima (cinco estrelas) para The Composer of Desafinado Plays.

A confiança de Jobim em Ogerman é tão grande que o compositor insiste em que ele seja o arranjador do disco que grava com Frank Sinatra, em 1967. O cantor norte-americano, inicialmente, prefere seu amigo Nelson Riddle para a tarefa. Eleito pela crítica dos Estados Unidos como o melhor disco do ano, o álbum Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim fica em segundo lugar nas vendas no país, perdendo apenas para o icônico Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.

Ogerman é escolhido por Jobim como parceiro de dois álbuns independentes, financiados pelo próprio compositor e distantes das pressões do mercado fonográfico: Matita Perê e Urubu. As faixas desses discos são mais longas do que a média da época, com maior valorização da parte instrumental. A última parceria da dupla, Terra Brasilis, é dominada por releituras como “Wave” e “Chovendo na Roseira”, em que Ogerman modifica as gravações originais das músicas. Essa nova introdução de Ogerman é adotada por Jobim em seus shows.

Tendo trabalhado com muitos artistas internacionais, de Bill Evans a Barbra Streisand (1942), passando por Oscar Peterson (1925-2007), Stan Getz (1927-1991) e Mel Tormé (1925-1999), Ogerman, devido a sua parceria com Jobim, é identificado como um arranjador ligado à bossa nova. Com clima musical análogo aos de Tom, cria os arranjos de um dos álbuns mais emblemáticos de João Gilberto, Amoroso (1977). Trabalha, ainda, ao lado de outros músicos brasileiros como Joyce (1948) e João Donato (1934).

Na música erudita, Ogerman tem algumas de suas obras executadas e gravadas por nomes de destaque no cenário internacional. A mezzo-soprano Birgitte Fassbaender (1939) registra em disco os Tagore Lieder, enquanto o violinista Gidon Kremer (1947) grava o “Preludio and Chant” com a Orquestra Sinfônica de Londres, sob regência do compositor.

 

 

Notas

1. Ratibor – à época, pertencente à Alemanha. Ao final da Segunda Guerra Mundial, a cidade é rebatizada Raciborz, passa para o domínio polonês, e a população germânica é forçada a migrar.

2. CUNHA, Flávio Régis Sudário. Fluxos musicais do arranjador Claus Ogerman em contextos transnacionais. Modus, Belo Horizonte, v. 09, n. 15, p. 29-45, nov. 2014.

3. ______. Claus Ogerman, uma análise do concerto para piano e orquestra (1993): música e história cultural. Dissertação (Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura) –Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2013.

4. ______. op., cit. 

5. ______. Uma análise da escrita musical para orquestra de cordas no arranjo de Claus Ogerman para Desafinado (1967) e sua contribuição para a bossa nova. Revista Música Hodie, Goiânia, v.14, n.2, p. 180-198, 2014.

6.  CHEDIAK, Almir. Songbook Tom Jobim – v. 1. Rio de Janeiro: Lumiar Editora, 1990.

Outras informações de Claus Ogerman:

  • Outros nomes
    • Klaus Ogermann
  • Habilidades
    • Pianista
    • Compositor
    • Regente/maestro
    • Arranjador

Obras de Claus Ogerman: (2) obras disponíveis:

Fontes de pesquisa (11)

  • B.J. (Barbara J.). Welcome to... The Work of Claus Ogerman. 08 out. 2014. Disponível em: http://www.bjbear71.com/Ogerman/Claus.html  Acesso em: 29 jun. 2015.
  • BLYTH, Alan. Berg; Mahler. Ogerman Lieder. Londres: 2012. Gramophone Magazine, Londres, 2012.
  • CALADO, Carlos. Admiração mútua não evitou rusgas. Folha de S.Paulo, São Paulo, 21 jan. 2007. Ilustrada.
  • CHEDIAK, Almir. Songbook Tom Jobim - Vol. 1. Rio de Janeiro: Lumiar Editora, 1990.
  • CUNHA, Flávio Régis Sudário. Fluxos musicais do arranjador Claus Ogerman em contextos transnacionais. Modus, Belo Horizonte, v. 09, n. 15, p. 29-45, nov. 2014.
  • CUNHA, Flávio Régis Sudário. Claus Ogerman, uma análise do concerto para piano e orquestra (1993): música e história cultural. Dissertação (Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2013.
  • CUNHA, Flávio Régis Sudário. Uma análise da escrita musical para orquestra de cordas no arranjo de Claus Ogerman para Desafinado (1967) e sua contribuição para a bossa nova. Revista Música Hodie, Goiânia, V.14 - n.2, 2014, p. 180-198.
  • DUARTE, Luiz de Carvalho. Os arranjos de Claus Ogerman na obra de Tom Jobim: revelação e transfiguração da identidade da obra musical. Dissertação (Mestrado em Música) – Universidade de Brasília, Brasília, 2010.
  • GEVERS, Jeroen. Reinterpreting bossa nova: instances of translation of bossa nova in the United States, 1962-1974. Dissertação (Mestrado de Artes em Musicologia) – Universidade de Utrecht, Holanda, 2010.
  • LOPES, Patrícia de Almeida Ferreira. A trajetória de Tom Jobim durante o período que abrange a elaboração dos álbuns Matita Perê e Urubu (1971 – 1976). In: II Jornada Acadêmica Discente – PPGMUS ECA/USP, 2013.
  • SOUZA, Tárik de. The Composer of 'Desafinado' Plays. São Paulo: Mediafashion, 2013.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CLAUS Ogerman. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa589972/claus-ogerman>. Acesso em: 13 de Nov. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7