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Música

Antônio Rago

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 20.01.2017
02.07.1916 Brasil / São Paulo / São Paulo
24.01.2008 Brasil / São Paulo / São Paulo
Antonio Rago (São Paulo, São Paulo, 1916-2008). Instrumentista, compositor, arranjador. Filho de imigrantes italianos, cresce no bairro do Bixiga, São Paulo. Ainda criança, começa os estudos de violão. Aos 12 anos, inicia a carreira artística, acompanhando artistas em circos e bailes. Passa a frequentar serestas e rodas de choro e aperfeiçoa-se ...

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Biografia
Antonio Rago (São Paulo, São Paulo, 1916-2008). Instrumentista, compositor, arranjador. Filho de imigrantes italianos, cresce no bairro do Bixiga, São Paulo. Ainda criança, começa os estudos de violão. Aos 12 anos, inicia a carreira artística, acompanhando artistas em circos e bailes. Passa a frequentar serestas e rodas de choro e aperfeiçoa-se informalmente com violonistas nos bastidores das rádios.

Em 1936, a convite da Rádio Belgrano, acompanha o cantor Arnaldo Pescuma (1903-1968) em uma temporada em Buenos Aires. Ao retornar, atua nas rádios São Paulo, Cruzeiro do Sul e Difusora. Em 1937, ingressa no conjunto Regional do Armandinho, na Rádio Record, e é requisitado para acompanhar grandes intérpretes, como Orlando Silva (1915-1978), Sílvio Caldas (1908-1998), Carmen Miranda (1909-1955) e Francisco Alves (1898-1952). No mesmo ano, vai para a Rádio Tupi de São Paulo, na qual permanece até liderar seu próprio grupo, em 1942. Nele, inclui o violão elétrico e acordeom na instrumentação.

Em 1943, como solista, registra a valsa “Velhos Tempos” e o choro "Chorando”, ambas de sua autoria. Em 1945, lança o choro “Extasiado” e a valsa “Sonhadora”. No mesmo ano, grava o primeiro disco com seu conjunto, com as canções “Este É o Choro” e “Nada”, uma versão, em ritmo de samba, do tango composto pelo uruguaio Horacio Sanguinetti (1914-1957) e pelo argentino José Dames (1907-1994). Em 1947, alcança sucesso com o choro “Mentiroso” e o bolero “Jamais te Esquecerei”, lançados pela Continental. A gravadora passa a prestigiar suas composições, como a guaracha “Motivo Cubano” (1951), os boleros “Pelo Teu Amor” (1949) eEm Tuas Mãos” (1950), o choro-batucada “O Barão na Dança” (1955) e o baião “Castanholas” (1956).

Compõe trilhas para a animação Cozinhando um Samba (1945), de Jaime Muniz, e o longa-metragem Quase no Céu (1949), de Oduvaldo Vianna (1892-1972). Musica trecho do filme Terra É Sempre Terra (1951), de Tom Payne (1914-1996). Em 1952, faz arranjo e acompanhamento para Adoniran Barbosa (1910-1982) do samba “Conselho de Mulher” e da primeira gravação de “Samba do Arnesto”.

Na década de 1950, participa da inauguração da televisão no Brasil, com programa próprio na TV Tupi, e produz os quadros de rádio Nos Acordes de um Violão e Um Cigarro e um Violão, transmitidos por várias emissoras paulistas. Com o fim do grupo Regional do Rago, nos anos 1960, apresenta-se sozinho ou em trio. Em 1960, registra Rago em Sonorâmico, álbum dedicado à guitarra Sonorâmica, recém-lançada pela Di Giorgio. Em 1988, comemorando os sessenta anos de carreira, lança a autobiografia A Longa Caminhada de um Violão e um show, em que relembra antigos sucessos. Aos 85 anos, comanda o programa Rago – O Mago do Violão, na Rádio Atlântica de Santos. Permanece em atividade até sua morte, aos 91 anos.

Análise
Antonio Rago é considerado um importante violonista brasileiro do século XX. Além de autor de uma obra extensa e diversificada, participa dos primeiros processos de profissionalização dos músicos em emissoras de rádio e TV. Na década de 1920, vivencia o processo de mudança de status do violão: de instrumento de “desocupados” para elemento presente nos meios de comunicação eletrônicos e nas salas de concerto. Embora tenha estudado violão clássico na juventude, é nos circuitos de disseminação da música popular que constrói sua escuta. Primeiro nas rodas de choro e serestas, nos circos e bailes, depois, nos bastidores das emissoras de rádio. Nesse ambiente, entra em contato com uma de suas principais referências, a obra do violonista Américo Jacomino, o Canhoto (1889-1928). Como muitos de seus contemporâneos, aprende a tirar as músicas “de ouvido”. Outra influência são as canções napolitanas e calabresas que escuta em casa e na vizinhança do Bixiga, ao qual dedica uma de suas composições, “Meu Pedaço de Rua”.

Tendo produzido intensamente por cerca de setenta anos, Rago também assiste às mudanças culturais e econômicas na divulgação e recepção musical. Participa da do início, quase amador, da radiofonia nacional, experimenta seu período áureo e conhece seu declínio, depois do aparecimento da televisão no Brasil. Transitando por todas essas esferas, atua na diversificação do repertório e concentra esforços para melhorar a qualidade sonora nos estúdios das emissoras. Sua trajetória confunde-se com a profissionalização do rádio em São Paulo, meio no qual promove inovações significativas. Entre elas, destaca-se a remodelação do formato dos conjuntos que acompanham os cantores populares nas emissoras de rádio, os denominados regionais. Nos anos 1940, o Regional do Rago inclui, além dos instrumentos da formação convencional (flauta, clarineta, violão, cavaquinho e pandeiro), o violão elétrico, o acordeom, o contrabaixo e outros instrumentos de percussão. A iniciativa é criticada pela imprensa especializada. Isso porque, à época, associa-se o uso de acordeom à música chamada de “sertaneja” em suas diversas variações, impensável para o acompanhamento de outros gêneros, e o contrabaixo serve basicamente como instrumento de estúdio de gravação. Por sua vez, o violão elétrico é considerado um ataque à autenticidade da “boa música nacional”, mas a persistência criativa no uso deste instrumento acaba vencendo as resistências e torna-se um marco na carreira de Rago. Ele é considerado um dos precursores do violão elétrico no Brasil, nos anos 1940, quando grava músicas como solista e com seu conjunto. Começa com um violão normal adaptado com um captador e, em seguida, com violões dos principais fabricantes do Brasil, como Giannini, Del Vecchio e Di Giorgio. Desenvolve uma maneira peculiar de tocar o instrumento, dedilhando-o como no violão acústico. Recorrendo à sustentação de amplificadores, que alongam a duração das notas ou preenchem os espaços sonoros com muitas notas e acordes, concebe uma maneira de tocar mais econômica e apropriada à função de violonista acompanhante. Inclui, também, dissonâncias e quebras de ritmo, que conferem um estilo próprio em suas interpretações de choros e sambas.

Deste modo, cria um “conjunto mais evoluído, com um som mais profundo”, conforme relata em seu depoimento para o Museu da Imagem e do Som de São Paulo, nos anos 1980. Daí surge, em suas palavras, o “som diferente”, responsável por tornar seu conjunto um dos mais requisitados para gravações de renomados intérpretes. Entre eles, Francisco Alves, a quem acompanha em sua última apresentação, em São Paulo, na noite anterior à morte do cantor.

Rago conquista maior espaço nas gravadoras para lançar composições autorais. Aproveitando as novas possibilidades do violão elétrico, seu repertório é marcado pela versatilidade. Executa desde músicas do folclore até canções francesa, espanhola e italiana. Chega a acompanhar intérpretes internacionais, como o italiano Carlo Buti (1902-1963), o argentino Hugo del Carril (1912-1989) e o francês Jean Sablon (1906-1994). Após uma temporada na Argentina, passa a interpretar com maestria os tangos, gênero apreciado no Brasil na primeira metade do século XX.

Como compositor, sua obra é igualmente multifacetada: compõe guarachas, boleros, tangos, choros, sambas, baiões, dobrados, toadas, guarânias, chá-chá-chás, mambos, rumbas e até gêneros híbridos, como choro-batucada, samba-boogie e rock-balada. Um de seus maiores sucessos é o bolero “Jamais te Esquecerei”, composto em parceria com Juracy Rago, em 1947. A canção alcança o auge dois anos após ser gravada, quando o gênero cai na preferência do público brasileiro, e intitula seu primeiro LP de dez polegadas, lançado dez anos depois.

Com o fim de seu regional, dedica-se a peças eruditas, como a Sonatina em Lá Menor (1959), e grava LPs nos moldes de recital de violão. Ao longo de sua carreira, tem vários parceiros letristas, como João Pacífico (1909-1998), em “Custou Pra Arranjar”, “Retrato de Mãe” e “Saudade e Ilusão”;  Teixeira Filho, em “Recordação”, “Se É Pecar”, “Sozinha” e “Volta”;  e Mário Vieira (1921-?), com “Meu Querido Amor”. Seguidor da escola de mestres, como Canhoto, Garoto (1915-1955), Armandinho Neves (1902-1976) e Aymoré (1908-1979). Sua obra também inspira uma nova geração de instrumentistas, entre os quais se destaca Paulinho Nogueira (1929-2003).

Fontes de pesquisa 12

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  • ANTÔNIO Rago. In: BOTEZELLI, J. C. (Coord.); PEREIRA, Arley (Coord.). A música brasileira deste século por seus autores e intérpretes. São Paulo: SESC SP, 2001. v. 5, 286 p. . 1 CD Sonoro. Não catalogada
  • BRAZIL, Daniel. Antonio Rago: cala-se um violão primoroso. Revista Música Brasileira, Rio de Janeiro, 13 fev. 2008. Disponível em: < http://www.revistamusicabrasileira.com.br/homenagens/antonio-rago-cala-se-um-violao-primoroso >. Acesso em: 25 fev. 2015.
  • BRAZIL, Daniel. Antonio Rago: cala-se um violão primoroso. Revista Música Brasileira, Rio de Janeiro, 13 fev. 2008. Disponível em: < http://www.revistamusicabrasileira.com.br/homenagens/antonio-rago-cala-se-um-violao-primoroso >. Acesso em: 25 fev. 2015.
  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998. Não catalogada
  • MORAES, José Geraldo Vinci de. Metrópole em sinfonia: história, cultura e música popular na São Paulo dos anos 30. São Paulo: Estação Liberdade, 2000.
  • MÚSICOS do Brasil. Antonio Rago. Disponível em: < http://www.musicosdobrasil.com.br/verbetes.jsf >. Acesso em: 25 fev. 2015.
  • RAGO, Antonio. A Longa caminhada de um violão. São Paulo: Iracema, 1986.
  • RAGO, Antônio. A Era do rádio. São Paulo: Rádio Cultura, 2007. Entrevistadora: Carmélia Alves. Disponível em: < http://culturabrasil.cmais.com.br/especiais/a-era-do-radio-com-carmelia-alves >. Acesso em: 2 mar. 2015.
  • RAGO, Antônio. A Música brasileira deste século pelos seus autores e intérpretes – v. 5. [São Paulo]: Sesc: Fundação Padre Anchieta, 2001. 1 CD de música.
  • RAGO, Antônio. Acervo Digital do Violão Brasileiro. Disponível em: < http://www.violaobrasileiro.com.br/dicionario/visualizar/antonio-rago >. Acesso em: 26 out. 2015.
  • RAGO, Antônio. Depoimento prestado ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS/SP), na presença de Paulo Marcos Putterman (entrevistador) e Carlos Alberto Pereira (técnico de som). São Paulo, 25 set. 1981.
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras (vol. 1: 1901-1957). São Paulo: Editora 34, 1997. (Coleção Ouvido Musical).

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