Artigo da seção pessoas Zé Barbeiro

Zé Barbeiro

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deZé Barbeiro: 04-02-1952 Local de nascimento: (Brasil / Alagoas / São Miguel dos Campos)

José Augusto Roberto da Silva (São José dos Campos, Alagoas, 1952). Compositor e violonista. Na infância, muda-se com a família para Carapicuíba, São Paulo, quando aprende com o pai o ofício de barbeiro. Exerce profissionalmente esse ofício e começa a tocar guitarra elétrica, influenciado pelo êxito da jovem guarda. Em São Paulo, conhece João Macacão, violonista que acompanha sambas e choros ao violão de sete cordas e apaixona-se pelo instrumento. Troca a guitarra e a jovem guarda pelo violão de sete cordas e o samba.

Frequenta rodas de samba e choro na década de 1970 e, a convite de Américo do Bandolim, toca na noite paulistana, como integrante de seu conjunto. Torna-se chorão, atuando nos principais bares de choro da cidade de São Paulo, tais como: Vou Vivendo, Clube do Choro, Bar do Cidão e Ó do Borogodó. Além dos chorões, também acompanha sambistas como Elizeth Cardoso (1920-1990), Ângela Maria (1929), Silvio Caldas (1908-1998), Noite Ilustrada, Leci Brandão (1944) e Zeca Pagodinho (1959). Em 2008, faz arranjos e dirige o disco Divino Samba Meu, de Dona Inah (1935). Dois anos mais tarde, produz Samba Comigo, da cantora Anaí Rosa. Entre os solistas, acompanha Raul de Barros, Raul de Souza (1934), Altamiro Carrilho (1924-2012) e Carlos Poyares (1928-2004). Da nova geração, acompanha nomes como Armandinho da Bahia, Danilo Brito (1985) e Yamandú Costa (1980).

Integra o Conjunto Nosso Choro, com o qual tem dois discos lançados, além de participar de regionais como o de Aleh Ferreira (1955). Em 2005, faz parte do projeto “Violões do Brasil”, ao lado de grandes nomes do 7 cordas como Rogério Caetano (1977) e Dino 7 Cordas (1918-2006). Com sólida carreira de instrumentista, dedica-se à composição com choros premiados pela crítica em festivais. Suas primeiras composições estão no disco Baba de Calango (2005), do grupo Choro Rasgado, do qual também é integrante. Em 2009, lança Segura a Bucha, primeiro disco solo, em que todas as composições são suas. No projeto Itaú Rumos de 2011, grava ao vivo No Salão do Barbeiro, outro disco autoral com composições dançantes. Calcula ter escrito por volta de 160  peças.

 

Análise 

Zé Barbeiro é um chorão contemporâneo e seu modo de acompanhar e compor ultrapassa a tradição do choro em períodos assimétricos e formas não-tradicionais. Em sua performance, procura novidades, expandindo as formas consagradas “de dentro”, pois sua formação vem da linhagem mais “pura” dos chorões. Não é um jazzista que toca choro, mas um chorão que expande sua linguagem.

Está inserido na tradição brasileira de música popular, formada por barbeiros músicos. Desde o século XVIII, com a expansão dos centros urbanos na Bahia e no Rio de Janeiro, os barbeiros desenvolvem-se como músicos autodidatas, animando festas populares. Atividade de destaque entre homens livres, pobres e negros forros, o barbeiro daquela época realiza outros afazeres, tais como arrancar dentes, aplicar sanguessugas ou ainda tocar um instrumento musical. O pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), em seu livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, comenta sobre os barbeiros: “dono de mil talentos, ele tanto é capaz de consertar a malha escapada de uma meia de seda, como de executar no violão ou no clarinete valsas e contradanças francesas, em verdade arranjadas a seu modo” [1].

Não escapa a Debret a forte característica da música popular urbana brasileira: o modo de interpretar. O que os chorões da época executam são valsas, polcas e outras melodias europeias simples, diferenciando-se delas pela interpretação criativa. Os baixos “choram” de modo improvisado, a métrica da melodia é distendida e diminuída, com uma técnica menos rigorosa do que a dos europeus. Entre os barbeiros tradicionais é comum o “tocar de ouvido”, sem método rígido ou professor formal. É algo que se mantém, e Zé Barbeiro não estuda em conservatório. Desenvolve um trabalho musical a seu modo, em grande parte “de ouvido”, sem seguir as regras tradicionais da harmonia, guiado pela tradição dos chorões.

Seu choro Baba de Calango tornou-se o cartão de visitas do grupo Choro Rasgado. Se o choro baseia-se na forma rondó de três partes (ABACA) ou em duas partes (ABA), esse choro de Zé Barbeiro fica entre a forma em duas partes e uma variação contínua, procedimento inédito entre os chorões. A linha melódica foge do óbvio, e as acentuações são sincopadas e assimétricas, gerando a sensação de quebra da métrica de referência. A composição “Chá de Macaco” (gíria para designar bebidas muito fortes) não é experimental na forma (baseada no rondó tradicional de três partes), mas a melodia desenha um novo plano métrico deslocado do tempo forte, gerando uma sensação de grande sincopação. A parte C apresenta harmonia interessante, que não caminha de modo tradicional, mas fica “estagnada” em um colorido harmônico, ao modo do compositor francês Claude Debussy (1862-1918) e dos impressionistas franceses do final do século XIX.

Em seu último disco No Salão do Barbeiro compõe em gêneros pouco frequentes no choro, como o xote “Chorando as pitangas”, o baião “Tome Tento”, o frevo “Isabela” e o mambo “Koolongo”. Seu trabalho, livre e intuitivo, é um sopro de vigor para o choro que, depois da “época de ouro” com Pixinguinha (1897-1973) e Jacob do Bandolim (1918-1969), continua se desenvolvendo com a inventividade de músicos como Zé Barbeiro.

 

Nota

1. DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. São Paulo: Edusp, 1978. v.1. p. 212.

Outras informações de Zé Barbeiro:

  • Outros nomes
    • José Augusto Roberto da Silva
  • Habilidades
    • Compositor
    • Violinista

Eventos relacionados (1)

Fontes de pesquisa (5)

  • BARBEIRO, Zé. Site oficial do artista. Disponível em: www.zebarbeiro.com.br/. Acesso em: 25 dez. 2011.
  • BARBEIRO, Zé. Entrevista concedida pelo o artista, realizada em 17 nov. 2010.
  • DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica ao BrasilSão Paulo: Edusp, 1978. v.1.
  • PALOPOLI, Cibele. Violão velho, Choro novo: processos composicionais de Zé Barbeiro. Tese (Doutorado em Música) – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, 2018. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27157/tde-11092018-162324/pt-br.php Acesso em: 19 out. 2020
  • TINHORÃO, José Ramos. História social da música popular brasileira. São Paulo: Editora 34, 1998.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ZÉ Barbeiro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa570380/ze-barbeiro>. Acesso em: 16 de Abr. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7