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Sonia Robatto

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.04.2017
31.03.1938 Brasil / Bahia / Salvador
Sonia Robatto Fernandes (Salvador, BA, 1938). Atriz, escritora, editora, bibliotecária, jornalista e empresária. Ingressa na carreira artística ao integrar a primeira turma de alunos da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), fundada em Salvador, em 1956, pelo diretor pernambucano Martim Gonçalves (1919-1973). Na universidade, ...

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Biografia

Sonia Robatto Fernandes (Salvador, BA, 1938). Atriz, escritora, editora, bibliotecária, jornalista e empresária. Ingressa na carreira artística ao integrar a primeira turma de alunos da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), fundada em Salvador, em 1956, pelo diretor pernambucano Martim Gonçalves (1919-1973). Na universidade, participa da companhia teatral A Barca e atua em espetáculos importantes das artes cênicas na Bahia da década de 1950, dentre os quais Senhorita Júlia, de August Strindberg (1849-1912), e A Almanjarra, de Artur Azevedo (1855-1908). Eles são encenados, respectivamente, por Martim Gonçalves e Antonio Patiño, ambos em 1958. Robatto é escalada para ser uma das protagonistas da peça As Três Irmãs (Tchekhov), sob direção de Gianni Ratto (1916-2005), ao lado das atrizes Nilda Spencer e Domitila Amaral.

Sua trajetória é pontuada, ainda, pela representação de personagens bíblicos, em especial a Nossa Senhora, que interpreta pela primeira vez em O Boi e o Burro a Caminho de Belém, montada em 1957 por Martim Gonçalves no Parque da Reitoria da então Universidade da Bahia. Pertence à turma de alunos dissidentes da Escola de Teatro que rompem com Martim Gonçalves e se afastam da vida acadêmica para criar a Sociedade Teatro dos Novos, responsável pela fundação do Teatro Vila Velha (TVV), patrimônio da cultura baiana. No novo espaço, sob o comando do diretor João Augusto, Robatto itinera por diversas cidades do interior do estado, se apresentando em praças públicas. Em 1964, representa Maria, personagem do espetáculo Eles Não Usam Bleque-tai,1 de Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006), dirigido por João Augusto. A interpretação, uma das mais importantes de sua carreira, marca a inauguração do TVV.

Muda-se para São Paulo e volta-se para a literatura, lançando mais de 400 livros para crianças. Depois de 34 anos, a atriz retorna aos palcos de Salvador, em 1998, na montagem Um Tal de Dom Quixote, dirigida por Marcio Meirelles. Na década de 2000, o mesmo diretor leva à cena duas adaptações de textos escritos por Sonia Robatto: Pé de Guerra e O Olho de Deus - O Avesso dos Retalhos, ambas com a presença da própria autora no elenco.

Análise

A estreia de Sonia Robatto como atriz acontece na mesma década em que Salvador passa por um processo de assimilação de aspectos culturais e artísticos modernistas. Junto a isso, há um intenso movimento cultural sendo gestado por personalidades como a coreógrafa polonesa Janka Rudzka, o escritor português Agostinho da Silva e o maestro alemão Hanks Koellreuter. Nos anos 1950, ela se integra a esse contexto ao ingressar na primeira turma de alunos da escola de Teatro da Universidade da Bahia. A riqueza cultural e a vocação para a criação artística, no entanto, têm origem na própria família: Sonia é filha do cineasta Alexandre Robatto e irmã do fotógrafo Silvio Robatto, que nessa época forma com a dançarina e coreógrafa Lia Robatto um dos casais ícones da "vanguarda" artística baiana.

Sua trajetória é pontuada por momentos emblemáticos da cultura na Bahia: além de ser uma das mulheres pioneiras da Escola de Teatro da UFBA, ela ajuda a fundar, em 1959, a Sociedade Teatro dos Novos. Essa sociedade passa a gerir o TVV, cujo marco inaugural é o espetáculo Eles Não Usam Bleque-Tai, lançado em 1964, no mesmo ano em que o país passa pelo golpe militar.

Como um dos nomes da linha de frente desta encenação, ela faz o papel de Maria, uma mulher que se engaja em um movimento de greve e defende suas ideologias, aproximando-se do teatro de viés político. Também politicamente, enfrenta dificuldades em manter uma companhia teatral sem dinheiro. Abraça a arte mambembe, viaja de caminhão, faz teatro de rua no interior da Bahia, dá aulas de improvisação para o elenco, vende ingressos de porta em porta, costura figurinos, pinta paredes, enfim, torna-se uma operária das artes cênicas.

A peça Eles Não Usam Bleque-Tai é a última que ela encena, antes de trocar Salvador por São Paulo e o teatro pela literatura infantil. A partir de 1967, dedica-se ao trabalho em grandes editoras brasileiras, assumindo, em especial, a criação e a direção da revista Recreio, importante publicação destinada ao público infantojuvenil, que é adotada em escolas e chega a vender cerca de um milhão de exemplares. Também cria o projeto Taba (reunindo em fascículos histórias infantis de escritores nacionais acompanhadas de discos com vozes de peso da MPB) e promove uma linha editorial voltada para a culinária. Outro destaque é o lançamento do seu livro Pé de Guerra, que ganha versão teatral assinada por Marcio Meirelles e é agraciada com o Prêmio Copene de melhor espetáculo baiano de 2000. Nesta peça, ponto alto da sua fase de reaproximação do teatro de Salvador após mais de três décadas, a atriz interpreta a si mesma e relembra a infância na Bahia em meio à Segunda Guerra Mundial.

Antes disso, o tipo físico de Robatto a faz interpretar, em 1998, mais um papel bíblico dentre os muitos de sua carreira. Desta vez ela representa a Virgem Maria com o corpo morto de Jesus nos braços (a Pietá) em Um Tal de Dom Quixote, encenada por 52 artistas para celebrar a reabertura do TVV depois de uma ampla reforma. No ano seguinte a atriz volta a morar na cidade onde nasceu. Compõem este novo momento atuações em montagens como Cartas Abertas (2005), A Geladeira (2007) e O Olhar Inventa o Mundo (2008).

Uma das histórias de seu farto repertório literário é Ciranda do Medo, que em 2007 é levada ao palco pela diretora baiana Débora Landim em um elogiado espetáculo conduzido por um elenco de crianças. Em 2012, outra obra de sua autoria, O Olho de Deus, entra em cena pelas mãos de Marcio Meirelles, que novamente transforma em imagens algumas das características da arte de Sonia Robatto: a velha Bahia, o tempo e a memória.

Nota
1 O título é uma corruptela derivada do nome original da peça Eles Não Usam Black-Tie.

Espetáculos 2

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Fontes de pesquisa 9

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  • EICHBAUER, Hélio; VELOSO, Dedé. Arte na Bahia, teatro na universidade: 1956 a 1961. Salvador: Corrupio: Empresa Gráfica da Bahia, 1990.
  • FRANCO, Aninha. O teatro na Bahia através da imprensa: século XX. Salvador: FCJA: Cofic, FCEBA, 1994.
  • HAZIN, Elaine. Sônia Robatto com os pés fincados na Bahia. Correio da Bahia, Caderno Folha da Bahia, Salvador, 21 abr. 1999, p. 7.
  • MIRANDA, Doris. Com caligrafia feminina. Correio da Bahia, Caderno Folha da Bahia, Salvador, 7 mar. 2005, p.1.
  • PROGRAMA do espetáculo Pé de guerra. Marcio Meirelles, Salvador, Teatro Vila Velha, out. 2007.
  • ROBATTO, Sonia: depoimento. Salvador, 2 nov. 2012. Entrevistador: Marcos Uzel.
  • UZEL, Marcos. A noite do teatro baiano. Salvador: P55 Edições, 2010.
  • ____________. O teatro do bando: negro, baiano e popular. Salvador: P55 Edições, 2003.
  • ______________. Pé de guerra: memórias de uma menina na guerra da Bahia. São Paulo: Editora 34, 1996.

Como citar

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