Artigo da seção pessoas Xisto Bahia

Xisto Bahia

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deXisto Bahia: 1841 Local de nascimento: (Brasil / Bahia / Salvador) | Data de morte 1894 Local de morte: (Brasil / Minas Gerais / Caxambu)

Xisto de Paula Bahia (Salvador, Bahia, 1841 – Caxambu, Minas Gerais, 1894). Compositor, cantor e ator. Inicia carreira aos 17 anos. Ingressa como amador no grupo teatral Regeneração Dramática, escrevendo e representando em um teatro localizado na Rua São José de Cima, bairro soteropolitano de Barbalho. Em 1858, participa como corista na Companhia Lírica Clemente Mugnai e, no ano seguinte, canta como barítono no Teatro São João, em Salvador. Transfere-se para a companhia de seu cunhado, Antonio Araújo, com a qual excursiona pelas principais cidades da província.

Em 1864, deixa a Bahia e excursiona pela região Nordeste do país, entre Ceará e Maranhão. Atravessa um período difícil na carreira: frequenta a boêmia e esquece-se de estudar os papéis que deve interpretar. Em 1873, retorna à Bahia e recupera a carreira, dedicada mais ao teatro nessa nova fase. Ingressa na Companhia de Mágicas, de Lopes Cardoso. O grupo apresenta as peças O Ovo Mágico e Milagre de N. Sra. De Nazaré, além de montar a comédia de tendência republicana e abolicionista, escrita por Xisto, Duas Páginas de um Livro. Em 1875, estreia no Rio de Janeiro, no Teatro Ginásio, com a Companhia de Vicente Pinto de Oliveira. A atuação do cantor alcança sucesso e rende-lhe convites para apresentações em teatros e salões aristocráticos de Botafogo.

Em 1878, participa da inauguração do Teatro da Paz, em Belém, Pará, com o drama As Duas Órfãs, do dramaturgo francês Adolphe Philippe, conhecido como D’Ennery (1811-1899). A peça alcança grande êxito e, em seguida, o ator é convidado para atuar na montagem de Uma Noite de Reis na Bahia, do escritor Arthur Azevedo (1855-1908), no mesmo teatro. Em 1879, exibe-se novamente e pela última vez na Bahia. De volta ao Rio de Janeiro, integra o conjunto do dramaturgo e empresário Furtado Coelho (1831-1900) e o elenco do empresário teatral Jacinto Heller (1834-1909). Em 1887, recebe da empresa Dias Braga a direção do Teatro Lucinda, onde monta algumas peças. Desiludido com a situação das artes no Brasil, afasta-se dos palcos em 1891, trabalhando como amanuense em uma penitenciária de Niterói, de onde é demitido no ano seguinte. Volta à cena em 1893, pela última vez, com a Companhia Garrido, no Teatro Apolo, com O Filho do Averno. A propósito da peça, Arthur Azevedo publica no semanário Álbum um elogioso retrato de Xisto Bahia.

No ano de 1893, o empresário português Souza Bastos contrata o ator baiano para atuar no Teatro das Novidades, em Lisboa. A excursão no Brasil, entretanto, não se efetiva por causa da revolta da Armada, ocorrida em setembro daquele ano, na qual muitos teatros são fechados. Com saúde debilitada, Xisto Bahia retira-se para Caxambu, Minas Gerais, onde morre no ano seguinte, aos 53 anos de idade.

 

Análise 

Desde a independência, o Brasil procura desconstruir o aparelho administrativo colonial e seus comandos, internalizar os mecanismos burocráticos e unificar o território nacional. Nesse movimento, Salvador e o Rio de Janeiro acompanham o surgimento de uma classe média que busca desenvolver um padrão cultural distinto das classes menos abastadas.

As serestas e serenatas noturnas passam a ser cultivadas por essa nova camada de homens livres, que possuem poderes aquisitivos diversos. Entre eles, há desde cancioneiros atuantes nos salões da alta sociedade até seresteiros boêmios de ruas reprimidos pela polícia. Segundo o pesquisador José Ramos Tinhorão, entre os primeiros, estão os músicos bem-relacionados com a classe alta; entre os segundos, “sestrosos mulatos de cabelo repartido ao meio, sempre muito empenhados em igualar-se aos seus êmulos de salão”, que já não são perseguidos como escravos, mas também não têm posses.

Nesse momento no Brasil, o memorialista Afonso Ruy descreve a Freguesia de Santo Antônio de Além do Carmo, região de Salvador onde nasce Xisto Bahia, como tendo gerado um “grande número dos nossos melhores cancioneiros, compositores e intérpretes do século passado. São de lá Chico Sepúlveda, Efren, Pe. Guilherme Sales, D. Augusto Baltazar da Silveira e uma corte imensa de grandes seresteiros que enchiam de harmonias as noites de luar da cidade adormecida, despertando ou embalando em sonhos de amor, os corações juvenis de nossas avós ou trazendo pesadelos e vigílias a muitos Otelos provincianos”. 

Por esse tempo, os trovadores cantam a modinha e o lundu, oscilando entre o tom melancólico das saudades e a erotização das danças africanas. As canções tematizam a relação entre as classes, explicitando de modo jocoso tudo aquilo que não se assume abertamente. O capelão mulato Domingos Caldas Barbosa (c. 1738-1800), filho de comerciante português e escrava negra de Angola, canta no século XVIII: 

Chegar aos pés de iaiá

Ouvir chamar preguiçoso

Levar um bofetãozinho

É bem bom, é bem gostoso

Januário da Silva Ramos, no século XIX, dá voz à escravaria: 

Yôyôzinho, vá-se embora 1

qu'eu não gosto de brincar

Não venha com seus carinhos

minha reza atrapalhar

Xisto Bahia não deixa de lado essa tradição e canta modinhas sentimentais, com tom marcadamente romântico, como em “Quis Debalde Varrer-te da Memória”, com versos do poeta pernambucano Plínio de Lima (1845-1873): 

Quis debalde varrer-te da memória

E o teu nome arrancar no coração

Amo-te sempre. Oh! Que martírio infindo!

Tem a força do luar esta paixão”

No lundu “Isto é Bom”, letra e música atribuídas ao compositor, tom é mais jocoso:

A saia da Carolina

Me custou cinco mil réis

Arrasta, mulata, a saia

Que eu dou mais cinco e são dez

Isto é bom, isto é bom que dói...

Como o próprio memorialista Afonso Ruy sublinha, o trovador que entre todos alcança maior fama é Xisto Bahia. Divide com o poeta e médico carioca Laurindo Rabelo (1826-1864), lugar de destaque entre os compositores de canção da época. Suas canções ressoam certo erotismo e voluptuosidade que permanece recalcado nos salões imperiais, restando às trovas um lugar pouco privilegiado. Porém, essa volúpia permanece no plano da curiosidade simples, e o seresteiro permanece empobrecido e melancólico com sua situação profissional. Em carta para o amigo e ex-companheiro de profissão Tomaz Antônio Espiúca, Xisto Bahia desabafa:

Sabes o que é, ou por outra, o que está sendo atualmente o teatro nesse país, compreendido os quatro pontos cardeais? O teatro, isto é, a arte, é uma traficância, um negócio de balcão, uma feira de novidades, em que a imprensa faz de arlequim à porta da barraca, anunciando e porfiando as sumidades conforme as gorjetas dos contratadores.

A documentação que cerca o nome de Xisto Bahia como ator é extensa e dá idéia de sua importante atuação no teatro brasileiro. Entretanto, aquela que se refere ao compositor ainda é contraditória, com fontes perdidas ou transmitidas de forma oral, originando controvérsias, lacunas e equívocos ainda não resolvidos. Ainda assim, muitos estudiosos concordam que ele é o compositor da primeira gravação feita no Brasil (“Isto é Bom”, em 1902, pela Casa Edison do Rio de Janeiro, Zonophone n. 10.001, de Frederico Figner), com o cantor Manuel Pedro dos Santos, conhecido como Baiano (1870-1944). Ganha ainda muitas regravações ao longo do século: Eduardo das Neves (1874-1919), pela Odeon, entre 1907; Jorge Veiga (1910-1979), em 1972; Nara Leão (1942-1989) em 1977; e, mais recentemente, Oswaldinho da Cuíca (1940), em 1999 e Monarco (1933), em 2003. É considerado ainda compositor dos lundus “A Mulata”, com Melo Morais Filho, também gravada por Nara Leão, “A Preta Mina”, com Ernesto de Souza (1864-1928), “O Lundu do Pescador”, com Artur Azevedo e das modinhas “A Duas Flores” e “Quis Debalde Varrer-te da Memória”. Sua “Modinha”, parceria com Fructuoso Viana, é gravada por Maria Lúcia Godoy (1924) e o pianista Miguel Proença (1939).

 

 

Notas

1. Ioiô, Sinhô ou Nhonhô são as formas comuns usadas pelos escravos para referirem-se a seus senhores.

Outras informações de Xisto Bahia:

  • Outros nomes
    • Xisto de Paula Bahia
  • Habilidades
    • Compositor
    • Cantor/Intérprete
    • Ator

Fontes de pesquisa (7)

  • ARAÚJO, Mozart deA modinha e o lundu no século XVIII. São Paulo: Ricordi, 1963. 
  • BAHIA, Xisto de Paula. O capadocio: scena comica brazileira. Rio de Janeiro: A. Fábregas, 1893.
  • FRANCHESCHI, Humberto Moraes. A Casa Edison e seu tempo. Rio de Janeiro: Sarapuí, 2002. 
  • RUY, Afonso. Boêmios e seresteiros do passado. Salvador: Livraria Progresso Editora, 1954.
  • BAHIA, Xisto de Paula. Duas páginas de um livro. Maranhão: Tipologia do Paiz, 1872
  • SANDRONI, Carlos. Feitiço Decente – Transformações do samba no Rio de Janeiro (1917- 1933). Rio de Janeiro: Jorge Zahar; Editora UFRJ, 2001.
  • TINHORÃO, José Ramos. Os sons que vêm da rua. Rio de Janeiro: Edições Tinhorão, 1976.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • XISTO Bahia. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa566805/xisto-bahia>. Acesso em: 30 de Mar. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7