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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Renata Carvalho

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 04.11.2021
1981 Brasil / São Paulo / Santos
Renata Carvalho (Santos, São Paulo, 1981). Atriz, roteirista, dramaturga, diretora. Artista ativista pela representatividade trans no teatro, investiga em cena dimensões estéticas e políticas de vivências travestis na sociedade brasileira. 

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Renata Carvalho (Santos, São Paulo, 1981). Atriz, roteirista, dramaturga, diretora. Artista ativista pela representatividade trans no teatro, investiga em cena dimensões estéticas e políticas de vivências travestis na sociedade brasileira. 

Nascida no litoral paulista, Renata interessa-se por atuar, escrever e dirigir desde os tempos de escola. Aos 15 anos, faz um curso de iniciação teatral com o diretor Valter Rodrigues, no Teatro Municipal de Santos. Começa sua trajetória teatral na atuação, mas, por quebrar expectativas de gênero, encontra resistência para representar personagens ditos masculinos, gênero com o qual havia sido identificada ao nascer.

Em setembro de 2002, funda a Cia. Ohm de Teatro, assinando trabalhos de direção ainda com seu primeiro nome de registro. Em 2004, aos 23 anos, é expulsa de casa e muda-se para o Rio de Janeiro. Por algum tempo, expressa-se também por meio da personagem drag Sandy Sabatelly.

Em 2007, torna-se agente de prevenção voluntária, pela Secretaria Municipal de Saúde de Santos, informando sobre Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), HIV, Tuberculose e Hepatites. Essa vivência contribui para o que ela chama de seu “percebimento” travesti.

Em 2009, após uma década na direção de espetáculos, volta a atuar, dessa vez como atriz, em Nossa vida como ela é..., dirigido por Maria Tornatore, entretecendo conto “O delicado” de Nelson Rodrigues (1912-1981) a notas biográficas de seus conflitos familiares e matrimoniais.   

Em 2012, com o monólogo Dentro de mim mora outra, inicia sua pesquisa sobre corpos dissidentes nas artes, abordando a travestilidade em relação à corporeidade e às estruturas coloniais e neocoloniais, capitalista e neoliberal. Segundo Renata, “é sobre quais corpos são válidos e quais não são. É muito mais vertical do que estar interpretando um corpo trans”1.

Em 2016, protagoniza o espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, escrito pela artista trans escocesa Jo Clifford (1950), com direção de Natália Mallo. Após estrear no Festival Internacional de Londrina (FILO), sofre censura judicial em Jundiaí (SP), Salvador (BA) e é retirado da programação do 28ª edição do Festival de Inverno de Garanhuns (PE), além de encontrar resistências religiosas em Rio de Janeiro e Recife, e de grupos conservadores em outras localidades. 

A peça instaura uma "mitologia transfeminista contemporânea”2, na qual a figura de Cristo é apresentada por um corpo trans, à sua imagem e semelhança, como celebração ao amor e à vida em sua diversidade, até que, ao fim, a atriz distribua pão para a plateia, ressignificando o rito cristão.

Em meio à repercussão, a atriz funda o Coletivo T, contra a transfobia nas artes, e o Movimento Nacional de Artistas Trans (Monart), que lança em março de 2017 o Manifesto Representatividade Trans, em defesa da presença de pessoas trans nas produções artísticas e contra a representação delas por atores cisgêneros3, prática chamada de “transfake”. 

Em resposta aos ataques sofridos, Renata une-se a outros artistas que também sofreram perseguição ou censura, Wagner Schwartz (1972), Elisabete Finger (1980) e Maikon K, e cria a peça Domínio Público (2018). De acordo com o crítico Patrick Pessoa, ao convidar o público "a fruir e a debater sem pressa e sem preconceitos o mais famoso de todos os quadros, construindo interpretações irônicas, contraditórias e absolutamente pessoais da 'mesma' obra, [os artistas]  mostram concretamente que a pluralidade é uma riqueza e que a vida da arte, assim como a da democracia, depende do incansável exercício de aproximação do outro, do que não se deixa decifrar definitivamente, do sorriso de Mona Lisa"4.

Com o solo Manifesto Transpofágico (2019), que estreia na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), dirigido por Luiz Fernando Marques (1977), Renata articula a trajetória pessoal à coletiva. Com o rosto sob a sombra, o corpo nu da artista mobiliza uma narrativa que articula a autobiografia a observações antropológicas e históricas  sobre a corporeidade trans.

Essa operação estética e política da artista incide sobre a visibilidade dos corpos e sobre a linguagem, de modo que, “a exemplo dos modernistas, devora, digere, assimila e regurgita artisticamente aquilo que foi deixado de fora da história, [e] que Renata apropriadamente nomeia de 'transcestralidade'"5, segundo a pesquisadora Ana Bernstein. A esse trabalho de dramaturgia, Renata chama de “travaturgia”, “uma elaboração em primeira pessoa que desestabiliza o modelo dramatúrgico tradicional de contar histórias de vidas alheias”6

No cinema, participa de filmes como Para onde voam as feiticeiras (2020), dirigido por Eliane Caffé (1961), Carla Caffé (1965) e Beto Amaral, e Vento Seco, produção goiana do mesmo ano, de Daniel Nolasco (1983), na qual representa Paula Astorga, uma mulher cisgênero líder sindical. Na TV, participa de minisséries como Pico da Neblina (2019), na HBO, e Toda forma de amor (2019), no Canal Brasil.

Em 2021, protagoniza a adaptação on-line de Liberdade, Liberdade, com dramaturgia de Dione Carlos, no papel de Vivian, em referência a uma física trans brasileira. 

Sua pesquisa sobre a corporeidade travesti prossegue e expande-se pela literatura, história e jornalismo, constituindo uma disciplina que denomina “transpologia", uma antropologia trans. Dessa maneira, Renata mobiliza vivências pessoais e coletivas em elaborações intelectuais, estéticas e políticas que tecem narrativas sob a perspectiva de corpos trans e legitimam suas presenças em espaços artísticos e sociais.

Notas

1. IRAN, Giusti. Renata Carvalho: ser travesti salvou a minha vida. Casa 1, 21 abr. 2020. Disponível em: https://www.casaum.org/renata-carvalho-ser-travesti-salvou-a-minha-vida/. Acesso em 22 out. 2021.

2. SIQUEIRA, Bruno. #09 Queer. Corpo (Hetero)(U)tópico do Jesus, Rainha do Céu. Quarta Parede, 15 jun. 2018. Disponível em: https://4parede.com/09-queer-corpo-heteroutopico-do-jesus-rainha-do-ceu/. Acesso em 21 out. 2021.

3. Cisgênero é um termo utilizado para se referir às pessoas que vivenciam e se identificam com o gênero que lhes foi desginada ao nascer. Diferentemente das pessoas transgênero, pessoas cis têm sua identidade alinhada à expectativa gênero socialmente atribuída ao seu sexo biológico. (JESUS, 2012)

4. PESSOA, Patrick. Domínio Público. O Globo, 10 nov. 2018. Disponível em: https://oglobo.globo.com/rioshow/critica-dominio-publico-23207649. Acesso em 21 out. 2021.

5. BERNSTEIN, Ana. Um manifesto urgente e necessário. MITsp. Disponível em:  https://mitsp.org/2019/um-manifesto-urgente-e-necessariopor-ana-bernstein/. Acesso em 21 out. 2021.

6. LEAL, Dodi. Mão na testa e trans pro frágil. MITsp. Disponível em: https://mitsp.org/2019/mao-na-testa-e-trans-pro-fragil-por-dodi-leal/. Acesso em 21 out. 2021.

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