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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Naruna Costa

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 24.06.2019
24.02.1983 Brasil / São Paulo / Taboão da Serra
Registro fotográfico Marcus Leoni

Naruna Costa, 2019

Naruna de Lima Costa (Taboão da Serra, São Paulo, 1983). Atriz, cantora, diretora. Sua atuação se caracteriza pela valorização poética das periferias paulistanas e da presença negra no cenário cultural. Ao longo de uma década, Naruna se firma no mundo artístico brasileiro graças ao impacto político e estético de seus trabalhos em teatro, televis...

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Naruna de Lima Costa (Taboão da Serra, São Paulo, 1983). Atriz, cantora, diretora. Sua atuação se caracteriza pela valorização poética das periferias paulistanas e da presença negra no cenário cultural. Ao longo de uma década, Naruna se firma no mundo artístico brasileiro graças ao impacto político e estético de seus trabalhos em teatro, televisão, cinema e música. Suas escolhas de personagens ilustram a resistência à opressão social e aos abismos econômicos do país.
 
Nascida em um município a 18 km de São Paulo, tem pouco contato com as artes durante a infância. Na adolescência, faz teatro na escola, em um pequeno grupo organizado pela professora de artes. Frequenta oficinas de artes cênicas ofertadas pelo grupo União Teatral Taboão (UTT). Em 2002, com outros artistas locais, começa a parceria que se torna o Grupo Clariô de Teatro, dedicado a pesquisar processos criativos na periferia. Em 2004, muda-se para a capital paulista e cursa a Escola de Artes Dramáticas da Universidade de São Paulo (EAD/USP). 

Em 2005, é inaugurado o Espaço Clariô, local para ensaios e apresentações do grupo e para realização de projetos culturais continuados, abertos à comunidade. O trabalho de maior repercussão do Clariô é Hospital da Gente (2008), com texto do escritor Marcelino Freire (1967) e direção de Mario Pazini (1962-2014). A peça bate recorde em número de apresentações teatrais na história de Taboão da Serra ao permanecer em cartaz por três anos na sede do grupo. 
 
A visibilidade do trabalho da atriz se amplia quando uma das cenas de Hospital da Gente, intitulada “Da paz”, é filmada e viraliza nas redes sociais. No vídeo, Naruna Costa interpreta um texto de Freire, dando voz a uma mãe que perdeu o filho para a violência contra as classes mais pobres. O monólogo é marcado pela indignação da personagem. “A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora aqui no meu tanque. A paz é muito branca”1, exalta o texto. A voz grave de Naruna e a expressividade das pausas e das variações de tom valorizam a contradição entre o cotidiano violento da mulher negra e as expectativas conciliatórias.
 
Com o grupo musical Clarianas, lança seu primeiro disco, Girandêra, em 2012. A banda, formada por cinco integrantes, inspira-se em repertório de tradição popular e da periferia e em cantos caboclos de matriz africana, nordestina e indígena.
 
Em 2016, Naruna assume o papel da cantora Elza Soares (1937) na peça Garrincha – Uma Ópera de Rua, dirigida pelo encenador norte-americano Bob Wilson (1941), no Sesc Pinheiros, em São Paulo. A partir da proposta estética de Wilson, Naruna não imita tom nem trejeitos da cantora, criando uma persona própria, que se relaciona aos temas que mais lhe instigam no cenário artístico – a vivência da mulher negra, a luta racial e a história do Brasil. “Entre as atrizes-cantoras, o foco inevitável é em Naruna Costa, não só pela voz bela e rouca no papel de Elza, mas pela intensidade emocional e pela ironia, por exemplo, numa cena de racismo”2, observa o crítico Nelson de Sá (1968). 
 
No ano seguinte, Naruna faz a personagem-título de Antígona em montagem dirigida por Moacir Chaves (1965) no Teatro Ágora. O fato de uma atriz negra atuar como a protagonista da tragédia de Sófocles (497 a.C – 406 a.C) propicia dimensões políticas pouco exploradas no texto original e que a própria Naruna assume como caminho para sua interpretação. Pelo papel, é indicada ao Prêmio Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA).
 
Em 2018, ganha o Prêmio APCA de melhor diretora pela peça Buraquinhos, ou O Vento é Inimigo do Picumã, com dramaturgia de Jhonny Salaberg, apresentada no Centro Cultural São Paulo. Por meio de metáforas, a peça acompanha as desventuras de um garoto negro de periferia, injustamente perseguido pela polícia por várias partes do mundo, da América Latina à África, unindo realismo fantástico e crítica social. Em artigo na Folha de S.Paulo, Amilton de Azevedo situa a direção de Naruna entre “a denúncia épica e o arrebatamento estético”, reverberando a poesia do texto em recursos “simples” e “imagens belas” que ressignificam os elementos do cotidiano3.

No audiovisual, Naruna participa de novelas, séries de TV e streaming, sendo várias delas narrativas do gênero policial. Na terceira temporada do seriado Força Tarefa (2011), na Rede Globo, interpreta a Sargento Lidiane, e em Rotas do Ódio (2018), que trata do dia a dia de uma delegacia de crimes raciais, a perita Guerra. Em Irmandade, série da Netflix produzida em 2019, faz a protagonista Cristina, advogada coagida pela polícia a se tornar informante dentro de um grupo criminoso.

Na tela ou no palco, Naruna Costa prioriza o retrato de mulheres fortes e determinadas, que carregam nuances de sua vivência com grupos sociais periféricos. Como atriz e diretora, cria formas estéticas comprometidas com as lutas contra sistemas violentos de exclusão e opressão.

Notas

1. GELEDÉS Instituto da Mulher Negra. Da Paz de Marcelino Freire por Naruna Costa. Portal Geledés, 17 nov. 2013. Disponível em: < https://www.geledes.org.br/da-paz-de-marcelino-freire-por-naruna-costa/ >.  Acesso em 09 mar. 2019.
 
2. DE SÁ, Nelson. Musical ‘Garrincha’ prefere Brasil de sonho a país desesperançado. Folha de S.Paulo, São Paulo, 2 maio 2016. Ilustrada, crítica. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/05/1766952-musical-garrincha-prefere-brasil-de-sonho-a-pais-desesperancado.shtml >.Acesso em: 13 mar. 2019. 
 
3.  AZEVEDO, Amilton de. Buraquinhos transita entre a denúncia épica e o arrebatamento estético. Folha de S.Paulo, São Paulo, 15 jul. 2018. Ilustrada, crítica. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/07/buraquinhos-transita-entre-a-denuncia-epica-e-o-arrebatamento-estetico.shtml >. Acesso em: 11 mar. 2019.

Espetáculos 6

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Mídias (1)

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Naruna Costa – Série Cada Voz (2019)
Naruna Costa fala sobre o teatro como resistência, pensando em sua trajetória desde a periferia até a Escola de Artes Dramáticas da Universidade de São Paulo (EAD/USP). Nesta, fez parte de uma turma com seis alunos negros, a mais diversa em meio século de existência da Escola. Em paralelo, traz seu olhar sobre o amor, a perda e o luto ao falar do companheiro Mário Pazini Jr., morto em 2014.

A Enciclopédia Itaú Cultural produz a série Cada Voz, em que personalidades da arte e cultura brasileiras são entrevistadas pelo fotógrafo Marcus Leoni. A série incorpora aspectos de suas trajetórias profissionais e pessoais, trazendo ao público um olhar próximo e sensível dos artistas.

Créditos
Presidente: Milú Villela
Diretor-superintendente: Eduardo Saron
Superintendente administrativo: Sérgio Miyazaki
Núcleo de Enciclopédia
Gerente: Tânia Rodrigues
Coordenação: Glaucy Tudda
Produção de conteúdo: Camila Nader
Núcleo de Audiovisual e Literatura
Gerente: Claudiney Ferreira
Coordenação: Kety Nassar
Produção audiovisual: Letícia Santos
Edição de conteúdo acessível: Richner Allan
Direção, edição e fotografia: Marcus Leoni
Assistência e montagem: Renata Willig
Assistência de fotografia: Rui Dias Monteiro

Fontes de pesquisa 10

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