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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Aluísio Azevedo

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 13.07.2021
14.04.1857 Brasil / Maranhão / São Luís
21.01.1913 Argentina / Buenos Aires / Buenos Aires
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

A Mortalha de Alzira, 1894
Aluísio Azevedo
Brasiliana Itaú/Acervo Banco Itaú

Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo (São Luís, Maranhão, 1857 - Buenos Aires, Argentina, 1913). Romancista, contista e dramaturgo. É irmão do escritor Artur Azevedo (1855 - 1908). Na juventude interessa-se por desenho e pintura e se matricula no Liceu Maranhense, em 1871. Cinco anos depois, vai para o Rio de Janeiro para ingressar na Academia ...

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Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo (São Luís, Maranhão, 1857 - Buenos Aires, Argentina, 1913). Romancista, contista e dramaturgo. É irmão do escritor Artur Azevedo (1855 - 1908). Na juventude interessa-se por desenho e pintura e se matricula no Liceu Maranhense, em 1871. Cinco anos depois, vai para o Rio de Janeiro para ingressar na Academia Imperial de Belas Artes (Aiba), inicia a colaboração em jornais e exerce a função de caricaturista em O Fígaro. Volta a São Luís, em razão da morte de seu pai, em 1878. Em sua cidade natal, estreia como romancista em 1879, com o livro Uma Lágrima de Mulher, que se aproxima da estética romântica. Participa da fundação, em 1880, do periódico anticlerical O Pensador, do qual se torna um dos redatores. No ano seguinte, lança o romance O Mulato, cujo teor crítico à sociedade maranhense e o realismo sem censura provocam grande polêmica, incluindo manifestações públicas de indignação em jornais, o que motiva seu retorno ao Rio de Janeiro, em 1881. Memórias de um Condenado e Mistérios da Tijuca são publicados em folhetim em 1882, respectivamente em A Gazetinha e Folha Nova. Aluísio Azevedo suprime partes e reescreve trechos de O Mulato, em 1889, para nova edição, de conteúdo menos polêmico. Vai para a Espanha, na condição de vice-cônsul, em 1895, após a edição do Livro de uma Sogra. Reúne contos, incluindo alguns da obra Demônios, e lança Pegadas, em 1897. Transfere-se para Yokohama, no Japão. Nomeado cônsul, se estabelece em La Plata, na Argentina, em 1899. Muda-se, após dois anos, para Cardiff, no País de Gales. É promovido a cônsul de primeira classe em Assunção, Paraguai, em 1910. Torna-se adido comercial do Brasil na Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai. No fim de agosto de 1912, o escritor sofre um atropelamento. Suspeita-se que sua morte, no início do ano 1913, seja consequência das sequelas do acidente. A obra de Aluísio Azevedo é quase toda ligada a jornais, para os quais desenha, escreve artigos e publica romances em folhetim. 

Análise

Costuma-se identificar duas vertentes na obra de Aluísio Azevedo. Uma delas é representada pelos folhetins comerciais (como A Condessa Vésper, Mistérios da Tijuca e A Mortalha de Alzira, entre outros), de forte apelo romântico, atendendo à expectativa média do público leitor da época e que corresponde ao esforço do escritor de profissionalizar sua literatura para viver da própria pena. A outra vertente, visivelmente superior, busca eliminar os excessos romanescos da primeira pela depuração do narrador e realizar os preceitos da escola naturalista em obras já concebidas para a edição definitiva em livro. A essa vertente pertencem o livro de estreia e as grandes realizações do escritor maranhense, como O Cortiço, Casa de Pensão e O Coruja, além de outras tentativas não tão felizes.

A alternância dessas duas vertentes no correr da trajetória do escritor demonstra a instabilidade de sua criação ficcional, com momentos altos, de que resultam esses grandes romances, mas logo seguidos de novas quedas acentuadas no folhetinesco. A historiografia tende a se ocupar apenas da segunda vertente desconsiderando por completo a primeira. Mais recentemente, porém, tem-se votado mais atenção à parcela folhetinesca de sua ficção para a compreensão mais ampla do projeto ficcional do escritor. Até porque tem-se constatado que ambas as vertentes se mostram imbricadas, pois certos episódios periféricos dos folhetins são retomados e reelaborados nos romances naturalistas, tornando-se mesmo estruturalmente centrais em alguns casos, depois de submetidos à depuração do estilo e à reordenação ou supressão de alguns episódios. O reconhecimento dessa dependência, é certo, não chega a comprometer a centralidade, no conjunto de sua produção, de romances como O Cortiço, reconhecida obra-prima e o mais popular de seus livros.

O Cortiço faz parte de um projeto ficcional mais amplo, intitulado Brasileiros Antigos e Modernos, uma tentativa de constituir, em perspectiva histórica, um amplo painel da sociedade brasileira em seu processo formador, mas que não chega a ser realizado, restando apenas esse romance. O irmão do escritor, Artur Azevedo (1855 - 1908), define O Cortiço como um "estudo consciencioso do bas-fond da sociedade fluminense". O livro é, supostamente, o produto de um estudo in loco, com a população heterogênea das estalagens, segundo depõe o amigo Pardal Mallet (1864 - 1894).

Na obra é inegável também a influência do naturalismo e das concepções de romance experimental do escritor francês Émile Zola (1840 - 1902), especialmente no livro L'Assomoir, "o primeiro romance sobre o povo que não mente e tem o odor do povo", segundo a definição do próprio autor. Aluísio Azevedo, aliás, sempre é mais feliz na representação de coletividades do que na análise psicológica de individualidades. Segundo observa Lucia Miguel-Pereira (1901 - 1959): "Os seus melhores livros são aqueles em que põe em cena muita gente, em que a ação resulta não do desenvolvimento de uma personagem, mas da coexistência de várias, mais apreciadas nas suas relações do que na sua vida interior".

O Cortiço é, assim, um romance de caracteres múltiplos, de destino coletivo. Seu tema versa em torno da degradação e dos males associados à promiscuidade da vida dos trabalhadores pobres amontoados nas habitações coletivas, submetidos à exploração por parte do capitalista (no caso, um português) movido pela gana de enriquecimento e ascensão. Antonio Candido (1918) vê no romance uma dimensão alegórica: as descrições da vida cotidiana da habitação popular fluminense contêm, implicitamente, uma representação do Brasil em miniatura, com sua mistura de raças, o choque entre elas e a natureza fascinadora e difícil, e o capitalista estrangeiro postado na entrada, vigiando, extorquindo, mandando...

A acumulação assume no romance a forma odiosa de exploração desalmada do brasileiro pelo estrangeiro, João Romão, que reproduz o comportamento-padrão do português forasteiro, ganhador de fortuna à custa do natural da terra. Mais do que o sentimento de injustiça social e exploração de classe, o romance é marcado por uma visão nacionalista, condenando o abuso do imigrante "que vem tirar o nosso sangue". Ainda de acordo com Candido, Aluísio Azevedo exprime no romance a visão pessimista de sua época, segundo a qual a força da "natureza brasileira" é incompatível com a ordem e a ponderação dos costumes europeus. Essa visão, marcada pela concepção determinista do meio físico, contrasta com a euforia patriótica dos românticos.

Obras 6

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Reprodução Fotográfica Horst Merkel
Reprodução Fotográfica Horst Merkel
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Espetáculos 4

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Fontes de pesquisa 3

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  • CANDIDO, Antonio. De cortiço a cortiço. In:____. O discurso e a cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1993.
  • LEVIN, Orna Messer. Aluísio Azevedo romancista. In: AZEVEDO, A. Ficção completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005.
  • PEREIRA, Lúcia Miguel. História da Literatura Brasileira: Prosa de Ficção (1870 a 1920). Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1988.

Como citar

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