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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Almirante

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 06.03.2017
19.02.1908 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
22.12.1980 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Henrique Foréis Domingues (Rio de Janeiro RJ 1908 - idem 1980). Compositor, cantor, radialista, pesquisador. É apelidado de Almirante na juventude, quando serve a Reserva Naval. Inicia-se em 1928 no grupo amador Flor do Tempo como pandeirista, e mais tarde como cantor no Bando de Tangarás - com Braguinha, Alvinho, Henrique Brito e Noel Rosa. Em ...

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Biografia

Henrique Foréis Domingues (Rio de Janeiro RJ 1908 - idem 1980). Compositor, cantor, radialista, pesquisador. É apelidado de Almirante na juventude, quando serve a Reserva Naval. Inicia-se em 1928 no grupo amador Flor do Tempo como pandeirista, e mais tarde como cantor no Bando de Tangarás - com Braguinha, Alvinho, Henrique Brito e Noel Rosa. Em 1929 grava o cateretê Anedotas e a embolada Galo Garnizé. Compõe os sambas Mulher Exigente, em 1929, Batente e Macumba em Mangueira, em 1930. Com Homero Dornelas compõe o samba Na Pavuna (1930); com João de Barro a marcha Lataria (1930); e com Puruca e Canuto o samba Já Não Posso Mais (1931).

Grava Moreninha da Praia (1933), de João de Barro; o samba O Orvalho Vem Caindo (1934), de Noel Rosa e Kid Pepe; Tarzan, o Filho do Alfaiate (1936), de Noel; História do Brasil (1934) e Hino do Carnaval Brasileiro (1939), de Lamartine Babo; Dobradiça (1934), frevo de Nelson Ferreira; Que Barulho É Esse e Vou Me Casar no Uruguai (1935), de Gadé e Valfrido Silva; Vou Cair no Frevo (1935), de Capiba; as marchas Deixa a Lua Sossegada (1935), Yes, Nós Temos Banana e o paso doble Touradas em Madri (1938), de João de Barro e Alberto Ribeiro; Faustina e Olha o Grude Formado (1937), de Gadé; Apanhei um Resfriado (1937), de Leonel Azevedo e Sá Róris; Boneca de Piche (1938) em dueto com Carmen Miranda, de Ary Barroso, Luis Iglesias e Luis Peixoto; Tudo em P, de Jorge Nóbrega e Angelo Delatre; e a mazurca Vida Marvada (1938), parceria com Lucio Mendonça de Azevedo. Em duo com Jararaca (coautor com Vicente Paiva), lança a marcha Mamãe Eu Quero, em 1937. É parceiro de Noel Rosa em A Melhor do Planeta, gravada por Aracy de Almeida em 1955; de João de Barro, em Azulão (1933); e de Valdo de Abreu, em Bambo de Bambu (s.d.), versão da embolada de Donga e Patrício Teixeira.

Contracena com Carmen Miranda nos filmes Estudantes (1935) e Banana da Terra (1938). Atua nos filmes Alô, Alô, Brasil (1935), dirigido por Wallace Downey, e Alô, Alô Carnaval (1936), dirigido por Adhemar Gonzaga e roteirizado por João de Barro e Alberto Ribeiro. Dubla personagens dos desenhos Branca de Neve (1937), Pinóquio (1940) e Dumbo (1941), produzidos por Walt Disney.

É contratado como cantor do Programa Casé, em 1932. Em 1935 produz o quadro Curiosidades Musicais. A partir de 1936, dedica-se quase exclusivamente à produção radiofônica. Lança em 1938 o programa de auditório Caixa de Perguntas e em 1940 Instantâneos Sonoros do Brasil, com arranjos do maestro Radamés Gnattali. Na Rádio Tupi produz as séries História do Rio pela Música, em 1941, e Incrível! Fantástico! Extraordinário!, em 1947. Volta à Rádio Nacional em 1944 e realiza os programas História das Orquestras e dos Músicos Brasileiros e Aquarelas do Brasil. Em 1947 produz O Pessoal da Velha Guarda (Rádio Tupi), com Pixinguinha, Donga, João da Bahiana e Benedito Lacerda. Promove em São Paulo o Festival da Velha Guarda com esses músicos (duas edições: 1954 e 1955), e grava em disco homônimo a chula raiada Patrão, Prenda Seu Gado (1955).

Vítima de um derrame, encerra a carreira de radialista em 1958. Escreve para as colunas Cantinho das Melodias e Pingos de Folclore no jornal O Dia, e, em 1963, a biografia de Noel Rosa. Em 1964, seu acervo pessoal passa a integrar o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS/RJ), inaugurado em 1965, no qual atua no Conselho de MPB e atende os pesquisadores até o fim da vida.

Análise

A trajetória de Almirante remonta ao próprio desenvolvimento da música popular na primeira metade do século XX no Rio de Janeiro. Circulando entre diversas esferas da produção cultural no período - rádio, disco, cinema, palco -, ele constrói sua carreira sobre três pilares: a música, os meios de comunicação e a pesquisa.

Como cantor, se destaca sobretudo como intérprete de coco e embolada, aproveitando sua habilidade e boa dicção para cantar em ritmo ligeiro. Influenciado pela cultura nordestina que permeia a cena musical carioca dos anos 1920, por meio de compositores como Augusto Calheiros, do grupo Turunas da Mauriceia, e João Pernambuco, desenvolve o gosto pelas tradições populares, que se reflete tanto na sua produção musical quanto nos programas radiofônicos que realiza posteriormente. Sua maneira de cantar valoriza a proximidade à fala, evitando modulações, vibratos e falsetes. Como compositor essa opção se traduz em melodias simples, cujos temas exploram o universo folclórico e são baseados no estilo repentista. Em seu repertório são menos frequentes músicas românticas: prefere canções jocosas, temas regionais e tradicionais adaptados. Essa tendência para o humor o aproxima do amigo e parceiro musical Noel Rosa, de quem divulga vários sucessos. Destaca-se ainda na composição de sambas e batuques, gêneros que começam a se popularizar nos grandes centros urbanos na época. Entre suas criações está o samba Na Pavuna (1929), parceria com Homero Dornelas, cujo registro é um marco nas gravações elétricas no país. Concebida como um samba de rua, com a batucada das escolas de samba, sua gravação inclui, além do bandolim de Luperce Miranda e do piano de Carolina Cardoso de Menezes, tamborins, cuícas e pandeiros, instrumentos até então não utilizados em estúdio por se acreditar que a cera do disco não fosse capaz de registrar as batidas da percussão. Uma das consequências do sucesso de Na Pavuna é a abertura de um campo de trabalho para os ritmistas nas gravadoras, entre eles se destacam João da Baiana, Tio Faustino, Alcebíades Barcelos (Bide) e Armando Marçal.

Apesar de ter alcançado sucesso considerável como cantor e compositor nos anos 1930, Almirante se destaca com sua obra sobretudo pela atuação no meio radiofônico, no qual se torna conhecido como "a maior patente". Além de contribuir para a profissionalização do meio e diversificação da programação, empreende um esforço pioneiro de documentação da música popular brasileira, o que faz dele uma figura imprescindível para quem deseja pesquisar sua história. Em seus programas, densamente pesquisados e didaticamente organizados, Almirante contribui ainda para a orientação estética da música popular, definindo o que deve ser considerado "autêntico" e "legítimo". Em realizações como O Pessoal da Velha Guarda, reaviva gêneros musicais surgidos e difundidos entre o fim do século XIX e meados do XX, e constrói um sentido de tradição, ao apresentar jovens músicos como Jacob do Bandolim e Altamiro Carrilho, por ele considerados como os "novos da velha-guarda".

Juntamente com seu acervo, consolidado na organização do MIS/RJ, sua atuação no rádio tem importância fundamental na construção da memória e da história da música urbana. Pela atuação como pesquisador, Almirante contribui para a própria criação do conceito de "música popular brasileira", estabelecendo recortes e indícios para a elaboração de uma "linha evolutiva", mais tarde adotada por outros pesquisadores do tema.

Fontes de pesquisa 10

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  • ALENCAR, Edigar. O fantástico e extraordinário Almirante. In: Claridade e sombra na música do povo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984.
  • CABRAL, Sérgio. No tempo de Almirante. Uma história do Rádio e da MPB. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990. 399p.
  • DOMINGUES, Henrique Foreis (Almirante). No Tempo de Noel Rosa. 2.ed. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S.A., 1977.
  • GURGUEIRA, Fernando L. A integração nacional pelas ondas: o rádio no Estado Novo. 1995. 182p. Dissertação (Mestrado em História Social) - Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 1995.
  • LIMA, Giuliana Souza de. Almirante, "a mais alta patente do rádio", e a construção da história da música popular brasileira (1938-1958). 2012, 176p. Dissertação (Mestrado em História Social) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.
  • MORAES, José Geraldo Vinci de, "História e historiadores da música popular no Brasil", In: Latin American Music Review, 28/2. Austin, Texas, EUA, 2007; pp.271-299.
  • NAPOLITANO, Marcos. A síncope das idéias. A questão da tradição na música popular brasileira. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2007. 159p.
  • PAES, Anna. Almirante e o Pessoal da Velha Guarda: memória, história e identidade. 2012. 241 f. Dissertação (Mestrado em Música) - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012.
  • REIS, José Roberto Franco. "Rádio, nacionalismo e cultura popular durante o Estado Novo: a pedagogia radiofônica do Almirante". In: Temas de Ensino Médio. Formação. Rio de Janeiro: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, 2006; pp. 63-75.
  • SAROLDI, Luiz Carlos e MOREIRA, Sonia Virgínia. Rádio Nacional: o Brasil em sintonia. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1984. 223p.

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