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Música

Vadico

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
24.06.1910 Brasil / São Paulo / São Paulo
11.06.1962 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Osvaldo de Almeida Gogliano (São Paulo SP 1910 - Rio de Janeiro RJ 1962). Compositor, regente e pianista. Filho do mineiro de origem italiana Erasmino Gogliano e de Maria Adelaide de Almeida. Nasce no tradicional bairro paulistano do Brás, que no início do século XX era habitado predominantemente por descendentes de imigrantes italianos. Sua fam...

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Biografia

Osvaldo de Almeida Gogliano (São Paulo SP 1910 - Rio de Janeiro RJ 1962). Compositor, regente e pianista. Filho do mineiro de origem italiana Erasmino Gogliano e de Maria Adelaide de Almeida. Nasce no tradicional bairro paulistano do Brás, que no início do século XX era habitado predominantemente por descendentes de imigrantes italianos. Sua família é composta de quatro irmãos, todos músicos.

O interesse de Vadico pela música começa somente na adolescência, ao iniciar os estudos sistemáticos de piano. Aos 18 anos, como músico profissional, toca na capital e em cidades do interior de São Paulo. Em 1928 vence um concurso de música com a marcha Isso Mesmo É que Eu Quero e, no ano seguinte, sua composição Deixei de Ser Otário é gravada por Genésio Arruda, pelo selo Columbia, e incluída no filme Acabaram-se os Otários, dirigido por Luís de Barros. Esses fatos reforçam a opção pela carreira de músico. Muda-se em 1931 para a cidade do Rio de Janeiro tendo em vista a evolução profissional, como é comum na época. Por intermédio do compositor paulista Eduardo Souto, consegue lançar, em 1932, seu samba Silêncio, interpretado por Luís Barbosa e Vitório Lattari, com o qual vence um concurso do jornal Correio da Manhã. A música é incluída na revista Bibelot de Chocolat. Há registro na discografia da gravadora Columbia de outros dois fonogramas de Genésio Arruda com músicas de Vadico: A Mulher do Zebedeu (1929) e Isso Mesmo É que Eu Quero (1930). Francisco Alves grava seu samba Arranjei Outra, parceria com Dan Malio Carneiro, pela gravadora Odeon, em 1930. É também Eduardo Souto que o apresenta a Noel Rosa e sugere a introdução de letra em uma de suas melodias, originando a canção Feitio de Oração (gravado por Francisco Alves, em 1933). Assim inicia a parceria que produz clássicos como esse e outros como Feitiço da Vila e Pra que Mentir (1934), Conversa de Botequim (1935), além de Tarzan, o Filho do Alfaiate (1936) entre outras canções.

Simultaneamente à carreira de compositor e arranjador, atua como pianista em escolas de dança, boates, cassinos e acompanhando orquestras, como a de Luís Americano. Nessa condição faz apresentações com a Orquestra Romeu Silva, em 1939, nos Estados Unidos. No ano seguinte retorna a esse país como pianista do Bando da Lua, conjunto musical que acompanha Carmen Miranda, e faz arranjos orquestrais para filmes dos estúdios Disney, como Saludos Amigos, realiza shows individuais, integra diversas orquestras e companhias de dança. Além das atividades profissionais, estuda arranjo e harmonia com o compositor italiano Mário Castelnuovo Tedesco.

Retorna ao Brasil em 1954 e inicia mais uma fase da carreira. Na década de 1950 trabalha como pianista e arranjador de vários conjuntos de casas noturnas como Casablanca, Fred's e Sacha's e de orquestras da gravadora Continental e da Rádio Mayrink Veiga. E torna-se diretor musical da TV Rio em 1957. As inúmeras atividades como instrumentista e arranjador limitam sua produção como compositor, cada vez mais rara.  Ainda nos anos 1950 é convidado por Vinicius de Moraes a compor para o espetáculo Orfeu da Conceição. Doente, recusa o convite e em seu lugar assume Antonio Carlos Jobim.

 

Comentário crítico

A trajetória artística de Vadico deve ser compreendida em sua tripla condição de compositor, arranjador e instrumentista. Essa circunstância apresenta do ponto de vista individual a formação diversificada e complementar do artista e ao mesmo tempo revela as possibilidades sociais e culturais que a expansão do mundo do entretenimento e dos meios de comunicação oferece a partir da década de 1930. Sua carreira se desenvolve nesse processo de ampliação da indústria fonográfica e radiofônica que comporta grandes orquestras, que exigem bons instrumentistas e arranjadores. E nessa época as casas noturnas, no Brasil e no exterior, mantêm conjuntos e pequenas orquestras regulares que permitem a profissionalização do músico e arranjador, como Vadico. Por fim, ele também é presença atuante na indústria cinematográfica, compondo melodias ou formulando arranjos para filmes nacionais e estrangeiros. Sua carreira de compositor desponta justamente nessa área quando sua canção Deixei de Ser Otário (1929), gravada por Genésio Arruda, é introduzida no filme Acabaram-se os Otários, de Luís de Barros.

Porém, a carreira de compositor do paulistano se inicia de fato na década de 1930 e de maneira bem-sucedida ao estabelecer, assim que chega ao Rio de Janeiro, parceria com Noel Rosa. Com Noel, desenvolve breve e inventiva parceria que cria canções como Feitio de Oração (1933), Feitiço da Vila e Pra que Mentir (ambas de 1934) e Conversa de Botequim (1935). Essas quatro composições tornam-se clássicos da música popular, consagradas, sobretudo pela presença de Noel como letrista. Além delas, a dupla compõe Mais um Samba Popular (1934), TarzanO Filho do Alfaiate, Cem Mil-Réis e Só Pode Ser Você (1936), Provei e Quantos Beijos (1937). A forte presença do compositor carioca no cenário da música popular e sua posterior consagração pela historiografia deixam Vadico em segundo plano na parceria e na memória da cultura popular. Colabora para essa situação o fato de ele ter ficado muito tempo nos Estados Unidos, colocando de lado a composição para centrar seu trabalho em arranjos e orquestrações. Seu retorno em meados da década de 1950 reforça essa situação, pois permanece atuando nesse campo. De qualquer modo, é possível indicar que as melodias e os arranjos construídos por ele são fortemente marcadas pelo hibridismo característico dos anos 1930. São melodias ornamentadas, movimentadas e criativas e, apesar da nítida base instrumental, abertas à formulação da canção, encontrando em Noel Rosa o parceiro ideal. Já as estruturas harmônicas contêm elementos e encadeamentos evidentemente jazzísticos, prática que também está no horizonte de outros compositores e arranjadores como Pixinguinha e Radamés Gnattali. Assim, com sua formação musical e atento a gêneros diversificados, Vadico traz inovações à música popular e antecipa certas práticas e valores que são desenvolvidos pela bossa nova no fim dos anos 1950.

A partir da década de 1940 sua carreira de compositor sofre uma retração. A vida profissional que desenvolve nos Estados Unidos fica concentrada na prática instrumental e nos arranjos. É preciso levar em conta, no entanto, que a prática de arranjador também é criadora e, portanto, relativa à esfera da composição. Do arranjador exige-se bom conhecimento dos instrumentos, da linguagem musical e criatividade para recompor as melodias e criações de outros compositores. Na dupla função de instrumentista e arranjador, ele acompanha Carmem Miranda e o Bando da Lua em excursões pela América do Norte e Europa. Além disso, faz arranjos para filmes dos estúdios da Universal, Twentieth Century Fox e Disney. Para ampliar e aprofundar seus conhecimentos musicais estuda harmonia, contraponto, composição e regência com o maestro italiano radicado nos Estados Unidos Mario Castelnuovo Tedesco, reconhecido, sobretudo, por sua obra violonística. No fim dos anos 1940, Vadico integra a companhia da bailarina e coreógrafa norte-americana Katherine Dunham (1909 - 2006), composta basicamente de bailarinos negros e fortemente influenciada pelo jazz, blues e ritmos afro-americanos, com a qual excursiona pelos Estados Unidos, Europa e América do Sul. Chega a chefiar a orquestra da companhia e permanece nela até 1951, quando passa a tocar com uma orquestra cubana radicada em Nova York.

Ao retornar ao Brasil, em 1954, mantém vida muito ativa, mas sempre atuando como pianista e orquestrador. Assim, torna-se diretor das orquestras da gravadora Continental e da Rádio Mayrink Veiga. E ainda toca e faz arranjos para conjuntos e orquestras de casas noturnas como Casablanca, Fred's e Sacha's.

Em seus três discos lançados, Dançando com Vadico (1956), pela Continental, Festa Dentro da Noite I e II (1959), pela gravadora Festa, destacam mais seu lado intérprete e instrumentista, pois grava somente uma música de sua autoria no segundo disco, Vai Astor!, provavelmente dedicada ao trombonista Astor Silva, que faz um solo nessa faixa. Nos outros dois discos não há nenhuma canção própria, Vadico prefere interpretar compositores como Tom Jobim (Chega de Saudade e Brigas, nunca Mais), Noel Rosa (Você Vai se Quiser), Ataulfo Alves (Saudade Dela), Lamartine Babo (Minha Cabrocha) e Dorival Caymmi (Lá Vem a Baiana).

Apesar da carreira de compositor tornar-se secundária ao longo de sua trajetória, ele continua a criar durante esse período. Faz parceria com Aloysio de Oliveira (Guanabara), Vinicius de Moraes (Sempre a Esperar), e principalmente Marino Pinto, com quem compôs Nego, Julgamento, Até Quando, Prenúncio, Súplica e Prece, que recebe uma dezena de gravações e se torna um clássico do samba-canção. Suas composições populares somam-se por volta 80 criações, mas são foram registradas e gravadas. Algumas estão no LP Evocação III, de 1979, como as instrumentais Choro em Fá Menor e Chopp¸ em solo de piano de Amilton Godoy. Esse disco conta com arranjos de Theo de Barros e Edson José Alves e participação de Dominguinhos, Marcio Montarroyos, Raul de Barros, Edu da Gaita, Roberto Sion e Heraldo do Monte. Constam ainda algumas composições de perfil erudito, como alguns Prelúdios para Piano, um Prelúdio e Fuga, um Adágio e uma Sonatina, todas elas inéditas.

Fontes de pesquisa 5

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  • DIDIER, Carlos, MAXIMO, João. Noel Rosa. Uma biografia. Brasília, Ed. UnB, 1990.
  • MARCONDES, Marcos Antônio. (Ed.). Enciclopédia da Música Popular Brasileira: erudita, folclórica e popular. São Paulo: Art Editora,1977. 2 v.
  • RANGEL, Lúcio. Vadico. In: Idem. Samba, Jazz & Outras Notas. Rio de Janeiro: Agir, 2007. p. 123-125.
  • SENISE, Arnaldo José, Apresentação, In Evocação III. São Paulo, LP Estúdio Eldorado, 1979.
  • VASCONCELOS, Ari, Panorama da música popular brasileira. RJ, Ed. Martins, 1965.

Como citar

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