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Música

Cornélio Pires

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 29.03.2017
1884 Brasil / São Paulo / Tietê
1958 Brasil / São Paulo / São Paulo
Cornélio Pires (Tietê, São Paulo, 1884 - São Paulo, São Paulo, 1958). Compositor, folclorista, jornalista e produtor musical. De origem pobre e família numerosa da zona rural de Tietê, São Paulo, trabalha desde cedo em pequenos ofícios, como tipógrafo e comerciante. Frequenta a escola com regularidade e em 1901 viaja para a capital do estado par...

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Biografia

Cornélio Pires (Tietê, São Paulo, 1884 - São Paulo, São Paulo, 1958). Compositor, folclorista, jornalista e produtor musical. De origem pobre e família numerosa da zona rural de Tietê, São Paulo, trabalha desde cedo em pequenos ofícios, como tipógrafo e comerciante. Frequenta a escola com regularidade e em 1901 viaja para a capital do estado para cursar a faculdade de Farmácia. Reprovado, inicia a carreira em redação de jornais, como O Comércio de São Paulo, A Cidade de Santos (1905), O Movimento, de São Manoel, São Paulo (1907). Ao mesmo tempo participa das rodas boêmias paulistanas, destacando-se como bom contador de causos e piadas.

Em 1910 publica seus primeiros poemas, na revista O Malho, e o livro A Musa Caipira, começando a vida de escritor. No mesmo ano, apresenta-se no festival do Mackenzie College (atual Colégio Mackenzie), em São Paulo, e encena um velório típico das cidades do interior paulista, com catireiros, cururueiros, cantadores e dançarinos do estado mostrando a arte e o comportamento caipira. Tenta se estabelecer na cidade, mas tem dificuldade e por isso volta a Tietê. Ali se apresenta pela primeira vez como caipira em 1911 e segue publicando seus poemas. No ano seguinte é nomeado professor de ginástica na Escola Normal de Botucatu, em que permanece até 1914. A partir desse ano, faz espetáculos com palestras, causos e piadas, com os quais viaja pelo Brasil nas décadas de 1910 e 1920. Nessa época publica Quem Conta um Conto, Conversas ao Pé do Fogo e Cenas, e escreve para a revista O Pirralho e o jornal O Estado de S. Paulo.

Em 1929, organiza a Turma Caipira Cornélio Pires, com a qual realiza inúmeros espetáculos musicais e lança a Série Cornélio Pires, gravada em 78 rpm com financiamento próprio,pela gravadora Columbia, que, mais tarde,se transforma na Continental. Na década seguinte continua apresentando palestras e shows pelo país e na rádio Difusora de São Paulo. Publica a obra Samba e Cateretês, em 1932, e faz os filmes Brasil Pitoresco,1923, e Vamos Passear,1934.

Depois, as excursões diminuem, ele adere ao espiritismo e muda o tom das palestras e publicações. Funda em 1944 a Editora Cornélio Pires, de vida curta, pela qual publica seu último livro, Enciclopédia de Anedotas e Curiosidades, em 1945. Um ano mais tarde, cria a Cia. de Teatro Ambulante Cornélio Pires, com espetáculos itinerantes por cidades do interior de São Paulo, e é contratado pela Cia. Antarctica de São Paulo para fazer propaganda de bebida sem álcool em suas apresentações.

Nos anos 1950 retorna para Tietê com o objetivo de fundar uma casa de menores órfãos e dedicar-se a atividades religiosas.

Análise

A obra de Cornélio Pires tem papel central no processo de urbanização da música caipira e na formação do que se convenciona chamar de sertaneja. Se na década de 1910 a cultura originária do interior de São Paulo começa a ser divulgada timidamente nos centros urbanos, na passagem dos anos 1920 a 1930 ela ocupa lugar importante nos novos meios de difusão como o rádio, disco, palco dos teatros de revista e variedades. Inicialmente se destaca a figura isolada de Cornélio Pires com suas criações musicais, poéticas e humorísticas, difundidas nos teatros e em discos, mas nas décadas posteriores a música caipira ganha diferentes protagonistas e configurações.

Cornélio Pires é um artista popular e profissional de muitas faces, que transita pela prosa, poesia, conto, crônica, teatro, música, folclore, jornalismo, radiofonia e espetáculos. Apesar do caráter diversificado de atuação, o eixo central de sua produção é a preservação e divulgação da cultura caipira paulista. Como poeta e prosador, publica vários livros, sendo a maior parte deles composta de contos, crônicas e poesias com temática regionalista. Ao retratar com fidelidade o linguajar e o modo de pensar do caipira paulista, os comentadores de sua bibliografia consideram que ela revela o "dialeto caipira". Cornélio Pires constrói uma imagem positiva do caipira, isto é, o homem bom, simples, ingênuo, bem-humorado e piadista. Essa é uma visão que diverge da famosa figura do caipira Jeca Tatu, criada por Monteiro Lobato, que inicialmente via no caboclo a incapacidade para o trabalho eficiente, o medroso e derrotado.

Com essa orientação idealizadora do caboclo, Pires publica dezenas de livros, entre os mais importantes A Musa Caipira (1910), Tragédia Cabocla (1914), Quem Conta um Conto (1916), Conversas ao Pé do Fogo (1921), Sambas e Cateretês (1932). A partir da década de 1940 sua produção diminui em razão das transformações que a cultura caipira sofre nos meios de comunicação e de sua adesão ao espiritismo, que concentra sua atenção e produção intelectual.

Em sua vasta obra literária, ele utiliza as referências e o grande conhecimento que detém da cultura interiorana paulista. Produto de experiências individuais, do cotidiano e da preocupação em recolher e preservar essa cultura caipira, sua obra ganha autoridade de um ativo e importante trabalho etnográfico ou folclórico. Suas criações musicais e as destinadas ao mundo do espetáculo também podem ser enquadradas nesse sentido. É o que ocorre, por exemplo, na encenação do velório caipira, realizada no Colégio Mackenzie em 1910, em que se misturam causos e dupla de violeiros. Dessa experiência, ele cria o modelo que se torna referência nos espetáculos caipiras e nos anos 1930 é transportada para o rádio: histórias do cotidiano, piadas e anedotas, associadas à música, sempre cantadas e contadas em dialeto caipira. Esse padrão ele elabora para as Conferências Cornélio Pires, com as quais inova o mundo do espetáculo e alcança sucesso viajando pelo Brasil.

Especificamente no campo musical, Pires divulga em suas Conferências as composições, os músicos e instrumentistas caipiras. Em 1929, cria a Turma Caipira Cornélio Pires, composta de músicos, com o duplo objetivo de ampliar as atividades profissionais e espetáculos, além de mostrar com mais consistência a música caipira. Nesse mesmo ano, toma atitude inusitada no incipiente cenário fonográfico brasileiro. Como as empresas resistem à gravação da música caipira por motivos comerciais, ele mesmo financia o estúdio e a prensagem pela Colúmbia de cinco discos, com tiragem de cinco mil cada um, totalizando 25 mil unidades, quantidade excepcional para a época. A série de discos "independentes", realizada pela Turma Caipira, é vendida de mão em mão exclusivamente em suas apresentações. Das duplas trazidas por ele a São Paulo, algumas alcançam resultado considerável, como a formada por Mandi (Manuel Rodrigues Lourenço) e Sorocabinha (Olegário José Godoy). Além deles, participam das gravações Arlindo Santana, Sebastião Ortiz de Camargo (Sebastiãozinho), Zico Dias, Ferrinho, Mariano da Silva e Caçula.

De algum modo, as faixas gravadas reproduzem suas Conferências, ainda sem nenhuma ordem estabelecida. Elas contêm composições de alguns desses artistas e outras de sua própria autoria, como Bonde Camarão (1930), Moda da Revolução (1930), Sô Cabocro Brasileiro (1929). Essas canções são lançadas posteriormente por Raul Torres (1906-1970) e Serrinha, Tonico e Tinoco, Inezita Barroso (1925-2015), Roberto Correa (1957), Rolando Boldrin (1936) e Passoca (1949), assim como Casa Caipira, Jorginho do Sertão (1930) e Adeus Campina da Serra (1937).

Além disso, há várias peças folclóricas anônimas, nominadas apenas como toada, moda ou cateretê, cantados por artistas populares. Há também imitação de bichos e animais da roça. Por fim, o maior volume de registros fonográficos é composto principalmente de piadas, crônicas e "causos" narrados pelo próprio Cornélio Pires. Há controvérsias com relação à quantidade de discos lançados por ele ao longo da carreira. Até o momento, no entanto, permanecem registrados os 48 discos.

O êxito dos discos da série caipira de Pires estimula o interesse das gravadoras e emissoras de rádio. Elas apresentam discos e programas com a temática regional, seguindo seu modelo: música, piadas e causos contados em "dialeto caipira". A RCA Victor, por exemplo, cria a Turma Caipira da Victor, comandada por Mandi. Na rádio,a obra de Pires tem continuidade e se desdobra de diversos modos, como nos programas de seu sobrinho Ariovaldo Pires, mais conhecido como Capitão Furtado.

A extensa obra de Cornélio Pires apresenta um paradoxo que é fruto da tensão em seu papel determinante para a construção da música caipira como um gênero do espetáculo, adequado à indústria fonográfica e radiofônica (reconhecida posteriormente como música sertaneja), ao mesmo tempo que tem um forte sentido folclórico preservacionista. Atualmente, sua cidade natal, Tietê, conta com o Museu Histórico, Pedagógico e Folclórico Cornélio Pires e a Audioteca Cornélio Pires.

Fontes de pesquisa 10

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  • CALDAS, Waldenyr. O que é música sertaneja. Coleção Primeiros Passos 186, São Paulo, Ed. Brasiliense, 1987.
  • DANTAS, Macedo. Cornélio Pires: criação e riso. São Paulo, Duas Cidades, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1976.
  • FERRETE, J.L.. Capitão Furtado: música caipira ou sertaneja? Rio Janeiro, Funarte, 1985.
  • LOPES, Israel. Turma caipira Cornélio Pires: os pioneiros da "moda de viola" em 1929 - 70 anos da música sertaneja. São Borja, RS: M & Z (edição do autor), 1999.
  • MARCONDES, Marcos Antônio. (Ed.). Enciclopédia da Música Popular Brasileira: erudita, folclórica e popular. São Paulo: Art Editora,1977. 2 v.
  • MORAES, José Geraldo Vinci. Metrópole em sinfonia. História, cultura e música popular na São Paulo dos anos 30. São Paulo, Ed. Estação Liberdade, 2000.
  • MUGNANI Jr., Ayrton. Enciclopédia das músicas sertanejas. São Paulo, Letras e letras, 2001.
  • NEPOMUCENO, Rosa. Música Caipira: da roça ao rodeio. São Paulo: Editora 34, 1999.
  • TINHORÃO, José Ramos. Os gêneros rurais urbanizados. In: Pequena história da música popular. São Paulo, Circulo do livro, s/d.
  • VEIGA, Joffre Martins. A Vida Pitoresca de Cornélio Pires. São Paulo, Edições O Livreiro, 1961.

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