Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Marlos Nobre

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 29.05.2019
1939 Brasil / Pernambuco / Recife
Marlos Nobre de Almeida (Recife PE 1939). Compositor e regente. Aos 5 anos, ingressa no Conservatório Pernambucano de Música, onde se forma em piano e teoria musical em 1955. Entre 1956 e 1959, estuda harmonia e contraponto no Instituto Ernâni Braga. Vence concurso para solista de piano da Orquestra Sinfônica do Recife, em 1958. No ano seguinte,...

Texto

Abrir módulo

Biografia

Marlos Nobre de Almeida (Recife PE 1939). Compositor e regente. Aos 5 anos, ingressa no Conservatório Pernambucano de Música, onde se forma em piano e teoria musical em 1955. Entre 1956 e 1959, estuda harmonia e contraponto no Instituto Ernâni Braga. Vence concurso para solista de piano da Orquestra Sinfônica do Recife, em 1958. No ano seguinte, compõe sua primeira obra, Concertino, para piano e orquestra de cordas. Estuda composição com Hans-Joachim Koellreutter no 10º Curso Internacional de Férias da Pró-Arte em Teresópolis, Rio de Janeiro, em 1960, e com Camargo Guarnieri, em São Paulo, em 1961.

Muda-se para a cidade do Rio de Janeiro em 1962 e passa a trabalhar na Rádio MEC (Ministério de Educação e Cultura). Entre 1963 e 1964, cursa pós-graduação em composição no Centro Latino-Americano de Altos Estudos Musicais, do Instituto Torcuato Di Tella, em Buenos Aires, e se aperfeiçoa com importantes compositores, como o argentino Alberto Ginastera (1916 - 1983), o francês Olivier Messiaen (1908 - 1992), o norte-americano Aaron Copland (1900 - 1990) e os italianos Bruno Maderna (1920 - 1973) e Luigi Dallapiccola (1904 - 1975). Estagia no Centro de Música Eletrônica de Columbia-Princeton, em Nova York, com Wladimir Ussachevsky, em 1969.

Representa o Brasil na Tribuna Internacional dos Compositores (TIC) da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em Paris, em 1966, com sua peça musical Ukrinmakrinkrin. No ano seguinte, apresenta-se nos principais festivais e instituições norte-americanos, a convite do Departamento de Estado dos Estados Unidos (EUA), e compõe a trilha sonora do filme O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha. Sua obra Concerto Breve, para piano e orquestra, 1969, é apresentada em 1970 na TIC e no mesmo ano recebe do Conselho Superior de Música do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS/RJ) o prêmio Golfinho de Ouro.

Entre 1971 e 1976, Marlos Nobre coordena a Rádio MEC e organiza a Orquestra Sinfônica Nacional. Sua composição Sonâncias é executada na abertura da Olimpíada de 1972, ano em que é lançado o primeiro LP dedicado a sua obra. De 1976 a 1979, dirige o Instituto Nacional de Música da Fundação Nacional de Artes (INM/ Funarte), e em 1980 é compositor residente na Brahms-Haus em Baden-Baden, Alemanha. É eleito vice-presidente do Conselho Internacional de Música da Unesco na gestão 1981/1982, e presidente entre 1986 e 1987. Integra a Academia Brasileira de Música, entidade que preside por três mandatos consecutivos, de 1985 a 1993. É professor visitante de composição da Universidade de Yale, em 1992. Recebe o 6º Prêmio Ibero-Americano Tomás Luis de Victoria, na Espanha, em 2005.

Comentário Crítico

Ao lado de Edino Krieger, Cláudio Santoro, Guerra-Peixe e Gilberto Mendes, Marlos Nobre figura entre os compositores brasileiros de maior expressão no cenário internacional da segunda metade do século XX, e continua a se destacar no século XXI. Tendo estudado com os líderes (e antagonistas) das duas principais correntes musicais brasileiras do século XX, Hans-Joachim Koellreutter e Camargo Guarnieri, não chega a se filiar estritamente nem ao dodecafonismo nem ao nacionalismo, aliando elementos das duas estéticas aos mais diversos estilos e idiomas que proliferam no cenário da música erudita do pós-Segunda Guerra.

Sua obra pode ser dividida em cinco fases. Na primeira (1959-1963), cujas sonoridades lembram Ernesto Nazareth e evocam certo espírito nacionalista, Nobre ainda está à procura de um estilo. Inicialmente escrevendo sobre bases tonais, como no Concertino, para piano e orquestra, de 1959, ele passa a incorporar elementos atonais,1 politonais2 e dodecafônicos, como se nota no Divertimento, para piano e orquestra, de 1963. Na fase seguinte (1963-1969), que se inicia com estudos em Buenos Aires, une o aprofundamento da técnica dodecafônica ao uso de processos da música aleatória,3 sem, contudo, deixar de lado o caráter nacional de sua produção, por meio de temáticas folclóricas e melodias modais.4 Possui então um estilo mais sólido, caracterizado pelo uso de variações como procedimento técnico de composição. Fazem parte desse período o Ciclo Nordestino III, op. 22 para piano, 1966, e os Desafios, op. 31 para violino e cordas, 1968. A terceira fase (1969-1977) caracteriza-se pela integração dos processos composicionais dos períodos anteriores: atonalidade, serialismo, politonalidade e aleatoriedade. Nela destacam-se o Concerto Breve, op. 33 para piano e orquestra, 1969, Biosfera, op. 35 para orquestra, 1970, e Mosaico, op. 36 para orquestra, 1970. Na quarta fase (1977-1989), Nobre revela grande preocupação com a forma composicional, a qual deriva não de regras estabelecidas a priori, mas diretamente do material utilizado, por meio do desenvolvimento e da variação orgânica dos motivos e ideias iniciais. Destaca-se, nesse período, Sonâncias III, op. 49 para dois pianos e dois percussionistas, de 1980. O quinto e último período se inicia com o Concertante Imaginário, op. 74 para piano e orquestra de cordas, de 1989, em que funde procedimentos tonais aos da música contemporânea.

A rítmica nordestina - herança auditiva de sua infância no Recife - aparece constantemente em seus trabalhos, não tanto pela citação de células típicas (que não deixam de estar presentes) quanto pela presença de um pulso contínuo, com pontos de referência métrica (marcação) bem evidentes, sobre o qual o ritmo flui com a máxima liberdade. E, apesar das constantes alusões a sonoridades brasileiras, Nobre procura sempre uma linguagem moderna e radical, trazendo ares novos ao fatigado nacionalismo folclórico. Assim, embora lembre as sonoridades primitivistas de Villa-Lobos, a cantata Ukrinmakrinkrin, 1964, utiliza o serialismo como técnica composicional. Aliás, o compositor costuma ser elogiado pela capacidade de unir a técnica serialista a uma unidade de conjunto e equilíbrio raramente observada nesse tipo de trabalho, geralmente formado por materiais novos e originais, porém mal urdidos. Explora as possibilidades expressivas da percussão (como nas Variações Rítmicas, para piano e percussão, de 1963, ou em Tropicale, para flautim, clarinete, piano e percussão, de 1969) e realiza constantes pesquisas de timbres, além de colaborar para o desenvolvimento da composição violonística, com obras como Homenagem a Villa-Lobos (1977) e Concerto Duplo para Dois Violões e Orquestra (1995).

Em 2003, Amazônia Ignota, encomendada pela Fundação Apolo de Bremen, Alemanha, estreia no Schlosstheater Neues Palais, em Potsdam, sendo em seguida executada em Bayreuth, Würzburg, Bremen, Viena, Londres, Munique e Paris. No mesmo ano, Partita Latina, para violoncelo e piano, encomendada por Carlos Prieto, é mostrada no 6° Festival de Maio, em Guadalajara, México. Em 2005, por decisão unânime do júri, recebe o 6º Prêmio Ibero-Americano Tomás Luis de Victoria, na Espanha, no valor de 60 mil euros.

Suas obras Rituale Rhythmetronsão incluídas na trilha sonora da novela Selva de Pedra, da TV Globo, em 1972; o Desafio VIII, op. 31 nº8 para sax alto e piano, é gravado por Paulo Moura e Clara Sverner; e sua temática nordestina Cantiga de Cego: Ciclo Nordestino nº3, Capoeira, Martelo e Praianafigura no disco Alma Brasileira, dos irmãos violonistas Sergio e Odair Assad.

Notas
1 Técnica que evita o centro tonal - altura (nota) ou bloco sonoro (acorde) que servem de ponto de repouso na composição, em oposição a alturas/blocos que transmitem a sensação de tensão.

2 Técnica composicional que funde diferentes centros tonais.

3 Técnica em que o intérprete executa, aleatoriamente, alguns elementos da composição (altura, ritmo e/ou timbre), apenas indicados pelo compósito.

4 Melodias baseadas em modos (escalas não tonais), especialmente o mixolídio (que tem o sétimo grau abaixado).

Espetáculos de dança 1

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 6

Abrir módulo
  • CACCITORE, Olga. Dicionário biográfico de música erudita brasileira. Rio: Forense Universitária, 2005. p. 311-314.
  • CORKER, Maria Luiza. "'Sonâncias III, Opus 49' de Marlos Nobre". Latin American Music Review. Vol. 15, No. 2 (Autumn-Winter, 1994), p. 226-243.
  • MARCO, T. Marlos Nobre: el sonido del realismo mágico. Madrid: Fundación Autor, 2006.
  • MARIZ, Vasco. Figuras da música brasileira contemporânea. Brasília: UnB, 1970. p. 111-116.
  • NOBRE, Marlos. Página Oficial do compositor na Internet. Disponível em: <http://marlosnobre.sites.uol.com.br>. Acesso em 09 nov. 2010.
  • _______. "Nueve Preguntas a Marlos Nobre". Revista Musical Chilena, Chile, v. 33, n. 148, p. 37-47, 1979.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: