Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Véio

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 06.01.2021
12.05.1947 Brasil / Sergipe / Nossa Senhora da Glória
Cicero Alves dos Santos (Nossa Senhora da Glória, Sergipe, 1947). Escultor. Ganha de outras crianças o apelido de Véio por gostar de ouvir as conversas dos mais velhos. O fascínio por casos e lendas da cultura sertaneja acompanha o artista por toda a vida. Essas histórias compõem a base de seu trabalho e de sua relação com o mundo. No município ...

Texto

Abrir módulo

Cicero Alves dos Santos (Nossa Senhora da Glória, Sergipe, 1947). Escultor. Ganha de outras crianças o apelido de Véio por gostar de ouvir as conversas dos mais velhos. O fascínio por casos e lendas da cultura sertaneja acompanha o artista por toda a vida. Essas histórias compõem a base de seu trabalho e de sua relação com o mundo. No município vizinho de Feira Nova (Sergipe), no Sítio Soarte, cria o Museu do Sertão, reunindo um acervo de 17 mil obras que recontam os modos de vida e produção do sertanejo e preservam a cultura popular da região.

“Não sou de copiar, como papagaio”, afirma Véio, que nunca estudou arte, tampouco tem mestres, mas sempre se dedicou a ela com afinco. Ainda menino, nos intervalos do trabalho na roça, molda com cera de abelha pequenas figuras. Por considerar a atividade como “brincar de boneca”, desmancha as esculturas quando se aproxima um adulto. Com o tempo, abandona a cera e adota a madeira como matéria-prima. Mas não derruba árvores para obtê-la. Pelo contrário: seu instinto preservacionista leva-o a adquirir o último trecho de mata virgem da região. “Dou vida ao que já está morto”, diz1.

Com forte impulso criativo, dedica-se exclusivamente às suas esculturas, decisão recebida com estranheza pela família e por conhecidos. Opta pela vida austera e orgulha-se de nunca trabalhar para outrem e recusar-se a vender suas obras quando julga que o comprador não a valoriza. Em outras palavras, jamais compromete sua arte para garantir a sobrevivência, nem considera seu trabalho artístico como mero meio de vida. 

O escultor é um dos escolhidos pelo Prêmio Itaú Cultural 30 Anos, realizado em 2017, para destacar artistas que impactam o cenário cultural brasileiro nas últimas décadas. Com um método de trabalho claro e fértil, separa suas obras em dois grupos. “As peças maiores, coloridas, são vistosas, falam alto. São visíveis a distância, criam clareiras ao seu redor, mesmo quando atulhadas, como acontece em seu depósito, oficina e museu. Já as menores, que preservam a textura da madeira crua, são discretas, falam baixo”, sintetizam Carlos Augusto Calil (1951) e Agnaldo Farias (1955), curadores da retrospectiva do artista realizada em 2018 no Itaú Cultural2

Os trabalhos de maior dimensão são produzidos a partir de "troncos abertos”, como Véio chama os pedaços de madeira cujos ângulos e formas lhe sugerem o caminho a seguir. A eles agrega cores industriais, vibrantes e intensas, que dão coerência às esculturas e, segundo o crítico Rodrigo Naves (1955), geram um “efeito pop”. Essas figuras antropomórficas, que brotam do imaginário do artista ao entrar em contato com a peça a ser entalhada, dificilmente podem ser reduzidas à arte popular.

Segundo o crítico Ronaldo Brito (1949), as obras de Véio fogem do virtuosismo mimético característico desse tipo de produção para aproximar-se de questões próprias à arte moderna e contemporânea3. Além da contenção do gesto e das cores impactantes, esses trabalhos questionam a própria noção de espaço da arte. Véio distribui suas estranhas figuras pelo sítio, como se fossem habitantes do local e refere-se a elas como portadoras de história e vida. Mas a aparência dessas esculturas transmuta-se facilmente, dependendo do local e da posição em que se encontram. “Deitada, estava pedindo socorro; em pé, ela quis me abraçar”4, detalha o artista ao falar das sensações que a madeira de origem lhe transmite e que, de certa forma, são preservadas na peça final.

No segundo grupo, encontram-se os entalhes das "madeiras fechadas”, como Véio chama os troncos menos sugestivos, mais retos e aptos a entalhes mais imaginativos, detalhados e próximos do mundo real. Essas obras apresentam dimensões menores, algumas vezes do tamanho de uma cabeça de palito de fósforo. A diferença de tamanho, entretanto, não parece importante para o artista: as pequenas peças também pertencem ao mundo da narrativa e são como anedotas contadas por pelo artista.

O que eu quero “é mostrar para os amantes da arte que ela não é medida nem pelo tamanho nem pelo peso”. O que importa é “seu sentimento, sua forma de expressão”. Alguns temas são recorrentes: cenas domésticas, com mães e seus filhos, a labuta dos artesãos e do homem do campo, o descaso com a cultura e a solidão impotente dos índios. 

Véio também se abre para a torrente de mitos, lendas da cultura nordestina e encanta o público com sua mescla de fantasia e destreza. Na série Os Cão do Meu Inferno, retrata seres endiabrados em intenso tom de negro. Também retrata palhaços e recria  as narrativas e o imaginário do povo iletrado, que escuta embevecido desde menino.


Notas

1 Depoimento em Véio, documentário de Adelina Pontual (2005).

2 CALIL, Carlos Augusto; FARIAS, Agnaldo. Véio – A Imaginação da Madeira. São Paulo: Itaú Cultural, 2018, p.35.

3 Conversa em torno da exposição Véio – De Surpresa no Mundo, 16 jun. 2017. Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=43L0888NfKw >. Acesso em: 23 mar. 2018.

4 NAVES, Rodrigo. Cícero Alves dos Santos [Véio] – Esculturas. São Paulo: Martins Fontes, 2014, p.150.

Exposições 28

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 10

Abrir módulo

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: