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Música

João da Baiana

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 23.06.2017
17.05.1887 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
12.01.1974 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
João Machado Guedes (Rio de Janeiro RJ 1887 - idem 1974). Compositor e pandeirista. Neto de ex-escravos, filho de Félix José Guedes e Perciliana Maria Constança, é o caçula de 11 irmãos. Seus avós mantêm tradicional quitanda de artigos afro-brasileiros e sua mãe, Tia Perciliana (ou Prisciliana), também quituteira, forma com Ciata e Amélia as con...

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Biografia

João Machado Guedes (Rio de Janeiro RJ 1887 - idem 1974). Compositor e pandeirista. Neto de ex-escravos, filho de Félix José Guedes e Perciliana Maria Constança, é o caçula de 11 irmãos. Seus avós mantêm tradicional quitanda de artigos afro-brasileiros e sua mãe, Tia Perciliana (ou Prisciliana), também quituteira, forma com Ciata e Amélia as conhecidas Tias Baianas que habitam os bairros cariocas da Cidade Nova e Saúde. Deriva desse fato seu apelido "João da Baiana".

A situação familiar e comunitária facilita a participação desde cedo nas rodas de candomblé, de samba e de outras tradições culturais afro-brasileiras. Nesses encontros aprende a tocar pandeiro − que se torna seu principal instrumento − e outros instrumentos de percussão. Inicia a vida de instrumentista nos blocos e ranchos carnavalescos, mas é com o grupo de jovens que frequentam a casa das Tias Baianas − como Pixinguinha e Donga − que começa a trajetória artística. Tem seu pandeiro (considerado um instrumento de marginal, na época) apreendido pela polícia, porém, o político Pinheiro Machado, seu admirador, faz uma dedicatória num de seus pandeiros e isso lhe dá salvo-conduto. Após trabalhar no circo e atuar como pandeirista em conjuntos, é convidado por Pixinguinha para compor o grupo Oito Batutas, em 1922, mas recusa a oferta com temor de perder o emprego fixo no cais do porto.

No fim da década de 1920, inicia carreira de percussionista em várias emissoras de rádio cariocas, tocando pandeiro e o prato-e-faca, típico do samba de roda do Recôncavo Baiano. Começa a vida de compositor nessa década, com Pelo Amor da Mulata, de 1923, gravada por Patrício Teixeira em 1930, que também lança Beijo de Moça e Casado na Orgia, em 1933, e Mulher Cruel, em 1924. Sua produção é bem limitada e as canções mais conhecidas são Cabide de Molambo, 1928, e Batuque na Cozinha, 1968. Nos anos 1930 faz parte dos conjuntos Guarda Velha e Diabos do Céu, e na década seguinte participa da gravação da coleção Native Brazilian Music, com o maestro Leopold Stokowski, organizada por Heitor Villa-Lobos. Na década de 1950, é convidado por Almirante a formar, com Pixinguinha e Donga, o conjunto Velha Guarda.

Ele é um dos primeiros a gravar os então chamados pontos de macumba à frente do grupo João da Baiana e Seu Terreiro. Paralelamente à vida artística, trabalha desde criança como aprendiz na Marinha e no Exército, e depois desenvolve carreira no cais do porto, onde se aposenta como fiscal. Casa-se e tem dois filhos, que falecem ainda na infância. Em 1972, esquecido pelo grande público, passa a viver na Casa do Artista, onde morre, dois anos depois.

Análise

João da Baiana é um dos protagonistas das inúmeras experiências culturais e musicais que ocorrem na cidade do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX. Marcadas pela convivência, tensões e diálogos entre as tradições rurais, a expansão das várias formas de entretenimento urbano e também pela emergente indústria fonográfica, elas dão origem aos diversos gêneros musicais urbanos em decantação. Em sua trajetória se projetam aspectos da cultura urbana informal das ruas: as práticas das festas populares profanas e religiosas; as tradições da cultura afro-brasileiras; e, finalmente, a indústria do entretenimento e a produção destinada ao sucesso. Nesse sentido, a rede de relações que sua mãe, a Tia Perciliana (ou Prisciliana), estabelece é determinante para essa formação. João da Baiana cresce em um ambiente musical repleto de referências culturais do século XIX e de origem rural, mas que já comporta os novos elementos do cenário urbano carioca. É principalmente na casa da Tia Ciata que ele convive com esses múltiplos aspectos das culturas afro-brasileiras rurais e urbanas.

Suas composições têm temática evidentemente relacionada às tradições religiosas afro-brasileiras, como Que Querê (1932), Quê, quê, rê, quê, quê (1940) gravado pelo próprio João da Baiana e Seu Terreiro, em 1956, Lamento de Iansã e Lamento de Xangô (1952). É em razão desse seu conhecimento de pontos de candomblé e de macumba que Heitor Villa-Lobos o convida para participar em 1940 da gravação, sob orientação do maestro Leopold Stokowski, do disco Native Brazilian Music a bordo do navio Uruguai. Pelo mesmo motivo, lança em 1957 pela Odeon o LP Batuques e Pontos de Macumba, que conta com O Cachimbo da Vovó, Nanan Boroque e Amalá de Xangô, todas de sua autoria.

Além das composições com evidente acento religioso, João da Baiana faz dois sambas importantes: Cabide de Molambo, 1928, e Batuque na Cozinha, 1968. Lançados no LP Gente da Antiga, de 1968, gravados em conjunto com Pixinguinha e Clementina de Jesus, com produção de Hermínio Bello de Carvalho, ambos se destacam como crônica do cotidiano urbano do malandro e sambista carioca. No primeiro, aparece um tipo de personagem carioca do início do século XX, o malandro de rua com forte inspiração chapliniana. No segundo, narra as confusões que um malandro sambista apronta na cozinha em razão de sua predileção pela batucada e mulheres. Gravado em conjunto com Pixinguinha e Clementina de Jesus, o samba Batuque na Cozinha é regravado por Martinho da Vila, num disco homônimo lançado em 1972.

Apesar de esquecido e classificado pela crítica como membro, com seus contemporâneos, da "velha guarda", em 1968 apresenta na Bienal do Samba, da TV Record, a canção Quando a Polícia Chegar, interpretada por Clementina de Jesus. Como instrumentista é considerado pandeirista de referência para o desenvolvimento do samba urbano. Por isso, sempre é convocado para gravações de diversos intérpretes de renome e para compor inúmeros conjuntos, como Guarda Velha, Diabos do Céu, Cinco Companheiros, Grupo do Louro, Conjunto dos Moles entre outros.

Pandeirista e compositor, João da Baiana, assim como seu contemporâneo Heitor dos Prazeres, também é pintor amador dedicado. Sua importância como instrumentista e compositor pode ser medida pelo fato de ser o primeiro a conceder depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS), em 1968.

Obras 1

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Exposições 1

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Fontes de pesquisa 10

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  • ALBIN, Ricardo Cravo (Org.). As vozes desassombradas do Museu 1 - Pixinguinha - João da Baiana - Donga. Rio de Janeiro, MIS, 1970.
  • Acervo Instituto Moreira Salles. http://ims.uol.com.br/ims/.
  • História da Música Popular Brasileira. Donga e os Primitivos. São Paulo, Editora Abril, 1972.
  • LACERDA, Luiz Carlos (Diretor). Conversa de Botequim com João da Baiana. Documentário. 10 min, 35 mm. Rio Janeiro, 1972.
  • MARCONDES, Marcos Antônio. (Ed.). Enciclopédia da Música Popular Brasileira: erudita, folclórica e popular. São Paulo: Art Editora,1977. 2 v.
  • MOURA, Roberto. Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Funarte, 1983.
  • SANDRONI, Carlos. Feitiço decente. Transformações do samba no Rio de Janeiro (1917-1933). Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed./Ed.UFRJ, 2001.
  • TINHORÃO, José Ramos. História social da música popular brasileira. São Paulo, Editora 34, 1998.
  • VASCONCELOS, Ary. Panorama da música popular brasileira. São Paulo, Livraria Martins Ed., volume 1, 1964.
  • VELLOSO, Mônica. "As tias baianas tomam conta do pedaço: espaço e identidade cultural no Rio de Janeiro". In: Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 3, No. 6, 1990, pp. 207-228.

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