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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Waly Salomão

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 09.02.2021
03.09.1943 Brasil / Bahia / Jequié
05.05.2003 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional

Waly Salomão, 1971

Waly Dias Salomão (Jequié, Bahia, 1943 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2003). Poeta, produtor cultural, diretor artístico e letrista de música popular brasileira. Distingue-se na poesia por uma estética do excesso e da ruptura, num constante exercício de liberdade artística.

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Waly Dias Salomão (Jequié, Bahia, 1943 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2003). Poeta, produtor cultural, diretor artístico e letrista de música popular brasileira. Distingue-se na poesia por uma estética do excesso e da ruptura, num constante exercício de liberdade artística.

Nascido no interior baiano, filho de um imigrante sírio e de uma sertaneja, Waly Salomão desenvolve seu amor pelos livros ainda criança, por influência da família, que tem uma vasta biblioteca e o hábito de discutir obras literárias. Quando jovem, vai para Salvador estudar Direito na Universidade Federal da Bahia (UFBA), profissão que nunca exerce, e lá tem seu primeiro contato com movimentos culturais e políticos, participando ativamente do Centro Popular de Cultura (CPC), junto com outras figuras importantes da cultura brasileira, como o compositor Tom Zé (1936).  

É nesse contexto que entra em contato com o tropicalismo, movimento criado no fim da década de 1960 com o objetivo de romper fronteiras na cultura. Waly Salomão se integra a ele com suas poesias e letras de música. Em 1971, dirige o show FA-TAL - Gal a Todo Vapor, da cantora Gal Costa (1945), cujo álbum traz uma de suas mais conhecidas composições, a canção “Vapor Barato”, escrita em parceria com Jards Macalé (1943)

Waly Salomão passa a circular na atmosfera cultural do eixo Rio-São Paulo, consolidando-se como o principal representante da poesia tropicalista. Seu fazer poético se caracteriza por conciliar recursos da poesia concreta (como a criação de neologismos, trocadilhos e a visualidade da escrita com o humor), a irreverência, a coloquialidade e a temática urbana, elementos típicos da poesia marginal, à qual pertencem autores como Chacal (1951), Francisco Alvim (1938) e Ana Cristina Cesar (1952-1983). O próprio Waly Salomão afirma que a poesia é sempre marginal ou out: “[...] essa demência lunática é congênita ao livro e à poesia e ao lugar da poesia no mundo, que não pode ser mais out”1

Já bastante conhecido como letrista entre os tropicalistas, o poeta publica seu livro de estreia Me Segura qu'Eu Vou Dar um Troço (1972), que traz desenhos e textos em prosa, com projeto gráfico do artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980). Escrito na prisão (o autor é detido na época do regime militar), o livro faz diversas referências ao ambiente prisional, mas não é um diário de reclusão nem uma novela de caráter realista. Nele, já é possível identificar uma característica da obra de Waly: a dificuldade de ser descrita por classes e rótulos. Como analisa o crítico literário Antonio Candido (1918-2017), nesse livro “se  cruzam o protesto, o desacato, o testemunho, o desabafo, o relato, – tudo numa linguagem baseada geralmente na  associação livre e na enumeração caótica, formada de frases coloquiais, gíria  ‘hippie’, obscenidades, períodos truncados, elipses violentas, transições abruptas”2

Também em 1972, participa da organização de Os Últimos Dias de Paupéria, que reúne poemas e artigos de Torquato Neto (1944-1972), seu parceiro na poesia tropicalista e com quem edita o número único da revista Navilouca. Considerada uma das principais revistas de vanguarda da década de 1970, Navilouca publica autores como Augusto de Campos (1931) e Décio Pignatari (1927-2012), e tem colaborações do compositor Caetano Veloso (1942) e de Hélio Oiticica. 

Uma década depois, Salomão publica Gigolô de Bibelôs (1983). Neste livro, o poeta expressa um movimento de transformação e descoberta constante de identidades, como é possível notar no poema “Olho de Lince”, musicado pelo parceiro Jards Macalé. A obra marca um forte experimentalismo da oralidade própria da poesia, que apenas uma leitura em voz alta pode expressar adequadamente. Ainda na década de 1980, é diretor da Fundação Gregório de  Matos, em Salvador, um braço da Secretaria de Cultura da cidade.

Publica Armarinho de Miudezas (1993) e a biografia Hélio Oiticica – Qual é o Parangolé? (1996). Também em 1996 lança Algaravias: Câmaras de Eco, considerada a obra de maturidade do poeta. Neste livro, representando sua trajetória, Waly Salomão se aproxima de uma linguagem poética mais formal, mas mantém seus traços característicos, como as elipses e hipérboles. Nele, destaca-se “Fábrica do Poema”, poesia escrita em homenagem à arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992), em que Waly associa o fazer poético ao trabalho construtivo da arquiteta.

No início de 2003, assume a Secretaria Nacional do Livro, nomeado pelo então ministro da Cultura Gilberto Gil (1942), cargo que ocupa até seu falecimento, em maio do mesmo ano. Em 2004, é publicado o livro póstumo Pescados Vivos, no qual Waly Salomão explora diversas referências da poesia brasileira para criticar justamente a crítica literária especializada, academicista. Ao lado dessa erudição poética, aparecem também poemas com uma linguagem midiática próxima à do jornal, como “B.O. Boletim de Ocorrências” e “Saques”.  

Waly Salomão reflete uma época marcada pela transgressão nas expressões artísticas, não só no Brasil, como no mundo todo. Seus poemas são um importante registro do modo com que aquela geração concebe a cultura.

Notas:

1. SALOMÃO, Waly (2005, p. 142). Apud REGINA, Joana Horst; SOUSA, Edson Luiz André de. A palavra da poesia: percursos na obra de Waly Salomão. Polêm!ca, v. 10, n. 12, p. 186-201, abr./jun. 2011. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/polemica/article/view/2853. Acesso em: 3 jun. 2020.  

2. CANDIDO, Antonio (1977, p. 13). Apud  REBECHI JUNIOR, Arlindo. Waly Salomão: a poesia da inquietação. Comunicação & Educação, ano XXII, n. 1, p. 135-145, jan./jun. 2017. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/131547/129451. Acesso em: 3 jun. 2020

Obras 2

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Exposições 8

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Palestras 1

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Fontes de pesquisa 9

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  • AUTOR faz biografia de Oiticica. Folha de S.Paulo, Rio de Janeiro, 1 abr. 1996. Ilustrada Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/4/01/ilustrada/2.html. Acesso em: 4 jun. 2020. Acesso em: 4 jun. 2020.
  • CAMPOS, Haroldo de. No embalo da música das esferas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 6 de mai. 2003. Ilustrada, p. E3.
  • CANDIDO, Antonio (1977, p. 13). Apud REBECHI JUNIOR, Arlindo. Waly Salomão: a poesia da inquietação. Comunicação & Educação, ano XXII, n. 1, p. 135-145, jan./jun. 2017. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/131547/129451. Acesso em: 3 jun. 2020.
  • MACHADO, Cassiano Elek. Poesia se despede do trovador Waly Salomão. Folha de S. Paulo, São Paulo, 6 de mai. 2003. Ilustrada, p. E3.
  • PINTO, Manuel da Costa. Antologia comentada da poesia brasileira do século 21. São Paulo: Publifolha, 2006.
  • SALOMÃO, Waly (2005, p. 142). Apud REGINA, Joana Horst; SOUSA, Edson Luiz André de. A palavra da poesia: percursos na obra de Waly Salomão. Polêm!ca, v. 10, n. 12, p. 186-201, abr./jun. 2011. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/polemica/article/view/2853. Acesso em: 3 jun. 2020.
  • SALOMÃO, Waly. Gigolô de bibelôs. São Paulo: Brasiliense, 1983.
  • SALOMÃO, Waly. Me segura qu'eu vou dar um troço. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora / Edições Biblioteca Nacional, 2003.
  • SANCHEZ, Pedro Alexandre. Músico atuou nos bastidores. Folha de S.Paulo, São Paulo, 6 maio 2003. Ilustrada. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0605200310.htm. Acesso em: 3 jun. 2020.

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