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Enciclopédia Itaú Cultural

Paulo Freire

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 15.07.2021
19.09.1921 Brasil / Pernambuco / Recife
02.05.1997 Brasil / São Paulo / São Paulo
Paulo Reglus Neves Freire (Recife, Pernambuco, 1921 – São Paulo, São Paulo, 1997). Educador e filósofo. Dedica-se à prática de uma pedagogia libertadora, reelaborando constantemente sua teoria a partir da reflexão crítica sobre sua prática, revendo seus próprios preconceitos. Enquanto uma educação opressora reproduz a desigualdade, a pedagogia f...

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Paulo Reglus Neves Freire (Recife, Pernambuco, 1921 – São Paulo, São Paulo, 1997). Educador e filósofo. Dedica-se à prática de uma pedagogia libertadora, reelaborando constantemente sua teoria a partir da reflexão crítica sobre sua prática, revendo seus próprios preconceitos. Enquanto uma educação opressora reproduz a desigualdade, a pedagogia freireana é baseada no diálogo entre iguais: ambos são sujeitos criadores, corresponsáveis pela produção de conhecimentos.

Ingressa em 1943 na Faculdade de Direito da Universidade de Recife, onde se forma, mas jamais exerce a profissão, tornando-se professor de língua portuguesa de escola de segundo grau. Em 1946, Freire assume a direção do Departamento de Educação e Cultura do Serviço Social de Pernambuco, onde trabalha com alfabetização de populações vulneráveis. Em 1959, participa do concurso público para a cadeira de História e Filosofia da Educação de Belas Artes de Pernambuco com a tese Educação e Atualidade Brasileira. Freire fica em segundo lugar e não assume o posto de professor, mas segue o trabalho com a alfabetização de adultos.

Como diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade de Recife, Freire monta em 1961 uma equipe para alfabetizar 300 cortadores de cana em 45 dias. A experiência piloto é realizada em 1963 na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte, e fica conhecida como as Quarenta horas de Angicos.

Esquematicamente, o método testado em Angicos consiste em três momentos dialeticamente relacionados: 1) A investigação temática, quando educador e educando buscam palavras e temas centrais do cotidiano dos alfabetizandos; 2) A tematização, quando buscam a significação social dos temas levantados; e 3) A problematização, quando buscam superar uma visão mítica do mundo, a partir de uma compreensão crítica e histórica da realidade social. A experiência exitosa de Angicos é referência para o Plano Nacional de Alfabetização do governo de João Goulart (1919-1976). Com o golpe civil-militar de 1º de abril de 1964, o plano é extinto. Acusado de subversão, Freire fica preso por 72 dias, antes de ser condenado ao exílio.

Em 1965, exilado no Chile, Freire publica Educação como Prática da Liberdade, que atualiza o texto de sua tese de 1959 e se torna sua primeira obra de repercussão internacional. O livro inaugura a filosofia da educação freireana, baseada no respeito aos saberes dos educandos e na formação de cidadãos livres. Freire apresenta uma reflexão sociológica crítica sobre a formação histórico-cultural brasileira. A incipiente experiência  democrática do Estado brasileiro (ou do Brasil) é resultado de uma forte presença do autoritarismo colonial e das consequências da escravidão.

No Chile, Paulo Freire trabalha no movimento de reforma agrária da democracia cristã e para a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Em 1968, conclui o manuscrito de Pedagogia do Oprimido, publicado primeiro em inglês e espanhol. Em 1969, Freire aceita convite da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, onde atua como professor visitante por cerca de um ano.

Devido à perseguição política, Pedagogia do Oprimido é lançado no Brasil apenas em 1974. No livro, Freire aprofunda sua crítica ao que chama de "educação bancária", em que os educandos são considerados seres vazios, sobre os quais os educadores depositam conteúdos. Em oposição a esta, Paulo Freire defende uma educação protagonizada pelo educando, voltada para a desmistificação do mundo. A educação problematizadora visa à construção coletiva de um conhecimento crítico e à formação de indivíduos livres por meio de práticas democráticas.

A pedagogia dialógica de Freire é um instrumento de ampliação do potencial humano, nunca a repetição mecanicista de conteúdos. A leitura do mundo é anterior à leitura da palavra e continua dialeticamente durante e após a alfabetização. O educador deve estar aberto a rever suas certezas e aprender com o educando. Em 1970, Freire aceita o convite do Departamento de Educação do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), em Genebra, Suíça, e atua por dez anos com educação de adultos em Angola e Moçambique, ex-colônias portuguesas com recentes processos de independência. Em Guiné-Bissau, coloca a educação a serviço de um plano de reconstrução nacional pós-colonial.

Em Cartas a Guiné-Bissau. Registros de uma Experiência em Processo, publicado em 1977, Freire avalia suas experiências de educação na África. A principal crítica à sua prática ali foi a escolha do português como idioma da alfabetização quando grande parte dos trabalhadores não tinha este como idioma dominante. Freire reitera a importância de uma continuidade da educação pós-alfabetização que coloque a cultura do educando no centro do processo pedagógico.

Com o avanço da luta pela redemocratização, Paulo Freire retorna ao Brasil em 1980. Entre 1989 e 1991, atua como secretário de Educação da Prefeitura Municipal de São Paulo na gestão da prefeita Luiza Erundina (1934), onde cria o Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos, o Mova São Paulo, referência de gestão pública desde então. Em 1991, é fundado o Instituto Paulo Freire, em São Paulo, responsável pela organização e difusão do legado do educador. Publica em 1997 Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. A obra retoma os conceitos centrais de seu sistema filosófico à luz de suas experiências internacionais de educação popular e de gestão pública.

Mais do que educador e criador de um método pedagógico, Paulo Freire é autor de uma teoria do conhecimento voltada para a constituição de sociedades democráticas, críticas e libertárias.

Fontes de pesquisa 4

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  • ANDREOLA, Balduino A.; RIBEIRO, Mário Bueno. Paulo Freire no Conselho Mundial de Igrejas em Genebra. Estudos Teológicos, v. 45, n. 2, p. 107-116, 2005.
  • BRASIL. Ministério da Educação. Paulo Freire é declarado o patrono da educação brasileira. Homenagem. 16 abr. 2012. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2012. Disponível em: portal.mec.gov.br/ultimas-noticias/222-537011943/17681-paulo-freire-e-declarado-o-patrono-da-educacao-brasileira. Acesso em: 5 jul. 2021.
  • GADOTTI, Moacir (org.). Paulo Freire, uma biobibliografia. São Paulo: Cortez Editora, 1996.
  • INSTITUTO PAULO FREIRE. Paulo Freire é o terceiro pensador mais citado em trabalhos pelo mundo. Disponível em: https://www.paulofreire.org/noticias/463-paulo-freire-%C3%A9-o-terceiro-pensador-mais-citado-em-trabalhos-pelo-mundo. Acesso em: 4 jul. 2021.

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