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Literatura

Ana Paula Maia

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 14.01.2021
1977 Brasil / Rio de Janeiro / Nova Iguaçu
Ana Paula Maia (Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, 1977). Romancista, contista e roteirista. A prosa de ficção de Ana Paula Maia se concentra em questões como a violência relacionada a atividades profissionais socialmente desvalorizadas, à dimensão material da morte e ao descaso do poder público – aspectos retratados frequentemente em linguagem enxuta...

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Ana Paula Maia (Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, 1977). Romancista, contista e roteirista. A prosa de ficção de Ana Paula Maia se concentra em questões como a violência relacionada a atividades profissionais socialmente desvalorizadas, à dimensão material da morte e ao descaso do poder público – aspectos retratados frequentemente em linguagem enxuta e direta, acentuando o efeito de brutalidade.

Gradua-se em Publicidade, e em 2002 escreve para o teatro o monólogo O Rei dos Escombros, em coautoria com o poeta Mauro Santa Cecília (1962) e o ator Ricardo Petraglia (1950). Em 2003 estreia na literatura com o romance O Habitante das Falhas Subterrâneas, narrado pelo adolescente Ariel Esperanto, que viaja ao Rio de Janeiro em uma trama de desencontros, vivências sexuais e experiências com drogas. 

O livro seguinte, A Guerra dos Bastardos (2007), é uma movimentada narrativa em torno de personagens que transitam pelo submundo do crime e da indústria de filmes pornográficos. Com reviravoltas que incluem os mais diversos tipos de violência – de assassinatos a lutas clandestinas, da homofobia à misoginia –, costura referências do universo pop e apresenta os eventos com visualidade e ritmo intensos. 

Embora o segundo livro tenha sido bem avaliado pela crítica, é com a trilogia A Saga dos Brutos que Ana Paula Maia se consolida como romancista, propondo enredos mais simples e personagens mais profundas. O conjunto, formado por Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos (inicialmente publicado em capítulos na internet, em 2006), O Trabalho Sujo dos Outros (2009) e Carvão Animal (2011), pretende, nas palavras da própria autora, “expor como o caráter do ser humano pode ser moldado pelo trabalho que executa, como o meio intervém na construção das identidades e como essas identidades modificam o meio”1. Os protagonistas, sempre masculinos, desempenham atividades fundamentais para a sociedade, mas que são desvalorizadas por serem relacionadas ao abjeto, como o esgoto, o lixo, as vísceras animais e os cadáveres humanos. É o caso, por exemplo, do personagem Ronivon, que opera o forno de um crematório no último título da série. Não raro essas figuras se envolvem em situações nas quais a vida humana é desvalorizada, o crime é banalizado e as autoridades se omitem, revelando a impotência e o descaso do poder público brasileiro. 

Assim, embora possam cometer crimes, as personagens ganham interesse pelo modo como se inserem na sociedade, e não por sua marginalidade – o que acaba por distanciar a ficção de Ana Paula Maia de narrativas centradas em crimes, como as do escritor Rubem Fonseca (1925-2020), uma de suas influências, e também de romances que retratam o cotidiano de moradores das periferias urbanas brasileiras, como Cidade de Deus (1997), do escritor Paulo Lins (1958)

O personagem Edgar Wilson, por exemplo, que transita por diferentes livros da autora, trabalha em um abatedouro de bois que fornece carne para produção de hambúrguer em De Gados e Homens (2013) e surge como recolhedor de animais mortos para trituração e produção de adubo em Enterre Seus Mortos (2018). Brutalizado e autor de homicídios, ocupa o foco narrativo principalmente com atos que revelam sua humanidade. Neste último livro, por exemplo, embarca em uma jornada para garantir sepultamento digno a cadáveres não identificados, que encontra acidentalmente. Ao lado de Tomás – padre excomungado por ter cometido assassinato, mas que distribui consolo e bênçãos pelas estradas –, enfrenta a escassez de recursos públicos e a lotação dos necrotérios. 

Nesses livros, os diálogos realistas e a descrição das cenas ganham importância diante da sucessão de eventos narrativos, o que, somado ao narrador objetivo e aparentemente imparcial, leva a crítica a caracterizar o trabalho de Ana Paula Maia como naturalista em seu compromisso com o retrato de problemas sociais. Nesse sentido, a desumanização que resulta da banalização da violência e do valor da vida frequentemente se expressa por aproximações e contrapontos entre humanos e animais, como ocorre no conto “Javalis no Quintal”, em que o personagem Eulálio Marvim é pressionado a caçar. 

Com protagonistas vistos objetiva e exteriormente, construções que estimulam a visualidade e frequentes diálogos entre personagens, a narrativa de Ana Paula Maia é apontada como próxima à linguagem cinematográfica. A escritora atua também como roteirista, e redige o filme Deserto (2017), com o autor e diretor de cinema Guilherme Weber (1972), e a série Desalma (2019). Em 2019, vence o prêmio São Paulo de Literatura com o livro Enterre Seus Mortos.

Concentrada principalmente em personagens que realizam, como indica um de seus títulos, “o trabalho sujo dos outros” – desentupindo fossas, recolhendo lixo, quebrando asfalto, serrando a lataria de carros acidentados –, a obra de Ana Paula Maia é considerada singular na literatura brasileira contemporânea pelo modo cru como aborda a banalização da morte e da vida na sociedade contemporânea.

 

Nota:

1. MAIA, Ana Paula. Apresentação. Carvão animal. Rio de Janeiro: Record, 2011, s/p (recurso digital).

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