Artigo da seção pessoas Ernst Mahle

Ernst Mahle

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deErnst Mahle: 03-01-1929 Local de nascimento: (Alemanha / Baden-Württemberg / Stuttgart)

Biografia

Ernst Hans Mahle (Stuttgart, Alemanha,1929). Compositor, regente e professor. Durante a infância, tem aulas de flauta doce na escola. Em 1950, passa a estudar piano e é admitido no curso de composição do austríaco Johann Nepomuk David (1895-1977) na Staatliche Hochschule für Musik de Stuttgart. Transfere-se com a família para o Brasil em 1951, continuando seus estudos no Conservatório Dramático e Musical, em São Paulo, onde se forma em composição com o maestro João Sepe. Em 1952, torna-se aluno de flauta e composição de Hans Joachim Koellreutter (1915-2005) na Escola Livre de Música Pró-Arte.

Aperfeiçoa-se em ambos os domínios em cursos de férias na Europa com compositores como o francês Olivier Messiaen (1908-1992), o austríaco Ernst Krenek (1900-1991) e o alemão Wolfgang Fortner (1907-1987), e maestros como o croata Lovro von Matacic (1899-1985), o austro-húngaro Raphael Kubelik (1914-1996) e o alemão Hans Müller-Kra (1908-1969), entre 1953 e 1955. Inicia sua carreira como pedagogo na Pró-Arte, lecionando harmonia e contraponto. Lá, encontra sua futura esposa, a pianista Maria Apparecida R. Pinto (Cidinha), com quem funda, em 1953, uma filial do instituto em Piracicaba1.  Por mais de 50 anos, atua nessa escola como professor, regente do coral e das orquestras de câmara e sinfônica, e diretor artístico. Em 1955, funda a primeira Orquestra Filarmônica Infantil de Piracicaba e idealiza o concurso bianual “Jovens Instrumentistas do Brasil”, que preside entre 1971 e 1991.

Como professor, escreve arranjos e composições, muitos deles utilizando o folclore brasileiro, para todos os instrumentos em formações solistas. Produz cerca de 2 mil obras, das quais cerca de 500 composições originais, incluindo 3 óperas. Naturaliza-se brasileiro em 1962. É vice-presidente da Sociedade Brasileira de Música Contemporânea (1976-1981 e posteriormente em 1993) e membro da Academia Brasileira de Música.

Análise

Em Mahle, é impossível separar a carreira didática da composicional. Atreladas à experiência profissional e humana do artista, ambas marcam as mais de cinco décadas de dedicação à Escola de Música de Piracicaba (EMP).

Durante os anos 1950,  no entanto, período no qual Mahle é aluno de Koellreutter e professor da EMP, vemos as faces pedagógica e artística dissociadas. A primeira traz um estilo tradicionalista neoclássico, fruto do trabalho com o compositor Johann Nepomuk David. A segunda, tendências experimentais mais modernas e universalistas, seguindo a influência de Koellreutter. Exemplos dessa vanguarda podem ser ouvidos em obras como as Sete peças sobre uma ou duas notas só (1954), Intervalos (1960), Trio para flauta, violino e piano (1952) ou Quatro estudos para flauta (1953)

A dicotomia desaparece gradativamente, sobretudo a partir da década de 1960, com a ausência de Koellreutter no país2. A conjuntura vivida na escola também determina essa mudança. Os grupos musicais infantis na EMP, por exemplo, leva Mahle a desenvolver repertório específico para as crianças, além de repertório solista e camerístico para cada um dos instrumentos ali lecionados. De fato, suas obras para iniciantes são “[…] as primeiras peças brasileiras para estudantes de violino, flauta, violoncelo, contrabaixo e praticamente todos os instrumentos”3 orquestrais. Nelas, o folclore, as formas clássicas,  a fraseologia e elaboração temática tradicionais, seguem o conceito alemão da Gebrauchsmusik (música funcional)4 para facilitar a assimilação pelos alunos, o que confere ao compositor a denominação de neoclássico.

Ao longo dos anos, didática e estética acabam por fundir-se, num processo em que “a composição e o ensino [...] [impõem], um ao outro, suas necessidades e limites”5. O compositor define esse resultado, em termos estéticos, como “um meio termo entre a vanguarda e o tradicional”6. Tal avaliação é elogiada por compositores como Osvaldo Lacerda (1927-2011)7 e críticos como Afrânio Garboggini, sobretudo por seu caráter nacional.

A falta de professores de instrumentos na escola faz com que o compositor os aprenda para que possa ele mesmo lecioná-los. Com isso, sua escrita instrumental, orgânica, é  perfeitamente adequada tanto técnica quanto idiomaticamente a cada um dos instrumentos para os quais compõe.

Sua produção conta com cerca de 2 mil obras escritas, das quais cerca de 500 são composições originais. Apresenta um grande número de concertos virtuosísticos para quase todos os instrumentos da orquestra, além de três óperas, entre elas Maroquinhas Fru Fru, com libreto da teatróloga Maria Clara Machado (1921-2001).

Notas

1 Em 1961, a instituição torna-se independente e transforma-se na Escola de Música de Piracicaba. Em 1998, é transferida ao Instituto Educacional Piracicabano (IEP). Todo o seu acervo, incluindo instrumentos e partituras, lhe é doado. Como homenagem, a escola passa, a partir daí, a denominar-se Escola de Música de Piracicaba “Maestro Ernst Mahle”.

2 Koellreutter parte em 1962 para Alemanha, com o prêmio da Fundação Ford. Entre 1963 e 1975, trabalha na Alemanha, na Índia e no Japão, retornando ao Brasil logo depois.

3 ALVES, Rodrigo. Ernst Mahle: perto de 2000 obras. Jornal de Piracicaba, Piracicaba, 14 mar. 2009.

4 Obras como Mikrokosmos e For Children, do compositor húngaro Béla Bartók, mostram-se assim como uma forte influência, por cumprirem, nas palavras de Pieter Rahmeier, “uma função didática ao mesclarem o folclore com o idioma moderno, ainda que dentro de um nível técnico limitado e compreensível para os alunos”. In: RAHMEIER, Pieter. Suíte para violão de Ernst Mahle: uma edição crítica e de performance. Dissertação (Mestrado em Música) – Universidade Federal de Goiás, Goiás, 2014. p. 23.

5 BARROS, Guilherme Antonio Sauerbronn de. Goethe e o pensamento estético-musical de Ernst Mahle: um estudo do conceito de harmonia. Tese (Doutorado em Música) – Centro de Letras e Artes da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (CLA/ Unirio), Rio de Janeiro, 2005. p.45-46.

6 Entrevista ao jornal La Prensa, de Buenos Aires (s.d.) MAHLE, apud: BARROS, Guilherme Antonio Sauerbronn de. Goethe e o pensamento estético-musical de Ernst Mahle: um estudo do conceito de harmonia. Tese (Doutorado em Música) – Centro de Letras e Artes da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (CLA/ Unirio), Rio de Janeiro, 2005. p. 30.

7 Lacerda afirma que o que o fascina nas obras “é o caráter nacional delas, o que revela o amor e carinho que Mahle tem por sua pátria de adoção”. Apud: GOULART, Jefferson (Org.). Mahle: Catálogo de obras. Piracicaba: Ação Cultural, 1987. p. 59.

Outras informações de Ernst Mahle:

  • Habilidades
    • Compositor
    • Regente/maestro
    • Professor
  • Relações de Ernst Mahle com outros artigos da enciclopédia:

Fontes de pesquisa (7)

  • ALVES, Rodrigo. Ernst Mahle: perto de 2000 obras. Jornal de Piracicaba, Piracicaba, 14 mar. 2009.
  • ASANO RAMOS, Eliana. “Uma análise da canção Os Sinos de Ernst Mahle”. II Congresso da Associação Brasileira de Performance Musical. Vitória: Abrapem: Ufes: Fames, 2014. p. 335-341
  • BARROS, Guilherme Antonio Sauerbronn de. Goethe e o pensamento estético-musical de Ernst Mahle: um estudo do conceito de harmonia. Tese (Doutorado em Música) – Centro de Letras e Artes da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (CLA/ Unirio), Rio de Janeiro, 2005.
  • GOULART, Jefferson (Org.). Mahle: Catálogo de obras. Piracicaba: Ação Cultural, 1987.
  • RAHMEIER, Pieter. Suíte para violão de Ernst Mahle: uma edição crítica e de performance. Dissertação (Mestrado em Música) – Universidade Federal de Goiás, Goiás, 2014.
  • TOKESHI, Eliane. As Sonatas e Sonatinas para piano e violino de Ernst Mahle: Uma Abordagem dos Aspectos Estilísticos. Per Musi, Belo Horizonte, vol. 3, 2002. p.43-56
  • ZANON, Fábio. “Os criadores: Ernst Mahle. In: O Violão Brasileiro. Programa de rádio. São Paulo: Rádio Cultura, 2007. Disponível em: < http://vcfz.blogspot.com.br/2007/05/75-ernst-mahle.html >. Acesso em: 07 nov. 2014.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ERNST Mahle. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa536931/ernst-mahle>. Acesso em: 15 de Mai. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7