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Teatro

Guilherme Coelho

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 15.05.2017
1950 Brasil / Paraíba / João Pessoa
Guilherme Pontes Coelho (João Pessoa, Paraíba, 1950). Ator e diretor. Adolescente, frequenta curso de extensão em artes da Universidade Federal da Paraíba e tem aula com os artistas plásticos Raul Córdula (1943) e João Câmara (1944). Em seguida, mora no Recife para prosseguir seus estudos secundários e acompanha os espetáculos do Teatro Popular ...

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Biografia

Guilherme Pontes Coelho (João Pessoa, Paraíba, 1950). Ator e diretor. Adolescente, frequenta curso de extensão em artes da Universidade Federal da Paraíba e tem aula com os artistas plásticos Raul Córdula (1943) e João Câmara (1944). Em seguida, mora no Recife para prosseguir seus estudos secundários e acompanha os espetáculos do Teatro Popular do Nordeste (TPN), da Companhia Barreto Júnior, no Teatro Marrocos. Toma gosto pelo teatro de revistas ao ver shows do produtor e diretor Carlos Machado (1908-1992).

Entra no Mosteiro de São Bento, em Olinda, em 1966, e engaja-se na pastoral dos jovens. Enquanto estuda filosofia e teologia no mosteiro, faz pedagogia na Universidade Federal de Pernambuco. Passa a morar na comunidade de seminaristas da rua da Boa Hora, em Olinda, onde conhece os artistas da cidade e se aproxima da Associação dos Rapazes e Moças do Amparo. Com eles monta, em maio de 1974, o espetáculo Vivencial I. A peça, criação coletiva com base na colagem de textos diversos, estreia no auditório do Colégio São Bento. Seu caráter transgressor e o interesse despertado no público leva o grupo a se apresentar em outros espaços cênicos.

Com o êxito do Vivencial, deixa a vida religiosa e passa a atuar como mentor intelectual do grupo. Confecciona figurinos e dirige, entre outros, os espetáculos Genesíaco (1974), O Pássaro Encantado da Gruta do Ubajara (1975), Nos Abismos da Pernambucália (1975), Vivencial II (1976) e Sobrados e Mocambos (1977). Em 1978, dirige Repúblicas Independentes, Darling, que leva o Vivencial ao Rio de Janeiro e São Paulo pelo Projeto Mambembão, em 1979.

Participa da criação do Vivencial Diversiones, café-teatro, localizado numa área pobre, próxima ao mangue entre Olinda e Recife. Nesse local, dirige Bonecas Falando para o Mundo (1979) e colabora com Carlos Bartolomeu (1953) e Antonio Cadengue (1954) na elaboração do texto de All Star Tapuias. Sua última participação no grupo acontece em 1981, quando realiza a adaptação e direção do espetáculo Em Cartaz, o Povo.

No final do mesmo ano vai para o Rio de Janeiro trabalhar com Luiz Mendonça (1931-1995). Retorna ao Recife meses depois e, com o fim do Vivencial, trabalha com a Aquarius Produções Artísticas. Em 1983, dirige para a Companhia Práxis Dramática o espetáculo Tal e Qual, Nada Igual 2. Em 1987, muda-se para Brasília e dedica-se ao ensino, voltando anos depois à vida monástica junto aos monges beneditinos.

Análise

A ação teatral de Guilherme Coelho é marcada pela rebeldia, identificação e proximidade com os movimentos de contracultura. Ela nasce no âmbito familiar como resposta à rigidez da educação paterna, que o leva a adotar um comportamento inspirado no movimento hippie, despertando nele a curiosidade por uma vida mística. A primeira montagem da qual participa – Vivencial I – é fruto da intersecção dessas vivências no engajamento como seminarista na pastoral da juventude, acompanhando a renovação proposta pela teologia da libertação, e o desejo de lutar pela liberdade de expressão dos jovens.

Ao criar o Grupo Vivencial (1974-1981) com os jovens egressos da Associação de Rapazes e Moças do Amparo, em Olinda, Coelho, com o grupo, coloca em prática os seus ideais libertários e adota o mesmo espírito associativo dos grupos de criação coletiva que surgem no Brasil naquele período. Para ele, a vinculação afetiva e de ideias é uma forma de confrontar a repressão do regime militar.

Como mentor intelectual do grupo Vivencial, é capaz de reunir os anseios dos integrantes e atuar como catalisador do processo criativo. Em suas palavras: "O grupo compartilhava, absoluta e radicalmente tudo. Cada um participava ao seu modo, com suas histórias de vida, suas deficiências, habilidades e competências. O trabalho de criação era circular e contínuo. Era a pulsação política do desejo de cada participante que constituía a matéria prima de nossos espetáculos"1.

Nesse processo criativo, Coelho e o grupo integram na encenação a influência dos tropicalistas, de grupos como o Oficina (1958), do teatro de revista, e defendem a clara rejeição aos modelos tradicionais de produção teatral. Com a premissa de que todas as coisas têm em si uma dimensão teatral, o grupo ocupa um território de transgressão como forma de desafiar a censura e os bons costumes, pensando o teatro como veículo de formação e expressão do indivíduo, centrado na relação ator-plateia. Tânia Pacheco percebe isso ao comentar em O Globo, a peça Repúblicas Independentes Darling: "sobra ao grupo uma intensa preocupação com o público para quem trabalha, por quem busca lançar no palco a reflexão crítica do dia a dia com seus sonhos e limites"2.

Na fase do Vivencial Diversiones, o gerenciamento do café-teatro fica sob a responsabilidade de Coelho que abre o espaço para travestis, pequenos traficantes, segmentos marginalizados da sociedade, de modo a profissionalizá-los como artistas. O espaço, o figurino e os objetos de cena são todos feitos com material reciclado. Nas montagens prevalece a colagem, marcada pelo hibridismo e pela intertextualidade.

Reflexo dessa opção cênica, Bonecas Falando para o Mundo, com direção de Guilherme Coelho, estreia em 1979 e fica em cartaz por dois anos com elenco composto por bailarinos, comediantes, strip-girls e travestis. O espetáculo alterna números de dança e música com quadros que, de forma escrachada, versam sobre sexo e política, o que leva o escritor João Silverio Trevisan (1944) a destacar, em artigo para o jornal Lampião da Esquina, como o Vivencial atua com um componente de marginalidade radical que passa da vida para o palco e se torna tema e estilo3.

Defensor, até hoje, do fazer teatral como "espaço educativo libertário da resistência", Guilherme Coelho prossegue fiel a um teatro capaz de desafiar o artista e mobilizar o público, "na hora da partilha, celebração e comunhão"4.

Notas
1 COELHO, Guilherme. Conferência apresentada no Congresso Arte/Educação SESC-PE UFPE, Recife, jul. 2014.
2 FIGUEIRÔA, Alexandre. Transgressão em 3 atos: nos abismos do Vivencial. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2011.
3 Id. Ibid.
4 COELHO, Guilherme. Entrevista concedida a Alexandre Figueirôa. Recife, juL. 2014.

Espetáculos 60

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Fontes de pesquisa 4

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  • COELHO Guilherme. Conferência apresentada no Congresso Arte/Educação SESC-PE UFPE, Recife, jul. 2014.
  • COELHO Guilherme. Entrevista concedida a Alexandre Figueirôa. Recife, julho/2014.
  • FIGUEIRÔA, Alexandre. Transgressão em 3 atos: nos abismos do Vivencial. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2011.
  • Planilha enviada pelo pesquisador Igor Almeida. Não Catalogado

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